'Personagem' indesejada do verão passado, geosmina na água retorna a mais de 30 bairros do Rio

Gilberto Porcidonio
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Foto: Márcia Foletto

Uma "visitante" bem incômoda que apareceu há um pouco mais de um ano voltou a assombrar os cariocas desde o último dia 19. A geosmina, composto orgânico causado pelas cianobactérias que se alimentam do esgoto na água, está sendo notada em residências de mais de 30 bairros da cidade mesmo que em quantidade menor do que os registrados na crise do último verão.

Na Zona Norte, os bairros de Engenho Novo, Maracanã, Pilares, Tomás Coelho, Magalhães Bastos, Irajá, Campinho, Andaraí, Jardim Guanabara, Ilha, São Cristóvão, Praça da Bandeira e Senador Camará são onde há mais reclamações. Na Região Central, Catumbi, Saúde e Lapa também relataram queixas. Na Zona Sul, moradores do Flamengo, Copacabana, Leblon, Catete e Botafogo estão sentido gosto e cheiro de geosmina na água. Na Baixada Fluminense, os moradores de São João de Meriti também perceberam a alteração na qualidade do serviço.

De acordo com os relatos, a Zona Oeste foi a região onde o cheiro e o gosto estão mais fortes, sendo notado nos bairros de Realengo, Sulacap, Campo Grande, Santa Cruz e Barra. Na Taquara, o professor Miguel Pinho notou uma pequena mudança na água de casa desde a semana passada:

— Aqui nunca ficou barrosa. Não sei se ela decanta na cisterna do prédio, ou sei lá o quê. Só ficou um gostinho muito leve. A água saindo do filtro está "suavinha", a do chuveiro saiu com um leve odor hoje. Lamentável.

No bairro vizinho, o Pechincha, a água com cheiro "terroso" também deu as caras. Por conta disso, o professor Douglas Nimb percebeu que isso já está afetando os preços locais:

— Os mercadinhos do bairro já até aumentaram o valor da água mineral prevendo a alta demanda. Passei hoje em um e já tem uma água mineral em promoção onde até semana passada era o preço comum.

A servidora pública Leidiane Marinho, que mora na Freguesia percebeu, desde semana passada, um cheiro bem fraco na Rua Francisca Salles. Agora, ele está mais forte:

— Eu até achei que fosse da minha cabeça, mas depois vi que a minha mãe, que mora na Muzema, e minha irmã em Bangu sentiram a mesma coisa. Hoje eu encomendei um galão de 20L de água por R$ 25 porque não tenho condições de beber isso. Está horrível. É a mesma coisa do ano passado e a gente não teve uma desconto sequer na conta de água.

Revoltada com a situação, Leidiane pretende juntar as notas das compras em água mineral para pedir ressarcimento para a Cedae via Procon:

— Pelo menos esse dinheiro eles tem que me devolver. Isso não é justo. Que padrão é esse, meu Deus? A água não pode ter gosto e sabor.

Moradora de Santa Teresa, a compositora e produtora cultural Letícia Garcia disse que esse cheiro e gosto na água nunca foram embora, de fato, desde que a crise começou no ano passado:

— De vez em quando acontece. Além disso, aqui em Santa a água é extremamente desperdiçada. Diversos vazamentos na rua. Às vezes, vou passear com o cachorro e vejo uns três canos aleatórios vazando em diferentes pontos do bairro. Os canos já enferrujados, pois ninguém "atualiza" a tubulação. E o mais doido é pensar que um dia a fonte principal de água para a cidade era a daqui, né?

Na Zona Norte, também houve reclamações da irregularidade da água em Vila Isabel e no Grajaú. Na Tijuca, moradores de todas as regiões do bairro também estão relatando o cheiro forte na água. Morador da Rua Pareto, Raphael Perucci passou a notar um cheiro diferente na água da torneira do banheiro desde a semana passada.

— Mas a coloração está normal. Ainda. Desde o ano passado nós passamos a comprar um galão de 20 litros para nos garantir.

A quem está reclamando publicamente nas redes sociais, a Cedae está mandando mensagens, no Twitter, avisando que a água está "dentro dos padrões de potabilidade e consumo", dizendo que a análise das amostras apresentou traços de geosmina/Mib em níveis muito baixos, o que explica a alteração de gosto e odor, mas que ainda atende aos parâmetros do Ministério da Saúde. A mensagem está gerando revolta.

"Desde muito nova aprendi na escola que a água pra ser potável primeiramente tinha que ser incolor, insípida e inodora. Ensinaram errado ou vocês mudaram o que aprendemos?", respondeu a doceira Jackeline Lima.