Personagens que são a cara do carnaval carioca compartilham as angústias de um ano sem a festa

Eduardo Vanini
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Só o vento percorria os 700 metros de extensão da Avenida Marquês de Sapucaí, numa tarde de janeiro. “Fosse um ano normal, isso aqui já estaria tomado pelo barulho dos martelos, gente instalando os refletores, aquela correria”, lamenta Luiz Sérgio da Silva, de 63 anos, assistente administrativo que trabalha por lá desde a inauguração, em 1984. É a primeira vez que ele presencia um Sambódromo silencioso às vésperas do carnaval. Uma ausência de sons que só deve ser rompida no carnaval do ano que vem, quando a população finalmente estiver vacinada. “Temos que aceitar. Quando tudo isso passar, vai ser uma reviravolta. O público virá em peso. Aí que vai acontecer mesmo o maior spetáculo da Terra.” Festa que certamente será abrilhantada pelos personagens a seguir, não só na Sapucaí, como em todos os cantos da cidade, dos salões do Copacabana Palace às ruas de Guadalupe.

Evelyn Bastos, samba no pé desde os 4 anos

Rainha de bateria da Mangueira desde 2014, Evelyn Bastos costuma dizer que entendeu o carnaval antes mesmo de compreender o que era o mundo. “Comecei, aos 4 anos, na Mangueira do Amanhã”, conta a professora de Educação Física, de 27. Ao posar para a foto desta página, foi a primeira vez que pisou na Sapucaí, desde o início da pandemia, em 2020. “O sentimento que bate reflete o que a gente vê: um vazio”, diz ela, especialmente preocupada com sua comunidade neste período. “A pandemia no morro é diferente do asfalto, onde é mais sentimental. Na favela, as pessoas vivem, de fato, as consequências, precisam usar transporte público lotado porque não podem deixar de trabalhar.” Quando olha para frente, porém, Evelyn enxerga beleza no horizonte. “A maior emoção vai ser quando fizermos o primeiro ensaio, e a favela descer em peso para quadra.”