Permanência de Assad na Síria deixa de ser tabu para ocidentais

Por Hervé BAR
O presidente sírio, Bashar al-Assad

Os dois fiéis aliados de Damasco, Rússia e Irã, aparecem neste domingo em posição de força para impor aos países ocidentais sua estratégia de fazer da luta contra os jihadistas na Síria uma prioridade absoluta, mantendo no cargo o presidente Bashar al Assad.

Na véspera da abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, os presidentes russo, Vladimir Putin, e iraniano, Hassan Rohani, concederam entrevistas a emissoras de TV para dar sua visão sobre a gestão do conflito sírio frente a americanos e europeus, comovidos pela crise dos refugiados e a ameaça terrorista.

Putin, que se reunirá na segunda-feira, em Nova York, com seu contraparte americano, Barack Obama, à margem da Assembleia da ONU (o primeiro encontro entre ambos em dois anos) revelou a nova coalizão que pretende instalar para combater os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI).

O chefe do Kremlin é um dos dirigentes mais aguardados na Assembleia Geral da ONU, nesta segunda-feira, onde fará um discurso no qual, segundo previsões, defenderá seu aliado sírio e revelará seu plano da nova coalizão ampliada para combater o EI.

"Propusemos cooperar com os países da região", disse à emissora CBS, em uma longa entrevista ao programa 60 Minutos, que a rede divulgou na íntegra este domingo, mas do qual alguns trechos foram divulgados dias atrás.

"Tentamos estabelecer um tipo de marco de coordenação, desejaríamos ter uma plataforma comum para uma ação coletiva contra os terroristas", destacou.

Putin afirmou, ainda, que não pretende enviar tropas terrestres à Síria "por enquanto", mas garantiu que reforçará sua ajuda ao presidente Bashar al Assad.

A conversa com Obama, em Nova York, também terá como pano de fundo o aumento da presença russa na Síria e seu ativismo diplomático neste tema.

Moscou está na ofensiva há várias semanas na frente síria, reforçando consideravelmente sua presença militar no reduto governamental do noroeste do país e multiplicando iniciativas. Neste domingo, em Bagdá, Putin anunciou que Iraque, Rússia, Irã e Síria tinham decidido criar um centro de inteligência na capital iraquiana para lutar com maior eficácia contra o EI.

Fatos consumados

As iniciativas russas preocupam os Estados Unidos e seus aliados europeus, que parecem estar cada vez mais obrigados a reagir diante dos fatos consumados das ações de Moscou, em um momento em que sua própria estratégia militar contra o EI parece patinar.

"Estamos tentando compreender quais são as intenções da Rússia e da Síria e de tentar ver se há uma forma de encontrar uma saída benéfica", admitiu, neste domingo, um alto funcionário do Departamento de Estado americano.

Os Estados Unidos e 60 países europeus e árabes sunitas fazem parte há um ano de uma coalizão militar que lançou milhares de ataques aéreos contra redutos do EI na Síria e no Iraque.

A França, que participa desta coalizão, lançou neste domingo seus primeiros bombardeios na Síria, atacando um campo de treinamentos do EI em Deir Ezzor (leste). O presidente francês, François Hollande, disse no domingo que seu país agiu em situação de "legítima defesa" e que poderão ser feitos novos ataques "nas próximas semanas".

No entanto, todas estas ações não impediram o EI de reforçar suas posições, nem diminuíram seu poder de atração: segundo agentes de inteligência americanos, citados pelo New York Times, cerca de 30 mil jihadistas estrangeiros, muitos deles ocidentais, viajaram a Iraque e Síria desde 2011 para se somar às fileiras do Estado Islâmico, o dobro das estimativas anteriores, de um ano antes.

Diante deste panorama, Rússia e Irã reforçaram sua tese de que o governo de Assad é o único escudo real contra o avanço do jihadismo.

Pela permanência de Assad

Explorando a nova situação e as idas e vindas dos ocidentais - que durante muito tempo pediram a saída do presidente sírio -. o chefe de Estado iraniano afirmou que existe atualmente um amplo consenso para manter seu aliado de Damasco no poder.

"Penso que hoje todo mundo aceita que o presidente Assad deve permanecer (no poder) com a finalidade de combater os terroristas", disse Rohani à CNN.

A mensagem está começando a ser ouvida. Washington, Londres, Berlim e Paris não propõem mais há várias semanas a exigência de saúda de Assad.

A chefe de governo alemã, Angela Merkel, disse, inclusive, que se deve dialogar com o presidente sírio e seu ministro de Relações Exteriores defendeu neste domingo a criação de um governo de transição na Síria para sair do atual bloqueio.

"Se podemos reunir os atores principais da região, Europa, Estados Unidos e Rússia (...) sob um denominador comum (...), o que significa (...) que se iria para a constituição de um governo de transição, isto já seria muito", declarou Frank-Walter Steineier à emissora de TV ARD.

Até mesmo os Estados Unidos moderaram sua postura. Uma semana atrás, o secretário de Estado, John Kerry, admitiu que o calendário da saída de Assad era negociável.

Paris e Londres repetem que o atual presidente sírio não pode fazer parte do "futuro" do país, mas continuam sendo muito pouco claros sobre quando e como se daria a sua saída.