Perfil: Delegada Martha Rocha sobressai em debate e vira vidraça dos adversários

Chico Otavio
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Foto: Leo Martins/Agência O Globo
Foto: Leo Martins/Agência O Globo

RIO — Já havia sido autorizado aos candidatos fazer campanha eleitoral nas ruas no fim de setembro, mas era mais fácil encontrar Martha Rocha (PDT) naquele mês nos corredores da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) do que pedindo votos e distribuindo santinhos na sua primeira tentativa de conquistar um cargo majoritário.

Filiada a um partido que só conseguiu ser competitivo no estado em um passado muito distante, com nomes como Leonel Brizola, Saturnino Braga e Anthony Garotinho, Martha já estava satisfeita se pudesse sair maior do que entrou da campanha. Veio, no entanto, o debate da Band em 1° de outubro, o único da disputa, e a repercussão do seu desempenho estimulou o PDT — além da própria candidata — e ligou o alerta dos seus principais concorrentes.

A parlamentar de 61 anos, com mais da metade da vida na Polícia Civil do Rio e no segundo mandato como deputada estadual, passaria de estilingue a vidraça, com direito a ter o passado revirado pelas campanhas rivais. Conforme foi crescendo nas pesquisas, chegando a empatar pela margem de erro em segundo lugar na disputa, Martha viveu o ônus de ser o fato novo da vez na política carioca. Ou seja, de ter o seu histórico exibido ao público como novidade, enquanto tudo o que se falava sobre Eduardo Paes, Marcelo Crivella e Benedita da Silva soava como mais do mesmo.

Notícias envolvendo o seu nome começaram a ser marteladas na televisão. A campanha de desconstrução da sua imagem usou o anexo 73 da delação, homologada pela Justiça, de Carlos Miranda, ex-operador do ex-governador Sérgio Cabral, em que ela é acusada de ter recebido recursos de caixa dois na sua campanha a deputada há seis anos — o que ela nega.

O fato de ter sido chefe de Polícia de Cabral entre 2011 e 2014 acabou virando mais um elemento usado pelos adversários. Por fim, o namoro, nos anos 1990, com o então delegado Inaldo Santana, seu ex-chefe de gabinete, que foi preso em flagrante e processado por corrupção por ter recebido dinheiro do bicheiro Castor de Andrade para não reprimir o jogo do bicho, também virou alvo.

— Eles estão acostumados a ser manchetes das páginas policiais. Não sabem fazer (campanha) de outra maneira. Só concorrem porque estão pendurados em liminares. Sofreram busca e apreensão, não eu — enfureceu-se na quinta-feira, enquanto seguia de carro para uma visita ao Morro do Borel, na Tijuca, saindo do seu padrão de voz baixa e mansa ao se expressar. — Já conseguimos tirar 14 fake news do ar — completou, em tom de comemoração, sobre as ações judiciais que sua campanha moveu contra acusações que circularam nas redes, apoiadas nos fatos envolvendo a delação de Miranda, o período na chefia de Polícia Civil e o namoro do passado com o delegado.

Usando e abusando do bordão “Coragem para fazer diferente”, entoado em tom firme e repetido no horário eleitoral, Martha fez uma campanha em que predominou o conceito da delegada de polícia que “vai colocar ordem na casa” de uma cidade e estado onde os escândalos de corrupção se sucedem ano após ano. O estilo apresentado na TV, avaliam aliados, passa um pouco longe do seu. Martha jamais foi vista batendo boca com adversários ou aliados. Ela mesmo conta que, embora tivesse feito o melhor possível nas aulas de tiro na academia, nunca disparou uma bala em operações de rua.

Padrinhos de olho

Coube ao marqueteiro Leandro Groppo, responsável pela campanha vitoriosa de Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais, em 2018, criar a pegada da campanha da pedetista, que começou a chamar a atenção das figuras nacionais do PDT, como o presidente do partido, Carlos Lupi, e o ex-ministro Ciro Gomes.

Embora não quisesse se vincular a nenhum nome nacional, a pedetista acabou fazendo lives com Ciro. Além disso, deixou circular o rumor de que ele poderia integrar o primeiro escalão de um hipotético governo em caso de vitória nas urnas. “Isso pode ter prejudicado a imagem de uma candidata de centro, importante para ela”, queixou-se uma pessoa da sua equipe, que acompanhou as idas e vindas de Martha desde outubro sobre qual era, afinal, o seu espectro político. A pedetista começou a campanha preferindo adotar o rótulo de progressista. Passadas algumas semanas, deixou escapar que era uma delegada de esquerda.