PERFIL-Da cadeia à volta ao Planalto, Lula testa legado num Brasil dividido

Lula é cercado por apoiadores em Curitiba

Por Lisandra Paraguassu

SÃO PAULO (Reuters) - Ao longo dos últimos 20 anos, Luiz Inácio Lula da Silva foi do céu ao inferno. Primeiro operário eleito presidente da República, pelo PT, encerrou seu segundo mandato com 87% de aprovação, mas poucos anos depois foi condenado por corrupção e passou 580 dias preso. Em uma segunda reviravolta, teve processos anulados, recuperou seus direitos políticos e neste domingo obteve nas urnas o direito de comandar o Brasil mais uma vez na democracia.

Poucos dias antes do primeiro turno, Lula protagonizou um evento simbólico nesta acirrada campanha, na qual enfrentou um fortalecido presidente Jair Bolsonaro, que manteve até o fim bons laços com investidores e com o poderoso setor do agronegócio. Naquela noite, o petista foi aplaudido por nomes de peso do PIB nacional em um jantar e viu ali mais uma chancela para sua volta ao centro do palco político do país.

No jantar, Lula havia passado um recado importante: "O Lulinha Paz e Amor, e o Geraldo, estão de volta", disse, mencionando seu candidato a vice, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSB). A expressão remete ao personagem que ocupou a campanha de 2002 quando, pela primeira vez, foi eleito presidente: o conciliador, o negociador e, na economia, o responsável, que não pretende propor loucuras.

Não foram poucas as vezes que o mercado e outros setores se perguntaram se esse Lula atual é o mesmo que manteve os fundamentos da economia em 2003 ou um Lula magoado e mais radical pelos infortúnios dos últimos anos.

Desde o 2021, quando decidiu ser novamente candidato, o petista tem tentando demonstrar que não, não tem mágoa ou desejo de vingança.

"Já vivi tudo que um homem poderia ter vivido na vida. Eu não tenho espaço para ódio, não tenho espaço para vingança", disse, em uma das suas propagandas de campanha, antes de completar 77 anos na última quinta-feira.

Formado como liderança no sindicato de metalúrgicos do ABC Paulista, o ex-presidente fez sua primeira campanha presidencial em 1989 ainda com o perfil de líder sindical, mas conseguiu agregar a seu lado a social-democracia do então tucano Mario Covas e o PDT de Leonel Brizola em um segundo turno contra Fernando Collor de Mello.

Nas duas eleições seguintes, perdeu no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso (PSDB), na esteira do Plano Real, que resolveu décadas de inflação descontrolada no país.

Ao ser eleito em 2002, Lula se beneficiou do desgaste de oito anos de governo tucano e diversas crises econômicas internacionais, mas também de um novo figurino, conciliador, e onde deixou de lado os pensamentos econômicos de esquerda mais radicais e se moveu para o centro.

Foi depois de deixar a Presidência que Lula perdeu seu espaço político. A crise econômica internacional enfrentada por sua sucessora Dilma Rousseff, aliada a políticas equivocadas, balançaram a credibilidade do partido, que deixaria o poder num impeachment. Somada à operação Lava Jato, que revelou o esquema de corrupção na Petrobras --e no qual o ex-presidente foi acusado e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro-- sua biografia parecia enterrada para sempre.

Preso no dia 7 de abril de 2018, impedido de concorrer à Presidência em 2018, Lula foi solto em 8 de novembro de 2018, depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) rever uma decisão prévia, de 2016, e derrubar a autorização de prisão de condenados em segunda instância.

Hoje, o petista não deve nada à Justiça. Duas outras decisões do STF, uma que concluiu que os julgamentos não deviam ter ocorrido em Curitiba, e outra que considerou o então juiz Sergio Moro parcial, anularam os processos.

Ao ser libertado, Lula começou a reconstruir seu espaço e, nessa eleição despontou como único nome capaz de bater Bolsonaro, ainda que surprendido por um disputa muito mais acirrada do que antecipada pelas principais pesquisas.

FRENTE AMPLA

Ao construir uma aliança em torno de 10 partidos, principalmente de esquerda, Lula agregou uma mudança histórica: um ex-tucano como vice, Geraldo Alckmin --que foi seu rival na disputa pela Presidência em 2006.

Mas já no primeiro turno foi angariando apoio de nomes como os ex-ministros Marina Silva e Henrique Meirelles, manifestos de intelectuais, economistas e artistas em defesa de um voto menos para eleger Lula e mais para tirar Bolsonaro.

No segundo turno seus apoios cresceram, com destaque para a senadora Simone Tebet (MDB), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno da eleição presidencial, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso juntamente com vários tucanos históricos, além de economistas responsáveis pelo Plano Real.

Em suas conversas, Lula deixa claro que sabe que, no poder, terá de tentar curar um Brasil dividido, onde a fome e a miséria cresceram no pós-pandemia e a violência política tomou as ruas como poucas vezes no passado recente. A seu favor pesa a capacidade de falar com todos os lados.

Hoje um dos seus mais ferrenhos defensores, e um dos destaque da estratégia digital, o deputado federal André Janones (Avante-MG) conta que, pré-candidato à Presidência, foi convidado a conversar com Lula --por quem acabou desistindo da candidatura-- e foi avisado pelo presidente do seu partido: "Não encontra com ele, se você encontra já era. O cara seduz todo mundo que conversa com ele, estou avisando", contou Janones em suas redes sociais.

Em 2016, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, um então senador com trânsito político em Brasília explicou a diferença entre Lula e sua sucessora, e o que tinha levado à queda de Dilma: "Lula podia até não gostar de você, mas você sai de uma reunião com a certeza que ele era teu melhor amigo. Dilma pode até gostar de você, mas você sai de lá com a certeza que ela te odeia."

Lula vinha repetindo que, se eleito, não seria candidato a uma reeleição aos 81 anos. Apesar das caminhadas de seis quilômetros e a musculação diárias e o novo casamento com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, Lula admite que a idade "cobra seu preço" --ele usa aparelho de audição em determinadas situações.

Acusado por vezes de ser centralizador, tenta criar dentro do PT novas lideranças, como o ex-prefeito de São Paulo e candidato ao governo paulista, Fernando Haddad, um de seus braços-direitos. Se o fomento vai dar certo, ainda está por ver-se. Hoje, ainda, o PT e toda a centro-esquerda vivem à sombra do nordestino de Garanhuns, criado em São Paulo. E, como sempre destaca, o único operário a jamais chegar à Presidência da República.