Perfil ‘inautêntico’ do Facebook foi acessado em endereços de Bolsonaro, diz PF

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Presidente Jair Bolsonaro
PF identificou acesso em perfil 'inautêntico' no Facebook a endereços ligados ao presidente Jair Bolsonaro.(Photo by EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
  • Perfil ‘inautêntico’ derrubado pelo Facebook foi acessado da casa de Jair Bolsonaro no Rio e de dentro do Planalto

  • Investigação da Polícia Federal identificou rede de contas falsas derrubadas pelo Facebook

  • Informação consta de relatórios da PF durante as investigações do inquérito dos atos antidemocráticos

Investigação da Polícia Federal identificou que, entre a rede de contas falsas derrubadas pelo Facebook em junho do ano passado, está um perfil operado de endereços ligados ao presidente Jair Bolsonaro: o Palácio do Planalto e a casa da família na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

A informação consta de relatórios produzidos pela PF durante as investigações do chamado inquérito dos atos antidemocráticos, que apura a organização e o financiamento de atos antidemocráticos no país em 2020, e revelado nesta segunda-feira (7) pelo jornal Estado de S. Paulo.

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As manifestações pediam ataques ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal e faziam apologia ao AI-5, considerado o ato mais repressor da ditadura militar. Parlamentares e blogueiros bolsonaristas são investigados no inquérito.

Os investigadores analisaram o uso das redes sociais e a identificação de contas declaradas inautênticas pelo Facebook. Em primeiro lugar, a PF analisou relatório produzido pela Atlantic Council, que faz análises independentes sobre a remoção de perfis da rede social por ‘comportamento inautêntico coordenado’. O trabalho resultou na identificação de 80 contas consideradas inautênticas responsáveis pela difusão de informações antidemocráticas.

Em seguida, operadoras de internet foram intimadas a compartilhar os números de IP (espécie de RG atribuído a cada computador ou celular conectado à internet) dos terminais usados para operar esses perfis e os dados usados nos cadastros desses IPs, incluindo localização de acesso.

A conclusão foi a de que ao menos 1.045 acessos partiram de órgãos públicos, incluindo a Presidência da República, a Câmara dos Deputados, o Senado e o Comando da 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea do Exército. É justamente nesta lista que constam acessos a partir da rede de wifi do Palácio do Planalto e da casa dos Bolsonaro no Rio de Janeiro.

Nos endereços ligados a Bolsonaro, foram acessadas a conta de Instagram Bolsonaro News e o perfil pessoal no Facebook de Tércio Arnaud Thomaz, assessor do presidente apontado como integrante do chamado ‘gabinete do ódio’.

“Tática do suposto Gabinete do Ódio”, afirma a consultoria Atlantic Council. “Esse comportamento persistiu durante a campanha de 2018 e continuou depois que Bolsonaro assumiu o cargo. Muitas dessas postagens foram publicadas durante o horário de trabalho, o que pode ser uma indicação de que Tércio Arnaud Thomaz estava postando neste site – que não está oficialmente conectado à Presidência – durante o horário oficial do gabinete”, diz outro trecho do relatório.

O relatório da PF afirma que o Facebook apontou que a derrubada das contas usou com base a seguinte tipologia estabelecida pela empresa: “operações executadas por um governo para atingir seus próprios cidadãos. Isso pode ser particularmente preocupante quando combinam técnicas enganosas com o poder de um Estado”.

Ataques ao STF

O relatório parcial feito pela Polícia Federal também mostra que os atos antidemocráticos realizados em diversas partes do Brasil foram organizados por aliados do presidente Jair Bolsonaro. Foi o mesmo grupo que atacou o Supremo Tribunal Federal depois de um julgamento sobre a pandemia de covid-19.

Os ataques ao Supremo aconteceram quando a Corte decidiu que gestores públicos poderiam ser punidos caso não seguissem a ciência durante a pandemia.

Segundo informações do relatório, a Polícia Federal analisou mensagens no celular do empresário Otávio Fakhoury, apoiador de Bolsonaro, trocadas com a deputada Bia Kicis (PSL-DF), bolsonarista de primeira ordem, em 22 de maio de 2020.

A parlamentar enviou um áudio ao empresário dizendo que “o [ministro Luís Roberto] Barroso chegou a citar a hidroxicloroquina. Ou seja, estão querendo impedir né o Bolsonaro de... de recomendar né”.

Na resposta, Fakhoury xinga os ministros do STF. “Canalhas. Olha, vai ser muito difícil terminar esse governo sem entrar de cabeça numa guerra institucional contra eles, porque eles é que invadem o Executivo.”

Investigação aponta suspeita de "rachadinha"

Apesar de pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para arquivamento do inquérito de atos antidemocráticos, a Polícia Federal pediu à PGR em janeiro novas diligências e indicou pelo menos seis linhas adicionais de investigação no relatório parcial.

Investigações apontam suspeita de "rachadinha" em gabinete de deputados bolsonaristas, uso de verba federal para financiamento dos atos e de recursos do exterior.

Um relatório parcial da PF, enviado à PGR no início do ano, obtido pela TV Globo, mostra que a corporação diz ter encontrado indícios de que apoiadores e parlamentares bolsonaristas discutiram ações para a propagação de discursos de ódio e a favor do rompimento institucional.

No documento, a Polícia Federal indica uma série de linhas para o aprofundamento das investigações. Essas sugestões incluem:

  • apurar uma suposta articulação para evitar que um sócio do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos fosse chamado para depor à CPI das Fake News;

  • conferir se houve direcionamento de verbas do governo federal para sites e canais bolsonaristas;

  • investigar repasses a uma empresa de tecnologista ligada à publicidade do Aliança pelo Brasil (partido que Jair Bolsonaro tentou fundar) e que também prestou serviço para parlamentares governistas;

  • apurar valores repassados por servidores públicos ao blogueiro Allan dos Santos, incluindo uma funcionária do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES);

  • investigar a existência de um braço estrangeiro de financiamento dos atos antidemocráticos, contando com um acordo de cooperação internacional com o Canadá;

  • aprofundar investigações sobre uma possível "rachadinha" em gabinetes de deputados governistas na Câmara dos Deputados, com o redirecionamento das verbas para o financiamento dos atos antidemocráticos.

Ministro Alexandre de Moraes durante sessão do STF (Rosinei Coutinho/SCO/STF)
Ministro Alexandre de Moraes durante sessão do STF (Rosinei Coutinho/SCO/STF)

O relator do caso no STF, ministro Alexandre de Moraes, enviou esse relatório parcial da PF à PGR em 4 de janeiro. A PGR só se manifestou nesta semana, com o pedido de arquivamento do inquérito.

À TV Globo, a Procuradoria afirmou que fez uma “auditagem” da investigação feita pela PF, mas não providenciou novas diligências.

Ao pedir o arquivamento do inquérito, o parecer do vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, afirma que as investigações da Polícia Federal não conseguiram apontar a participação dos deputados e senadores nos supostos crimes investigados.

O ministro Alexandre de Moraes ainda vai analisar o pedido de arquivamento feito pela PGR e o material produzido pela PF.

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