Perfil: Crivella aposta nos evangélicos e em Bolsonaro para a reeleição

Maiá Menezes
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Gabriel Monteiro/Agência O Globo
Gabriel Monteiro/Agência O Globo

RIO — Foi em um reunião do último domingo, dia 8, na Zona Oeste do Rio, com cerca de 70 candidatos a vereador de oito partidos que ficou exposta a tônica da campanha do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), candidato mais rejeitado do país, segundo as pesquisas de intenção de voto feitas ao longo dos últimos 45 dias. De um lado, um Crivella incomodado cobrava maior empenho dos políticos em pedir votos para a sua reeleição. Por outro, a reclamação era geral sobre a prioridade dada ao material de campanha do prefeito para candidatos ligados ao presidente Jair Bolsonaro.

Ligar-se ao Palácio do Planalto com um discurso conservador e contra a esquerda foi a principal estratégia de campanha de Crivella desde outubro, a despeito de ter sido ministro da Pesca de Dilma Rousseff e integrado a base do governo Lula no Senado.

Além disso, ao contrário da campanha há quatro anos, o prefeito voltou a realçar seus laços evangélicos e sua origem como bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, criada pelo seu tio Edir Macedo. Se em 2016 tentou se desvincular para se apresentar como um gestor que não misturaria religião com política, desta vez passou a citar Deus e sua fé com frequência. É, aliás, religiosa a visão que tem do seu próprio mandato:

— Governar a crise é passar pelo deserto. E deserto é um calor causticante de dia, frio mortal à noite. O apóstolo Paulo dizia que quando nos sentimos fracos diante de grandes problemas, aí que somos forte, porque o poder de Deus se aperfeiçoa na fraqueza. Hoje conheço isso de perto — escreveu o prefeito, em resposta a uma série de perguntas enviadas.

Divisão na base

Embora tenha deixado de esconder seu lado evangélico, o prefeito, que já gravou dez álbuns de música gospel e escreveu três livros religiosos, não é mais unanimidade no segmento, como na disputa em 2016 contra Marcelo Freixo (PSOL). A pandemia inflamou a sensação de que a primeira gestão de uma grande capital de um integrante da Universal deixou lacunas. O pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, por exemplo, tem flertado com a campanha do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM).

— Temos hoje cerca de 32% do eleitorado evangélico na capital. Pouco menos da metade estará com o prefeito — diz o pastor, cuja preocupação é fazer campanha contra questões identitárias, como a educação sexual nas escolas e o aborto, bandeiras associadas à esquerda.

Lideranças do segmento acreditam que uma intervenção recente de Bolsonaro pode aumentar o patamar previsto por Malafaia — num eventual segundo turno, o pastor já se declara adversário de Martha Rocha (PDT), também na briga para enfrentar, provavelmente, Eduardo Paes (DEM).

Enquanto o ex-prefeito foi bombardeado com vídeos na propaganda de Crivella na TV, que tratavam das delações premiadas de executivos de empreiteiras e do quadro financeiro deixado na prefeitura, Martha não foi atacada pelo prefeito diretamente. A tarefa ficou para as redes bolsonaristas, que passaram a defender o voto contra uma delegada de esquerda. Sobre a pedetista, prefere usar a ironia:

— A Martha Rocha não é aquela que perdeu por polegadas a mais um miss Universo? — disse o prefeito, aos risos, referindo-se à já falecida homônima da atual candidata, eleita miss Brasil em 1954, depois derrotada miss Universo.

Coordenador da campanha de Crivella, o ex-deputado federal Rodrigo Bethlem reconhece os obstáculos para a reeleição. O prefeito teve que lidar com diversas agendas negativas ao longo de dois meses, como a acusação do Ministério Público de ter montado um QG da propina na prefeitura e o flagrante do grupo chamado “Guardões do Crivella”, que impedia reportagens negativas em hospitais da rede municipal. Por outro lado, criou a pauta contra o pedágio da Linha Amarela e conseguiu uma decisão favorável no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o que movimentou as redes positivamente a seu favor. Bethlem também reclama da falta de recursos do partido e de tempo para a campanha, já que Crivella dividiu as agendas de candidato e prefeito.

— Há vantagem em toda a campanha à reeleição, mas nessa não tivemos. Foi uma campanha fria. A mais mequetrefe de que já participei — reconhece Bethlem. (Colaborou Felipe Grinberg)