Peru inicia campanha eleitoral em quarentena, recessão e apatia

Francisco JARA
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Confinados por causa da pandemia e em meio à crise econômica, os peruanos parecem indiferentes à campanha eleitoral de abril, que deve encerrar um período de cinco anos marcado por convulsões políticas.

Nas eleições de 11 de abril, a população escolherá o sucessor do presidente interino Francisco Sagasti, que não concorrerá ao cargo. O Congresso também será renovado após as crises políticas recorrentes desde 2016.

Em novembro, milhares de peruanos foram às ruas em repúdio ao impeachment pelo Congresso do popular presidente Martín Vizcarra. Ele foi substituído por Manuel Merino, que renunciou cinco dias depois. Sagasti, por fim, ocupou o lugar, encerrando os protestos que deixaram dois mortos e cem feridos.

A campanha teve início formal na quarta-feira, dois meses antes das eleições, em um clima de apatia no qual, segundo as pesquisas, metade dos peruanos não sabe em quem votar.

"Não há clima eleitoral. Os anúncios da campanha começaram a ser transmitidos na televisão, mas o eleitorado não está interessado", explica o analista político, Fernando Tuesta, à AFP.

As redes sociais devem ganhar destaque, já que a pandemia impede manifestações e várias cidades estão em quarentena, inclusive Lima.

- Mudança geracional -

Sagasti assumiu a presidência em meio a uma crise que levou o país a ter três presidentes em uma semana.

O Peru carece de partidos sólidos ou com nítido cunho ideológico, e sua história tem estado marcada principalmente pelo caudilhismo. No entanto, a 60 dias da votação não há candidatos favoritos, algo incomum no país.

"Os candidatos sofrem os estragos da pandemia. Nenhum deles desperta o entusiasmo do povo", ressalta Tuesta.

O analista político afirma que uma novidade nesta campanha é a "mudança geracional", já que vários candidatos estão na casa dos 40 anos.

- Um jogador de futebol -

Quem aparece como primeiro nas pesquisas, com 17%, é George Forsyth, de 38 anos.

Foi goleiro do popular clube de futebol, o Alianza Lima. Nasceu em Caracas e é filho de um diplomata peruano e de uma ex-miss chilena.

Por ter sido jogador de futebol, Forsyth foi eleito prefeito da capital La Victoria, em 2018.

"Ele é um jovem conhecido, não visto como da elite política clássica, com uma linguagem simples, mostra empatia", diz Tuesta.

"Ele não tem grande formação [política] e em algumas questões às vezes escorrega, mas nessas circunstâncias isso o favorece", acrescenta.

- Keiko, Verónika, Yonhy -

Duas mulheres têm chance nesta campanha: Keiko Fujimori, filha do ex-presidente preso Alberto Fujimori (1990-2000); e a psicóloga esquerdista, Verónika Mendoza.

"Verónika tem pontos a favor. Ela é uma mulher séria, porque não parece tão radical, ela é cusquenha e é mais ou menos carismática", explica Tuesta, embora alerte que a esquerda está muito dividida.

Embora o fujimorismo tenha enfraquecido, Keiko tem a possibilidade de ir para o segundo turno.

Além delas, outro candidato em vista é Yonhy Lescano, advogado de 61 anos da região do lago Titicaca.

Há também dois economistas em jogo, Hernando de Soto, de 79 anos, e Julio Guzmán, de 50 anos. Este último lidera o partido centrista de Sagasti.

Também almeja a presidência o ex-presidente Ollanta Humala (2011-2016), e o ex-presidente Vizcarra, demonstrou apoio ao candidato Daniel Salaverry, de 48 anos, ex-fujimorista aliado.

O Júri Eleitoral definirá no próximo 11 de março quais candidatos atendem aos requisitos para constar nas cédulas em abril.

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