Periferias de SP têm até 16 vezes mais estudantes em escolas públicas do que bairros ricos; número pode aumentar após pandemia

João de Mari
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A girl paints during a class at a community library in the Morro do Salgueiro favela, Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, Aug. 27, 2020. While schools are closed to prevent the spread of the coronavirus, teacher Ana Paula Bloch develops an in-person school reinforcement work with students in a community library, in an attempt to minimize the impacts of the coronavirus on the education of children. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
Índice de desigualdade chega ser a 16 vezes maior em distritos periféricos (Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo)

As regiões periféricas da cidade de São Paulo têm mais alunos matriculados no Ensino Básico da rede pública em comparação aos bairros nobres do município. De acordo com dados do Mapa da Desigualdade 2020, divulgado nesta quinta-feira (29), o índice de matrículas em escolas públicas nessas localidades chega a ser 16 vezes maior.

Em Cidade Tiradentes, por exemplo, na periferia da Zona Leste de São Paulo, 87,8% dos alunos estudam em uma escola pública, enquanto no Jardim Paulista, distrito nobre da Zona Oeste, são apenas 5,4% dos estudantes em escolas públicas. O Ensino Básico é o nível de educação correspondente aos primeiros anos da formação escolar.

No Jardim Ângela, distrito pobre na Zona Sul da cidade, o índice de matrículas é 86,6%. O local é o segundo com mais matrículas na rede pública. No Alto de Pinheiros, distrito rico da Zona Oeste, são 7,7% dos alunos do Ensino Básico em uma escola pública.

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Para chegar a esse resultado, a Rede Nossa São Paulo, responsável por elaborar o relatório, utilizou o número de matrículas no Ensino Básico em escolas públicas e o número total de matrículas no Ensino Básico. Os dados, do Censo Escolar e da Secretaria Municipal da Educação (SME), são referentes ao ano de 2019.

De acordo com o documento, os baixos índices de matrículas em escolas públicas são um reflexo de duas variáveis. A primeira delas é a falta de oferta local, fazendo com que os responsáveis tenham que matricular seus filhos e filhas em outros distritos. Já a segunda diz sobre a renda familiar mais alta que permite a matrícula em escolas particulares.

Na avaliação da assessora de projetos da Rede Nossa São Paulo, Carolina La Terza, os indicadores retratam o nível econômico das famílias espalhadas pelo território da cidade.

“A gente tem cerca de 70% das matrículas em São Paulo na rede pública e a distribuição no território é bem desigual. As famílias que moram em distritos com rendas mais altas acabaram optando por matricular seus filhos e filhas em escolas particulares”, afirmou.

Matrículas em escolas públicas podem aumentar após pandemia

Dados do Programa Cidades Sustentáveis em parceria com o Ibope Inteligência mostram que 39% dos gestores municipais no Brasil acreditam que a educação foi a área mais impactada pela Covid-19. Sem aulas presenciais durante meses e com a restrição de acesso à internet por grande parte dos alunos, os municípios estão preocupados com a retomada da educação nas cidades.

Para La Terza, dados sobre as matrículas na rede pública são muito importantes, sobretudo em um momento de pandemia do coronavírus, onde há discussões sobre a reabertura das escolas. Ela avalia que o número de estudantes da Rede Básica do ensino público pode aumentar após a pandemia.

“Estamos prevendo que [no ano que vem] terá uma grande mudança [nas matrículas na rede pública], pois muitas famílias que tiveram sua vida econômica afetada por conta da pandemia estarão buscando mais escolas públicas”, concluiu.