Pesquisa aponta que, em vez do Valongo, local no Centro era a entrada de negros escravizados no Rio

Lucas Altino
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Parte da fachada da Casa França-Brasil, que, segundo estudo, fica no lugar onde africanos desciam de navios negreiros
Parte da fachada da Casa França-Brasil, que, segundo estudo, fica no lugar onde africanos desciam de navios negreiros

A chegada de africanos escravizados ao Brasil tem como símbolo o Cais do Valongo, que, reconhecido como o maior entreposto do continente no século XIX, ganhou da Unesco o título de Patrimônio Histórico da Humanidade. No entanto, uma pesquisa realizada pelo historiador e arqueólogo Reinaldo Tavares, do Museu Nacional/UFRJ, joga luz sobre a antiga geografia do Rio e aponta que a porta de entrada dos navios negreiros era a área da velha alfândega da cidade, mais precisamente o local onde hoje fica a Casa França-Brasil, no Centro. O estudo deu origem a um artigo publicado na revista “Latin America Antiquity” e vem ganhando apoio entre especialistas.

— O Cais do Valongo não perdeu sua importância, era o principal entreposto de escravizados na América Latina. Nosso objetivo principal foi detalhar a complexa cadeia de logística do mercado negreiro na cidade — diz Tavares, que destacou a relevância da Igreja da Candelária, ao lado da alfândega, no plano de desembarque dos africanos. — Eles passava por um batismo ali. A primeira coisa que viam era a alfândega, depois a Candelária. Essa área também precisa ser reconhecida pela Unesco.

A rota até o mercado no Cais do Valongo incluía, por vezes, períodos de quarentena em pequenas ilhas e nas franjas do Morro da Saúde. Dentro da complexa e cruel engrenagem do mercado negreiro no Rio, a alfândega não era desconhecida por especialistas. Em 1988, a pesquisadora norte-americana Mary Karasch iniciou um estudo no Brasil e a citou como parte da logística do tráfico de africanos. Porém, com o “redescobrimento” do Valongo, criou-se a ideia de que escravizados desembarcavam diretamente naquele cais.