Peru: um passado imperial, um presente de instituições frágeis

Francisco JARA, Luis Jaime CISNEROS
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Cerimônia de reabertura do sítio arqueológico de Machu Picchu, em Cusco, 1º de novembro de 2020
Cerimônia de reabertura do sítio arqueológico de Machu Picchu, em Cusco, 1º de novembro de 2020

O Peru, que nesta terça-feira (17) empossou seu terceiro presidente em oito dias, foi berço de uma grande civilização, tem um patrimônio arqueológico inestimável e uma gastronomia requintada, mas sofre com instituições fragilizadas.

- Instituições frágeis -

Dos nove presidentes que o Peru teve após o fim do regime militar, em 1980, sete foram condenados, envolvidos em escândalos ou estão sendo investigados.

Alberto Fujimori cumpre pena por crimes e corrupção. Alan García, Alejandro Toledo, Ollanta Humala e Pedro Pablo Kuczynski ficaram sob escrutínio por envolvimento no escândalo da Odebrecht. Martín Vizcarra é investigado por suposto suborno quando era governador e Manuel Merino pela morte de dois manifestantes.

Somente Fernando Belaunde Terry (1980-1985) e Valentín Paniagua, que governou por oito meses em 2000-2001, saíram ilesos de seus mandatos.

Os últimos 20 anos desde a queda do presidente Alberto Fujimori são dos mais longos períodos de democracia que o Peru atravessou, desde que regimes militares ou civis autocráticos prevaleceram nos séculos XIX e XX.

A ausência de partidos políticos fortes também significa que os interesses pessoais muitas vezes prevalecem no Congresso peruano: alguns legisladores apoiaram a destituição de Martín Vizcarra para salvar uma universidade privada prestes a perder sua licença para funcionar.

- Um império e seu legado arqueológico -

Com capital em Cusco, o império inca ocupou uma vasta faixa territorial na América do Sul, do Chile e Argentina ao sul da Colômbia. Floresceu no século XV e foi conquistado pelos espanhóis no século XVI, mas seu legado continua vivo.

Um símbolo de sua grandeza é a cidadela de pedra de Machu Picchu, que em 2019 recebeu 1,5 milhão de visitantes, segundo o Ministério do Turismo, mas que permaneceu fechada por quase oito meses em 2020 devido à pandemia do coronavírus.

Existem também construções magníficas e outros monumentos incas em Cusco e outros lugares. Quatro dos 32 milhões de peruanos ainda têm como língua materna o quíchua falado pelos incas.

A civilização Inca destacou-se ao longo do século XV pela sua mitologia, religião, cultura, império e organização territorial.

Antes dos incas, floresceram outros povos nos vales e costas do Peru, como os Mochica, Chimú e Nasca.

- Gastronomia requintada -

Junto com o patrimônio arqueológico, a culinária peruana é outra das atrações para os quatro milhões de visitantes estrangeiros que o país recebia a cada ano até a pandemia.

O ceviche de peixe -um peixe cru marinado-, o lomo saltado -carne de boi com batata frita e arroz-, o ají de gallina -creme espesso com frango desfiado- ou os papas a la huancaína -batatas banhadas em molho cremoso de queijos e chili, junto com o famoso coquetel pisco sour e uma variedade de cereais e frutos do mar andinos, fazem parte da variada oferta culinária que atrai turistas.

Existem preços para todos os orçamentos. Embora em Lima haja dois dos dez melhores restaurantes do mundo na lista 'World's 50', o Central e o Maidó, cada bairro humilde também tem seus bons restaurantes, porque para os peruanos é importante comer bem.

- Multiculturalidade -

O Peru é um país multicultural, onde convivem diversas comunidades, entre elas crioulos descendentes de espanhóis, os nativos quíchuas, aimarás e amazônicos, os de origem africana (descendentes de escravos), aos quais se agregam imigrantes da China e do Japão.

Embora o espanhol seja a língua mais falada, há milhões de peruanos que têm outra língua materna, como aimará, quíchua ou ashaninka e outros idiomas amazônicos.

- O terror do Sendero -

O Peru atravessou duas décadas de conflito armado interno, de 1980 a 2000, iniciado pelo Sendero Luminoso, grupo guerrilheiro fundado na região andina de Ayacucho pelo professor universitário de filosofia Abimael Guzmán (condenado a prisão perpétua em 1992).

Guzmán conquistou milhares de seguidores entre os camponeses pobres com uma mensagem que misturava os princípios maoistas com o antigo mito inca do 'Taki Ongoy' (canto de estrelas).

Os Taki Ongoy inspiraram rebeliões indígenas na colônia, incluindo a de Tupac Amaru. Basicamente, a mensagem era que tomar o poder pelas armas permitiria a reconstrução do império inca, o que traria justiça social.

O conflito, do qual também participou o Guevarista MRTA, deixou cerca de 70 mil mortos, segundo a Comissão da Verdade. Todos os lados cometeram crimes e excessos, inclusive as forças militares.

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