Pesquisa aponta como mulheres da Maré criam meios próprios para resistir à violência

O Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, reúne cerca de 140 mil moradores — mais que a população de 96% dos municípios do Brasil. No conjunto de 16 favelas, pouco mais da metade dos habitantes são mulheres, e 57% delas declaram já ter sofrido uma ou mais formas de violência de gênero nas esferas pública ou privada. Mas apenas 2,5% procuraram instituições para denunciar as agressões de que foram vítimas. Em pesquisa iniciada há dois anos, a ONG Redes da Maré e a universidade inglesa King’s College London, em parceria com a UFRJ, procuraram entender que alternativas as mulheres da Maré buscam para resistir à violência diante da falta de acesso às instituições e às políticas públicas em um território dominado por grupos armados.

Lançado sexta-feira, o relatório “Práticas de Resistência para Enfrentar a Violência Urbana de Gênero na Maré” ouviu 60 mulheres em entrevistas, grupos de conversa e workshops. A pesquisa parte de estudo anterior, também promovido pela Redes da Maré e pela universidade inglesa, que produziu dados quantitativos e os esmiuçou. A partir dali, foi possível saber, por exemplo, que a violência contra mulheres na região é física em 34% dos casos, sexual, em 30%, e psicológica, em 45%.

Na pesquisa qualitativa, o a mais recente, o drama que emerge dos números ganha contornos reais. “Chegou em casa bêbado? Não responde, pega as crianças e vai para a casa de uma amiga. Se não der, dorme na rua”, diz uma das entrevistadas. “Operação policial? Fica perto de outras mulheres em um espaço considerado seguro para evitar abusos”, conta outra. “Sofreu agressão? Melhor procurar a unidade de saúde ou buscar ajuda nas redes sociais. Nada de delegacia”, afirma mais uma moradora.

O estudo mostra que soluções como essas citadas são transmitidas em redes de apoio informais, entre amigas, vizinhas e em família, através de gerações. O relatório final da pesquisa deixa claro que serviços do estado não costumam chegar na favela. No caso das mulheres da Maré, a solução foi desenvolver meios de enfrentamento à violência.

— Nos impressionamos com a legislação progressista que vem sendo desenvolvida no Brasil. O Reino Unido ainda não ratificou o tratado de direitos humanos do Conselho da Europa contra a violência doméstica. Mas a pesquisa mostrou níveis extremamente altos de violência, principalmente entre parceiros, e a falha do sistema legal em proteger essas mulheres. E nos surpreendemos e fomos inspirados pela força dessas mulheres. Temos compartilhado suas histórias de dor, resistência e solidariedade além das fronteiras do país — disse Cathy Mcllwaine, pesquisadora da King’s College London.

Maioria não busca ajuda do poder público
Quando questionadas sobre serviços de apoio e enfrentamento à violência de gênero, a maioria das mulheres entrevistadas afirmou não conhecer nenhum oferecido pela rede pública. Delegacias são percebidas pela maior parte delas como “violentas” e “ineficazes”. O acesso à Justiça é considerado raro, o que é entendido por elas como uma representação da desigualdade e mais uma forma de violência.

— Medida protetiva é uma coisa que praticamente não funciona dentro da Maré. Primeiro porque o oficial de justiça não consegue achar o cara para fazer a notificação. Segundo, como vai ser feito o monitoramento para saber se essa medida protetiva vai ser cumprida em uma área dominada por grupos armados? — questiona Julia Leal, assistente social e coordenadora da Casa das Mulheres da Maré.

A maior parte das vítimas de violência entrevistadas afirmou que só procura delegacias em casos de extrema gravidade. No mais, quando sofrem violência física ou sexual, recorrem a unidades de saúde, que, mesmo com problemas, são reconhecidas como um porto seguro na favela. Igrejas também são citadas como lugares de acolhimento, e as redes sociais aparecem como meio de troca de informações, sobretudo em situações de tiroteios e operações policiais.

Ainda de acordo com a pesquisa, grupos armados (tráfico ou milícia) são lembrados ora como agentes da violência de gênero, ora como um sistema de proteção, em particular a vítimas de agressões domésticas. Na ausência do estado, vale a regra local estabelecida por esses bandos para resolução de conflitos.

Presente nas rodas de conversa, a artista Mila de Choch traduziu em desenhos o drama das mulheres da Maré, expostas diariamente à ameaça de ataques variados. Nos espaços públicos, predominam assédio, agressão sexual, estupro, além da rotina de conflitos armados. Ainda é preciso lidar com violência racial e simbólica, que pode incluir de intolerância religiosa ao estigma que envolve moradores da área, vistos com preconceito fora das comunidades.

Projeto ensina defesa pessoal e estimula autoestima

Na batalha para ajudar as mulheres da Maré a lutar contra a violência de gênero dentro e fora da comunidade, às vezes a melhor defesa é o ataque: o projeto Pra Elas, criado em 2019, ensina técnicas de defesa pessoal a moradoras e, ao mesmo tempo, busca influenciar positivamente a autoestima dessas mulheres.

Raíssa Lima, de 26 anos, testemunhou, ao longo da infância, episódios de violência sofridos por sua mãe dentro de casa. Como criadora do projeto, busca evitar que outras moradoras da Maré passem pelo que ela passou.

— Acredito que, se existisse um projeto como esse na época em que a minha mãe sofria violência, que a tivesse apoiado e acolhido, ela poderia ter saído mais rapidamente daquele relacionamento. Além da defesa pessoal, a gente busca estar ao lado dessas mulheres, ajudando-as a sair de momentos conturbados, a reconhecer quando estão em relacionamentos abusivos e a buscar autonomia — diz Raíssa, que é lutadora de judô e educadora esportiva.

As participantes do projeto fazem aulas de boxe, judô, ginástica funcional e corrida, além de defesa pessoal, treinos de agilidade, força e coordenação motora. Na parte mais “calma” da programação são realizadas rodas de conversa que estimulam a cooperação, o compartilhamento de histórias e experiências, demonstrações de afeto e o debate sobre temas como racismo, autocuidado e alimentação saudável. Voltado para mulheres a partir dos 25 anos, o PraElas já ais de 200 participantes. As atividades acontecem na quadra do colégio João Borges de Moraes

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos