Perita contesta principal versão de policiais para morte de João Pedro no Rio

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Uma perita do Ministério Público do Rio de Janeiro, ouvida nesta segunda (5) na primeira audiência sobre a morte de João Pedro Matos Pinto, 14, baleado com fuzil dentro da casa de um tio durante operação em 2020, contestou a versão dos policiais de que houve troca de tiros com criminosos que depois fugiram pelo muro do local.

"Só se fosse um atleta e com uso de uma vara [seria possível pular]", disse Maria do Carmo Gargaglione, diretora da Divisão de Evidências Digitais e Tecnologia do Ministério Público. Segundo ela, o muro da casa tinha 2,10 metros.

A primeira audiência de instrução e julgamento do caso ocorre no tribunal em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio. O adolescente foi morto durante ação das polícias Federal e Civil no Complexo do Salgueiro.

Em fevereiro deste ano, três policiais civis viraram réus. Mauro José Gonçalves, Maxwell Gomes Pereira e Fernando de Brito Meister respondem em liberdade. A reportagem não conseguiu conversar com os advogados, que estavam participando da audiência.

Os policiais são investigados por suspeita de homicídio duplamente qualificado e fraude processual (alteração da cena do crime).

A possibilidade de alguém transpor ou não o muro foi o principal ponto levantado pela defesa ao indagar a perita. Os advogados Raphael Ferreira Mattos e Marcello Ferreira da Silva perguntaram se Gargaglione fez análise de machas deixadas na parede e no material do muro para ter descartado a versão. A perita afirmou que não viu necessidade.

A defesa também contestou a parcialidade da perita, vinculada ao Ministério Público, que respondeu ser independente. O laudo foi baseado na reconstituição simulada, cinco meses após o crime.

Gargaglione também afirmou que não houve troca de tiros e que os agentes não tinham visibilidade do interior da casa, onde João Pedro estava com outros cinco amigos.

O pai de João Pedro, Neilton da Costa Pinto, também respondeu a perguntas na audiência. Ele relatou que trabalhava em um quiosque, na Ilha da Itaoca, que faz parte do Complexo do Salgueiro, quando viu policiais federais em lanchas, desembarcando na praia.

Nesse momento, conta que entrou em contato com João Pedro. "Ele foi orientado a deixar os policiais a entrarem na casa, onde ele estava com amigos. Depois, não consegui mais contato e fui até a residência."

Em relato emocionado, Costa Pinto disse que ao chegar na casa encontrou cinco jovens sentados na calçada, nervosos. "Contei e vi que faltava o João Pedro. Ninguém sabia onde ele estava."

O pai de João Pedro também declarou que a polícia não prestou ajuda com informações. "Só encontrei meu filho no dia seguinte, no IML, com um tiro de fuzil."

Ainda eram ouvidos no fim da tarde desta segunda os amigos que estavam com João Pedro no momento do crime.

Essa é a primeira etapa do julgamento, que deverá ser marcado para 2023. A juíza Juliana Grillo El-Jaick, titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, vai decidir, após outras audiências, se os agentes denunciados irão a júri popular ou não.

O nome de João Pedro foi lembrado no Rock in Rio, no sábado (3), durante homenagem no show dos Racionais MC's a pessoas negras assassinadas.