Crise social começa a se refletir na economia chilena

(Arquivo) Um escritório de câmbio em Santiago, Chile

O ataque a uma subestação elétrica no norte do país e novos saques, juntamente com os apelos à retomada da Praça Itália em Santiago, marcam nesta sexta-feira (29) a sexta semana de protestos no Chile, cujo impacto começa a se refletir na economia.

Em um cenário intenso, a economia local começa a mostrar o primeiro impacto da prolongada crise social.

O Banco Central anunciou na véspera uma intervenção no valor de 20 bilhões de dólares, metade de suas reservas internacionais, para sustentar o peso, que alcançou mínimos históricos.

Em uma sessão volátil, o peso chileno conseguiu recuperar 2,3% nesta sexta e fechar em 809,46 unidades por dólar.

"O dólar ainda é volátil, porque os mercados permanecem muito especulativos sobre a situação econômica do nosso país", disse o ministro da Economia, Lucas Palacios.

O ministro explicou que a ação do organismo emissor tem uma mensagem nas entrelinhas: "O que o Banco Central também está dizendo é que há uma reação exagerada em nosso país, porque nosso país tem condições macroeconômicas fortes e institucionais também fortes, portanto, o que o que está fazendo é matizar essa reação exagerada", explicou.

Os protestos começaram em 18 de outubro passado e deixaram 23 mortos. Milhares de pequenas lojas e grandes supermercados foram saqueados e queimados durante toda a revolta, que também forçou os shopping centers a fecharem as portas mais cedo.

Nesta sexta-feira o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) informou que a produção industrial caiu 5,8% em outubro em relação ao mesmo mês do ano anterior, bem como a mineração, que recuou 1,7%.

A queda na produção industrial se explica pela menor produção de alimentos e bebidas "devido à menor produção de vinho a partir de uvas frescas (exceto vinho espumante) embaladas, devido a paralisações temporárias em algumas fábricas do item para a contingência", de acordo com o INE.

Enquanto isso, a mineração recuou devido à menor extração de ferro e a uma expansão sutil do cobre (+0,1%) - do qual o Chile é o principal produtor em todo o mundo.

Já o índice de desemprego, informado pelo INE nesta sexta, ficou entre 7% entre agosto e outubro em relação ao mesmo período de 2018, sem ter incorporado ainda os efeitos da crise social, que provocou fechamentos no comércio e nos serviços.

O país registrou 639.590 desempregados neste período, de uma força de trabalho de 9,1 milhões de profissionais.

- Ataques e saques que continuam -

Na noite de quinta-feira, um grupo queimou uma dúzia de veículos estacionados dentro da subestação elétrica da cidade de Copiapó, no norte do país, sem conseguir alterar o fornecimento de eletricidade, mas pela primeira vez pondo em risco essa estação, em um clima de confronto que não arrefece.

O ataque se soma aos saques em outras cidades, especialmente na comuna de La Cisterna, nos arredores de Santiago, onde novos ataques ao comércio adicionaram destruição a uma área que já sofre com a ação de criminosos.

Quatro delegacias de polícia em Santiago e uma em Antofagasta (norte) também foram atacadas, com um saldo de 31 feridos, segundo um relatório da polícia.

Desde o início das manifestações, com protestos dos estudantes sobre o aumento das tarifas do metrô de Santiago que levou à maior crise social do país desde o retorno à democracia em 1990, quase 7.000 eventos violentos foram relatados, com 17.834 pessoas detidas até quinta-feira. Somente por saques, a polícia prendeu 4.857 pessoas.