Perfil: Paes controla a língua e se blinda para evitar novo revés eleitoral

Janaína Figueiredo
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Foto: Leo Martins/Agência O Globo
Foto: Leo Martins/Agência O Globo

RIO — A estação do BRT da Praça do Bandolim, em Curicica, foi o cenário de uma conversa entre um pequeno grupo de moradores e o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) na quarta-feira, dia 4. Foram dez minutos apenas, mas ali, nos poucos segundos de descontração que se permitiu, Paes mostrou o que ele próprio chama de seu “lado Maricá” (referência ao episódio em que foi flagrado chamando a cidade de “merda de lugar” para o ex-presidente Lula, que reagiu constrangido à piada). Ao falar em Curicica sobre seu projeto de BRT rosa para mulheres, virou para o marceneiro Pedro Teodoro e disse:

— Mas não é para malandro como você não, hein — disse, logo depois rebatido por um sem graça Teodoro, alertando ser “muito bem casado”.

Aos 51 anos, Paes sabe exatamente o que explica a derrota sofrida na eleição passada para o governador afastado Wilson Witzel (PSC): as acusações de corrupção com empreiteiras que sofre na Justiça pelos seus dois mandatos como prefeito entre 2008 e 2016; a ligação com o ex-governador Sérgio Cabral, preso e condenado a mais de 300 anos de prisão; e o tal “lado Maricá” que às vezes vem à tona com uma gafe ou piada que desconforta o interlocutor.

Se num passado não muito distante Paes teve de pedir desculpas por expressões machistas, nesta campanha o ex-prefeito se blindou para ter erro zero. Escondeu agendas da imprensa, economizou nas declarações e, com isso, evitou polêmicas que mancharam sua reputação nos últimos anos (pesquisas durante a campanha mostraram a sua rejeição em cerca de 30%).

O episódio de 2016, quando foi filmado dizendo a uma beneficiária do programa “Minha Casa Minha Vida, que poderia “trepar muito” em seu novo apartamento, gera um mea culpa sobre o seu grupo político, junto desde a época em que foi subprefeito de Jacarepaguá na era Cesar Maia.

—O episódio me ensinou que minha geração tem uma formação machista — admite Paes, que tem sido chamado por aliados nesta campanha de “Dudu paz e amor” pela postura mais humilde de reconhecer erros do passado.

Sempre líder nas pesquisas desde o início de outubro, Paes foi obrigado a dar um cavalo de pau na sua estratégia eleitoral exatamente em 23 de outubro. Neste dia, o Datafolha apontou um crescimento de Martha Rocha (PDT) e a sua vitória em uma simulação de segundo turno contra Paes. O ex-prefeito mostrou-se tenso naquele período para quem o perguntava sobre a possibilidade de nova derrota e reagiu: abdicou de apresentar propostas e criticar Crivella em parte do seu tempo no horário eleitoral gratuito, e partiu para uma campanha de desconstrução da pedetista na TV.

Ao falar dos seus dois principais adversários nessa eleição, o “Dudu paz e amor” acaba descambando para o “lado Maricá” que fala impetuosamente antes de pensar e, depois tenta corrigir o tom. Mais ou menos o que aconteceu no debate da Band em que atacou a falta de preparo de Martha Rocha para atuar no Executivo, mas depois repetiu seguidas vezes a expressão “com todo respeito” a cada vez que se referia a pedetista.

— O Crivella não sabe o que é dívida pública. A Martha... também não sabe de nada, tadinha. Mas isso não é machismo — diz, ao ser confrontado com a crítica feita pelos seus adversários de que deixou o município com um rombo financeiro após as obras da Olimpíada.

Sem nacionalizar

Sabendo que seu nome ficou vinculado à chamada “velha política”, Paes fez movimentos nos últimos anos para repaginar a imagem. Por indicação do magnata Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York (2002-2014), foi contratado como gerente da montadora chinesa BYD para a América Latina. Quando o Paes da iniciativa privada voltou a dar lugar para o político, tentou trazer o ex-deputado federal e colunista do GLOBO Fernando Gabeira para ser vice na chapa.

—Ele me procurou, disse que minha presença na chapa ampliaria a possibilidade de vitória —contou Gabeira, que recusou a ideia.

Com uma estratégia de não se vincular a nenhuma figura nacional na campanha, Paes gosta de dizer que mantém boa relação com políticos da esquerda e direita. E já projeta o que seria caso fosse eleito:

—Tinha uma ótima relação com Cabral, com Lula, Dilma, Pezão. Os copos dos que iam à Gávea Pequena estavam sempre cheios. Se Deus quiser ainda vou convidar o Bolsonaro e o Claudio Castro e vou encher o copo deles, porque é isso, sou uma pessoa aberta.

E se sofrer mais uma derrota eleitoral no Rio?

— Se perder, vou pra casa de vez — assume.