Pesquisa indica aumento no número de separações após os 50 anos

Foram necessários 13 anos para que a empresária gaúcha Angela Schirmann, de 65 anos, tivesse coragem para se separar do ex-marido, o também empresário Wagner Neumann (nome fictício), com quem ficou casada por 34 anos. Durante o período, ela suportou sucessivas traições, grosserias e o descaso dele com o casamento, até ouvir a seguinte frase de um de seus três filhos: “Você não pode ter coisas diferentes se continua com a mesma atitude”. O relacionamento era baseado em idas, vindas e o perdão sempre recorrente a tudo que Wagner fazia ou falava. “Ele saía de casa, voltava, e eu o recebia. Ele vivia com roupa lavada e comida na mesa, e todos os dias me colocava para baixo, me detonava com palavras. Achava que não conseguiria viver sozinha”, desabafa Angela.

Por ser de Ijuí, cidade com pouco mais de 80 mil habitantes no Rio Grande do Sul onde, segundo ela, todos se conhecem, Angela era questionada sobre as razões que a levavam a continuar com o ex. “Minha autoestima era tão baixa.... Apesar de saberem o que acontecia, meus filhos nunca tomaram partido, mas um deles me indicou uma terapeuta, com quem fiquei por dez anos”, relata. Foi quando, enfim, tomou coragem e pediu para Wagner sair de casa, marcando o momento de sua libertação. “Entendi que eu não era uma pessoa que não prestava, e podia ser autossuficiente. Hoje, tenho meu carro, vou para onde quero, viajo, e aprendi que posso viver sozinha e ser feliz.”

Angela faz parte de uma turma de homens e mulheres que estão, cada vez mais, encorajando-se a dizer “sim” aos próprios desejos e entendendo que nem sempre o “até que a morte os separe” é o caminho mais satisfatório a ser trilhado. Apesar de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicar que, em 2020, em meio à pandemia, o número geral "de divórcios caiu 13,6%, nos últimos 20 anos as separações de pessoas acima dos 50 aumentou em 28%. Para a antropóloga Mirian Goldenberg, a vontade das mulheres em seguir voo solo não é novidade, mas tomar a atitude, sim, já que as que estão nesta faixa etária buscam incessantemente pela liberdade.

“Nas minhas pesquisas, são sempre as mulheres "que pedem o divórcio por volta dos 50 ou 60 anos. É uma fase em que, para elas, mistura a menopausa, a saída dos filhos de casa, ou, então, o entendimento de que estão "há muito tempo em um casamento insatisfatório mesmo. É quando dizem ‘chega, não quero mais’”, explica Mirian. E por mais que estas mesmas mulheres voltem a se relacionar amorosamente, um novo casamento quase nunca está nos planos. “Elas viveram anos dedicando-se ao marido, aos filhos, cuidaram de todo o mundo. E a estrutura do casamento não permite que a mulher viva tudo o que quer. Elas têm uma urgência e não querem desperdiçar mais nada.”

Estudiosa das relações femininas e principalmente do envelhecimento, Mirian vai além ao dizer que formar uma família, casar-se e ter filhos é uma imposição social e cultural da sociedade brasileira, nem sempre representando um desejo verdadeiro. Afinal, os valores relacionados ao matrimônio, diz, ainda são muito fortes. “Não é importante para a mulher em si, mas sim, socialmente. Muitas nem pensam sobre isso. Eu não tive filhos, já casei e descasei. O que mais ouvi até os 45 anos foi: ‘Como você não vai ter filhos? Vai ser uma velha abandonada!’. E hoje, muitas que me criticaram no passado dizem que foi a melhor decisão que tomei”, provoca ela. “A ideologia da família feliz, da proteção, do marido, não funciona na prática.”

Quem viu, na prática, essa “ideologia” desmoronar foi a dona de casa e estudante de Psicologia Teka Gadelha, de 55 anos. Sua história, muito parecida com a de Angela, envolve a descoberta de infidelidade, a religião dela e a do ex — ambos evangélicos — e a celebração de seu “renascimento” após o divórcio.

“Achei que, depois de mais de 30 anos de casada, não haveria traição ou a desistência do relacionamento. Eu não desisti na primeira (traição), mas aconteceram outras. Chegou um momento em que precisei colocar um ponto final”, relembra ela, separada oficialmente há cinco anos do ex, o motorista Roberto Cardoso (nome fictício).

Tachada de louca por ele, que tentou desmentir as infidelidades, Teka acreditou que após o rompimento fosse encontrar acolhimento na igreja, mas conta que todos se afastaram, até mesmo aquelas que acreditava ser suas amigas. Os dois filhos foram seu único refúgio em um período de dor que chegou a transformar-se em depressão, angústia e pensamentos suicidas. Foi com a ajuda da terapia que ela encontrou um novo caminho para realizar um antigo sonho: cursar a universidade. “Recomecei do zero, fui do luto à luta. Disse aos meus filhos que queria voltar a estudar e eles se dispuseram a pagar "a minha faculdade. Ainda não estou bem como gostaria, mas sei que estou no caminho”, afirma.

Solteira, Teka consegue se ver como uma pessoa bem mais resolvida e, principalmente, livre. “Hoje eu digo a minha idade a quem perguntar, não tenho vergonha disso e também não tenho problema com aparência, gordura ou magreza”, conta. Mesmo sem ter a intenção de se casar novamente, ela não dispensa conhecer outros homens e, quem sabe, até namorar. “Não quero morar junto, não, mas gosto de conhecer gente, sair, passear e tomar um café. Isso me faz sentir viva”, comemora.

Se para as mulheres falar sobre o assunto divórcio funciona como uma espécie de desabafo e até a oportunidade para compartilhar experiências parecidas, para os homens é difícil mexer a fundo em certas emoções. Até por isso, ressalta Mirian Goldenberg, é difícil encontrar um ex-casal cuja história tenha terminado porque ele quis. “Para um homem se separar, a situação precisa estar insuportável. Eles gostam da segurança, da companhia da mulher. Tanto é assim que quando eles se separam, buscam logo uma outra relação, geralmente com uma mulher mais nova, que esteja disposta a construir toda uma história novamente.”

O psiquiatra Alexandre Saadeh corrobora a opinião da antropóloga e diz que, além disso, para eles, é mais fácil ter relações paralelas enquanto estão vivendo o casamento. “Para que vão romper uma relação para se aventurar se podem conseguir isso estando casados?”, questiona. No entanto, seja para homens ou mulheres, repensar a união, ainda que isso signifique que ela deva chegar ao fim, é uma forma de entender e reconhecer os próprios objetivos, que mudam ao longo da vida. “Uma das perguntas que os casais se fazem é: ‘O casamento é para a vida inteira?’ ‘O que significa estarmos juntos?’. Elas não têm como objetivo destruir famílias, mas responsabilizá-las pelo motivo de ainda existirem, entendendo o por quê dessa sacralidade”, afirma.

Um desses “raros” casos, o dentista Eduardo Kowalski (nome fictício), de 68 anos, foi quem decidiu deixar para trás a mulher, após 27 anos juntos. “Chegou a um ponto em que não conseguíamos mais conviver nem conversar. Ela via defeito em tudo, reclamava da comida que eu fazia, das minhas roupas”, explica. Pai de um rapaz de 34 anos, Eduardo acredita que a personalidade difícil dele se deve, em parte, à forma como o ex-casal conduziu a própria relação. “Nosso filho cresceu em um ambiente egoísta, e hoje tem muitas inseguranças”, lamenta.

Apesar de ainda não estar na turma dos 50+, o arquiteto Joe Filho, de 41 anos, conta ter vivido “uma vida” em um casamento com outro homem, que durou 15. E deixou marcas. “Terminamos nos amando, sou muito grato por tudo, mas desgastes com a família dele e o fato dele ser muito controlador me fizeram perceber que não tinha mais volta. O que aprendi? A pensar em mim pela primeira vez. É difícil recomeçar uma vida sozinho, mas não existe relacionamento com amor e sem respeito”, fala.