Personalidades ligadas à cultura negra criticam escolha de novo presidente da Fundação Palmares

Nelson Gobbi

RIO — Após o anúncio de que a a Fundação Cultural Palmares será presidida pelo jornalista e militante de direita Sérgio Nascimento de Camargo, conhecido por atacar em suas redes sociais o movimento negro e nomes ligados a ele, além de afirmar que no Brasil não existe "racismo real", personalidades ligadas à cultura e que trabalham com temas ligados à negritude criticaram a sua escolha para a entidade.

Camargo, que que substitui Vanderlei Lourenço na Fundação Palmares, foi uma das mudanças de cargo na área de cultura publicadas nesta quarta-feira no Diário Oficial da União. Outras alterações ocorreram na Secretaria do Audiovisual e na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (órgão responsável pela aplicação da Lei Rouanet).

Para Emanoel Araújo, artista plástico e fundador do Museu Afro Brasil, a indicação de Camargo "segue a linha do atual governo".

— O ministro da Educação é contra a educação; o do Meio Ambiente é contra o meio ambiente. É natural que o presidente da Fundação Palmares não acredite em racismo — comenta Araújo. — Queria ver se um dia ele for perseguido em um supermercado só por ser negro, se vai dizer que não existe racismo.

Em seus tuítes e posts, Sérgio Camargo costuma atacar artistas e ativistas ligados ao movimento negro. O novo presidente da Fundação Palmares já centrou fogo em nomes como os atores Lázaro Ramos, Taís Araújo e Camila Pitanga, e os cantores Mano Brown, Emicida, Gilberto Gil, Leci Brandão e Martinho da Vila. Presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Benedita da Silva também já apareceu em uma montagem compartilhada por ele, contra o Dia da Consciência Negra, junto a imagens do militante Carlos Marighella, a cantora Preta Gil, e a vereadora assassinada Marielle Franco.

— É escolha é totalmente ideológica, a intenção do governo é jogar negros contra negros. Não é possível colocar na presidência de uma instituição voltada a promover e difundir a cultura negra alguém que é contra a nossa luta e nossos maiores símbolos — diz a deputada, que quer chamar o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, à Câmara dos Deputados, para dar explicações. — Já preparamos um requerimento para levar o ministro, já que, por regimento, não podemos convidar o secretário Roberto Alvim. Vamos questioná-lo, entre outras coisas, sobre a escolha para a Fundação Palmares.

Para o escritor Jeferson Tenório, o momento político favorece a aparição de personalidades com perfis polemistas, como Camargo.

— Muitas pessoas buscam cavar espaços aderindo a determinados discursos, como a negação do racismo. É importante ressaltar que os negros têm todo o direito de manifestar diferentes opiniões sobre o tema. Não temos a obrigação de pensar igual, ainda que isso signifique um desserviço às lutas e conquistas do movimento negro — comenta o autor de "Estela sem Deus" (2018).

Entre as opiniões expressas por Camargo nas redes, está a de que o movimento negro precisa ser "extinto" porque "não há salvação", ou a de que no Brasil existe um racismo "nutella", ao contrário dos Estados Unidos, onde existiria um racismo "real". Ele também afirmou que Zumbi dos Palmares — que dá nome à fundação que ele agora preside — é um "um falso herói dos negros".