De perfume de Clarice a cartas com Julio Cortázar: conheça o acervo pessoal de Nélida Piñon

Apresença de Nélida Piñon continua viva em originais, cartas, fotografias, agendas, anotações, receitas de família, perfumes e inúmeros objetos pessoais. A escritora carioca nos deixou em dezembro, aos 85 anos, mas seu legado está muito bem guardado em seus quatro apartamentos na Lagoa. A maior parte do material foi reunido e catalogado ao longo dos últimos 20 anos no Centro de Memória Nélida Piñon — vasto acervo que ocupa um imóvel inteiro, quatro andares abaixo do que a autora morava.

Escritores consagrados sabem que sua obra sobreviverá a eles. Nem todos, porém, têm a consciência (ou a oportunidade) de estruturar seu espólio literário e pessoal ainda em vida. Nélida fazia parte do segundo time, e era até considerada por seus pares como um caso extremo nesse sentido. Tinha obsessão em preservar documentos relacionados à sua vida e ao trabalho, por menor importância que aparentavam ter (até o seu primeiro prato de sopa faz parte da coleção). Conforme o desejo da autora, o material será em breve transferido para uma instituição cultural ainda a ser definida.

— O acervo da Nélida é o paraíso do pesquisador — diz o poeta, tradutor e crítico Antonio Carlos Secchin, colega de fardão da escritora na Academia Brasileira de Letras. — Conviviam nela dois temperamentos que parecem opostos. De um lado, uma imaginação poderosa. Do outro, um espírito pragmático. Apesar de ser muito sofisticada, Nélida não era dessas escritoras ensimesmadas: ela gostava de ouvir as vozes da rua, de se abrir para o mundo.

Conselhos de Jorge Amado

Expoente do boom literário latino-americano dos anos 1960, Nélida conviveu com personalidades importantes de seu tempo e sabia que sua trajetória também era a trajetória de outros (“A História é mais poderosa do que nós”, costumava dizer a escritora). Correspondeu-se com diversos vencedores do Nobel, como Gabriel García Marquez, Toni Morrison, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa (de quem foi amiga íntima), e outros tantos cotados para o prêmio, como Manuel Puig, Jorge Amado e Carlos Fuentes.

Metodicamente catalogadas, as cartas do arquivo têm tudo para render um grande livro. Em uma missiva toda rasurada, de Paris, Cortázar pede desculpas pelas erratas pois ainda estava aprendendo a usar a máquina de escrever elétrica (os dois haviam se conhecido na capital francesa e, em um convescote animado no apartamento do argentino, divertiram os convidados imitando Chaplin em dueto).

Em 1989, quando Nélida fazia campanha para entrar na ABL, Jorge Amado alertava a futura imortal para tomar cuidado com os “velhinhos safados” da Casa (“os jovens são mais ainda”, acrescentou o mestre baiano). Já Vargas Llosa abriu o coração: se já não fosse comprometido, casaria com Nélida (ou tentaria em vão, já que a amiga nunca teve interesse).

Clarice 'engarrafada'

O acervo reúne de tudo um pouco: uma receita do famoso bacalhau de sua mãe, os menus dos jantares preparados pela cozinheira e, claro, os originais de suas obras. Uma peculiaridade é que a escritora preservava também versões preliminares, expondo seus erros e indecisões. Há oito versões de “A república dos sonhos”, uma saga de quase 800 páginas.

O tesouro, contudo, não se resume a pedaços de papel — também oferece experiências sensoriais. Nessa área, nenhum item é mais surpreendente do que um frasco de perfume que pertenceu a Clarice Lispector. É a “Clarice engarrafada”, como definiu Nélida. E com razão, já que o aroma, armazenado desde os anos 1970, permanece intacto.

Nélida e Clarice foram muito próximas. A primeira ainda era uma jovem promessa da literatura quando arrecadou fundos para ajudar a veterana em sua última hospitalização, em 1977. A contabilidade das despesas, que inclui valores doados para cuidados médicos e até segurança (foi contratado um profissional para vigiar a porta e evitar fotos sensacionalistas da escritora entubada), é outro item curioso do arquivo.

A presença de Clarice também se faz presente na residência de Nélida — ou melhor, em um dos quatro apartamentos do prédio que era usado como escritório e sala de visitas. Na parede da sala de estar estão pendurados dois quadros pintados por Clarice. Um foi presente da amiga; o outro, que pertenceu ao escritor Autran Dourado, foi arrematado em um leilão em 2019.

— Nélida sabia que o concorrente tinha como teto R$ 200 mil, então quando chegou-se nesse valor, ela subiu para R$ 220 mil e levou — conta Karla Vasconcelos, ex-assistente da escritora e herdeira de seu espólio, que presenciou a compra. — Era um preço alto. Mas ela dizia: “Clarice tem que ficar na casa dela, não pode ir para estranhos".

Mudança em vista

Mesmo abrigado em um prédio residencial, o atual Centro de Memória é, como Nélida, um espaço “aberto” — na medida do possível. A autora recebia — e até hospedava — pesquisadores ou simples admiradores interessados em consultá-lo. A mudança para uma instituição, no entanto, democratizará seu acesso. O material, aliás, ainda não foi digitalizado e, por isso, não pode ser consultado on-line. Mais de sete mil itens da sua biblioteca pessoal já haviam sido doados para o Instituto Cervantes em 2017, que cinco anos depois inaugurou a Biblioteca Nélida Piñon.

— O arquivo tem que ser integralizado, a Nélida não pode ficar esquartejada — diz Karla, que além de guardiã da obra também ficou como tutora das duas cachorras da escritora, Suzy e Pilara. — A Nélida não jogava fora um único papel, manteve todas as suas agendas completas, dia a dia, com tudo que fez e com todo mundo que falou. Estamos buscando uma instituição que saiba trabalhar com este tipo de material.

As anotações nas agendas foram essenciais para guiar a advogada Kristie Vasconcelos, responsável pela organização do acervo. Mesmo sem experiência com arquivos literários, ela foi designada por Nélida por seu conhecimento jurídico (afinal, os documentos envolvem informações íntimas sobre outras personalidades).

— Nélida guardava todos os presentes que ganhava, como se mantivesse um pedacinho de cada pessoa que lhe dava — diz Kristie. — Quando tinha 12 anos, ganhou um sabonete Yardley (marca inglesa famosa fundada no século XVIII) e nunca usou, mesmo sendo o desejo de consumo de uma jovem.

Em julho, viagem de despedida

A razão de ser do Centro de Memória Nélida Piñon pode ser resumida na figura do jovem João Henrique Silva. Em 2018, quando tinha 17 anos, o estudante de matemática de Casanova, interior da Bahia, encantou-se ao ver uma entrevista da escritora na televisão. Enviou uma carta para ela, contando que havia começado a ler sua obra. Nélida respondeu no mesmo dia, iniciando uma amizade à distância que cultivaria até o fim da vida.

Os dois haviam combinado de se conhecer pessoalmente ainda em 2022, depois que a autora voltasse de Portugal. Mas, poucos dias antes do regresso, ela acabou passando mal por causa de problemas nas vias biliares e não resistiu. A convite de Karla Vasconcelos, João Henrique Silva, hoje com 22 anos, pegou o avião pela primeira vez na vida e viajou ao Rio para o velório. A tristeza do desencontro logo se dissipou ao desbravar o arquivo. No fim, foi como se tivessem, de fato, se encontrado.

— Fiquei quase uma semana mergulhado no arquivo e foi a forma que encontrei de me aproximar dela — diz Silva, que pretende completar a leitura da obra de Nélida até o fim de 2023. — É extraordinário como ela documentava cada dia da vida dela.

Quando, em julho do ano passado, Nélida embarcou com Karla para Portugal, já tinha em mente que aquela poderia ser uma viagem de despedida. Colega de ABL, Ana Maria Machado lembra que a autora lhe telefonou antes de viajar, pedindo para se encontrar com ela.

— A meta dela era muito clara: disse que não queria apenas uma horinha, mas um dia inteiro comigo — conta Machado.

Na mesma época, o jornalista Carlos Andreazza, editor de Nélida na Record entre 2012 e 2021, recebeu um áudio da escritora que também parecia anunciar um adeus. Na mensagem, contou que viajava para cumprir série de compromissos profissionais na Europa, mas também para revisitar as suas origens. Era, em suas palavras, uma “rota do coração”. A autora passou por Cotobade, província galega de onde veio sua família — e com a qual ela manteve vínculo por toda a vida.

Romance póstumo inédito

Foi em 2017, após o susto de um falso diagnóstico de câncer, que Nélida intensificou o preparo de sua partida, literária e pessoal. Amigos lembram que a escritora, que nunca teve filhos, estava preocupada com o futuro de suas cachorras (chegou a procurar um fundo de garantia para eles). No fim, os apartamentos foram herdados por Karla, mas com uma cláusula de que não poderão ser vendidos até a morte dos bichinhos.

Com grande dificuldade para enxergar nos últimos meses, Nélida passou a ditar seus textos. Nas viagens, Karla carregava as cachorras e um gravador para tudo quanto é lado. A ex-assistente prevê que muitos livros póstumos deverão sair desses arquivos sonoros. Confirmado, por enquanto, há apenas um romance inédito que ela havia deixado para ser publicado após a sua morte.

Outro possível futuro livro seria a reunião dos inúmeros discursos e palestras de Nélida Piñon no Brasil e no exterior.

— A Nélida foi uma precursora aqui no Brasil do escritor como evento — lembra Andreazza. — Ela buscou seu lugar no mercado estrangeiro com a mesma organização com que depois montou seu arquivo. Ficou próxima de grandes escritores lá fora e conseguiu ser agenciada pela Carmen Balcells (influente agente espanhola). Era empenhada em tudo que fazia, e não se acomodava nunca.