Perto dos 80, Erasmo Carlos vira fã de séries e tem nova paixão por criar playlists: 'Faço o dia inteiro'. Veja onde achá-las

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No próximo sábado, ao completar 80 anos, Erasmo Carlos só não estará o dia todo em casa porque já tem local certo para comemorar o maior presente que poderia ganhar: foi marcada justamente para o dia 5 a última consulta do seu tratamento contra um câncer no fígado, do qual acaba de se curar. Ao soprar as velinhas, o mais novo octagenário também vai estar perto de completar sua imunização contra a Covid-19, já que ele tomou a segunda dose da vacina na última segunda-feira. Aproveitando o momento para refletir sobre a vida, o Tremendão confessa sonhar com um lugar além do horizonte “onde as pessoas usam máscara, se vacinam e lavam as mãos”. Enquanto isso, ele celebra a saúde!

— Este câncer foi descoberto por acaso. Fiz um exame de pedra no rim e ele apareceu. Já fomos tratando. Fiz um procedimento chamado ablação, mas o câncer voltou depois. Então repetimos esse tratamento e a segunda vez foi arrasadora — conta vitorioso sobre o tumor que foi detectado há quatro anos, mas só foi revelado aos mais próximos: — Minha vida é muito discreta. Já fui deslumbrado, não sou mais. Experiência e sabedoria vão vindo com a idade. Anuncio agora, porque estou bom. É hora de falar com alegria. Não gosto de tristeza, não.

Como em sua vida tudo é música, ao explicar sobre ablação, ele se lembra do sucesso dos Beatles “Ob-La-Di Ob-La-Da”. A canção que tem o verso “a vida continua” no refrão deve mesmo ter embalado este tratamento. Feito por uma sonda inserida na pele, ela emite uma corrente de ondas de rádio de alta frequência, destruindo as células cancerígenas. O procedimento é mais comum para tumores no fígado. Este não é o primeiro câncer de Erasmo, que já tratou outro, na garganta, há 20 anos.

— Sou um sobrevivente. São os choques da vida. Está na minha história. Consegui ficar mais de um ano de quarentena. Com a vacina, passei por essa — festeja o aniversariante, que não foca apenas nos motivos de celebração e segue esperando o momento em que o país poderá sair da pandemia atento à CPI da Covid: — Tomara que, se existirem culpados, e claro que existem, sejam tomadas providências. Muitas vidas poderiam ser poupadas, se houvesse mais organização. Tudo isso contribui para eu ficar mais descrente.

Bem-humorado, já sugere uma trilha sonora para a comissão do Senado Federal:

— Tenho a minha música “Pega na mentira”, que todo ano no 1º de abril toca no Brasil todo. Agora ela deveria tocar lá na CPI. É só mentira!

Mas o Tremendão será mesmo é pego na surpresa. Isso porque há outro presente previsto: o documentário “Erasmo 80”, que estreia no Globoplay em junho, ainda sem data certa. Esta foi a única gravação que o cantor e compositor fez fora de casa para o seu aniversário. Mesmo assim, foi montada uma estrutura especial para a sua participação, registrada no último fim de semana, à altura de seu zelo. Havia uma tenda com profissionais fazendo testes de PCR na entrada em toda a equipe, além da troca de máscaras e aventais dos envolvidos periodicamente.

— Não sei o que estão preparando. Foi só isso que fiz em função de comemoração. Apesar de eu ser um “idiota” e ficar em casa, me considero um “idiota” inteligente. Por isso vou continuar em quarentena, mesmo depois das duas doses — explica Erasmo, lembrando a frase do presidente da República, Jair Bolsonaro, que se referiu com esse predicado a quem se mantém isolado.

O documentário foi produzido pela equipe do programa “Conversa com Bial”, que exibirá um trecho na próxima sexta-feira, na Globo, e promete trazer imagens inéditas, além de abordar temas como a turma da Tijuca, a Jovem Guarda, o sucesso internacional, a amizade com Roberto Carlos e a influência de Erasmo no comportamento e na moda.

Em casa, ele celebrará com a sua mulher, a pedagoga Fernanda Passos, e receberá apenas o filho Gil Eduardo, sua nora e dois netos para o momento do bolo. O outro filho, Leo Esteves, e demais netos, que estão nos EUA, participarão do “Parabéns” por uma chamada de vídeo. Nada de festa de arromba. Se não houvesse pandemia, ele conta que faria uma reuniãozinha para os amigos.

— Já passei dessa fase de badalação. Uma festa de arromba para mim hoje é todo mundo com saúde, trabalhando, curtindo, se amando — resume.

Na sua quarentena, Erasmo adquiriu novos hábitos. Tem assistido a filmes e séries todos os dias. Atualmente, ele está acompanhando com Fernanda “Modern family” e “This is us”, e recomenda. Está aproveitando também para estudar e se aprimorar no violão. Para os futuros shows, quer aumentar o número de músicas em que toca com a banda. O aniversariante conta ainda que descobriu um novo hobby: o de criar playlists.

— Isso é maravilhoso. Faço playlist aqui o dia inteiro. Tem uma chamada Erasmo Carlos, que é a mais caprichada. Essa é só com estrangeiras. Já estou com 800 faixas nela. As canções todas que me influenciaram por várias gerações estão lá — anima-se um consumidor voraz de música.

De fato, há por lá desde Elvis Presley a Amy Winehouse. Entre outras playlists que criou, Erasmo nomeou uma como “Hiper preferidas”, na linha da que já citou, e outra como “Churrasco da família”, com samba, pagode e axé. As três estão liberadas no Spotify, em seu perfil pessoal, erasmocarlosbr.

Mas se no streaming sobrou canção para ele ouvir, Erasmo conta que lhe faltou ânimo e inspiração nesta quarentena para compor.

— Talvez por eu já ter um trabalho pronto para estrear, não deu adrenalina para escrever. Quando tudo voltar ao normal, a turnê “O futuro pertence à Jovem Guarda” vai me levar pelo menos dois anos para a estrada, se Deus quiser — planeja.

No entanto, para outros projetos, ele andou apostando em algumas criações mais recentes com parceiros. Enviou uma letra para uma melodia do Supla, que estará no trabalho do cantor paulista, além de fazer uma canção que ganhará letra de Emicida e será a terceira parceria dos dois. Essa vai para o novo álbum da cantora Alaíde Costa, projeto que é uma homenagem de alguns compositores à voz que marcou a bossa nova.

Aliás, a composição, para o Tremendão, é o ofício principal de sua carreira.

— Não me considero um cantor, me considero um intérprete. Principalmente das minhas músicas. Amo fazer letra e música. Quando tenho parceiros, aprendo com eles, com novas linguagens musicais e levadas. O novo me fascina muito. Estou por aí sempre antenado com as coisas boas. Mas não posso parar de compor, porque é minha vida. Acho que posso até parar de cantar. Mas não de compor — exalta o ícone da Jovem Guarda, que se sente feliz e realizado quando jovens artistas cantam suas músicas: — É uma injeção de otimismo. Não tenho pretensão de fazer nada revolucionário, quem faz isso são os jovens. As novas gerações surgem com novas propostas e vontades, cheias de reclamações sobre as cagadas que as gerações antigas fizeram. Estou satisfeito com o que eu fiz e com o que eu ensinei. Hoje em dia eu só quero aprender.

Sobre os próprios erros, ele analisa:

— Eu prefiro assumir tudo que eu fiz. “Minha fama de mau”, por exemplo, é uma música machista. O cara não deixa a menina ir ao cinema. É inocente, mas é um machismo. Não vou dizer que hoje eu não a escreveria. Se fosse jovem, hoje em dia, não sei como seria a minha cabeça.

Ainda sobre as “famas” que angariou ao longo da carreira, Erasmo continua fazendo jus à de terrível! Principalmente quando está lidando com preconceito e intolerância. Como na letra da sua música “Sou uma criança, não entendo nada”, ele acredita estar cada vez mais difícil compreender o mundo. Se há muitas conquistas para comemorar, os últimos tempos trazem também tristezas para o nosso entrevistado.

— Não era este mundo que eu imaginei lá em 1970. Quanto mais cultura, mais experiência e mais exemplos a humanidade tem, menos aprende. Parece que estamos sofrendo uma involução. Isso me dá uma tristeza grande. De nada adianta os poetas, os compositores e os profetas falarem. Ninguém segue, ninguém quer saber. As pessoas nascem boas. O mundo era para ser outro. Há preconceitos gritantes e intolerância — analisa Erasmo, que tenta se manter esperançoso: — Mas continuo acreditando, tenho fé, amor, solidariedade. Minha religião é essa. Essa será minha bandeira sempre.

O Tremendão ainda acha que é preciso dar um jeito, meu amigo. Para resumir, ele conclui com o refrão de uma das suas parcerias com Roberto Carlos, “Análise descontraída”, de 1976, que diz: “Êta, mundo velho. Você me parece ainda um ovo. Ou então precisa urgentemente se acabar, pra nascer de novo”.