Pesquisa investiga relação entre remédios para doenças cardiovasculares e agravamento do coronavírus

Ana Lucia Azevedo
Os medicamentos tomados por muitos hipertensos e cardíacos atuam sobre o principal alvo do coronavírus, os receptores da enzima conversora de angiotensina (ECA-2)

RIO - Cientistas brasileiros almejam descobrir se remédios amplamente usados para o tratamento de hipertensão e insuficiência cardíaca aumentam o risco de agravamento da Covid-19, se são neutros ou, paradoxalmente, o reduzem. Os resultados devem estar disponíveis entre seis e oito semanas e prometem facilitar o tratamento da doença e evitar complicações para as pessoas com distúrbios cardiovasculares — um dos grupos de risco da doença.

O estudo é realizado pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor) e analisará dados de 500 pacientes. Ele deve ser o primeiro entre os seis sobre o tema no mundo a ter resultados publicados em revista científica com revisão por pares, explica o coordenador Renato Lopes, pesquisador do Idor e da Universidade de Duke (EUA), e professor de cardiologia da Escola Paulista de Medicina.

Os medicamentos tomados por muitos hipertensos e cardíacos atuam sobre o principal alvo do coronavírus, os receptores da enzima conversora de angiotensina (ECA-2). Esses remédios — conhecidos como inibidores de enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores de receptores de angiotensina (BRA) —, são muito empregados no tratamento de insuficiência cardíaca e no controle da hipertensão. São remédios de amplo uso, como captopril, losartana e enalapril.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia e as demais sociedades internacionais da área não recomendam a interrupção sem prescrição. Mas existem grandes dúvidas sobre sua relação com a Covid-19. Há pesquisas que indicam risco aumentado e outras, ao contrário, benefícios.

O incremento da expressão da ECA-2 poderia aumentar a ligação das células com o vírus. Entretanto, há estudos que indicam que esse aumento da ECA-2 poderia ser protetor. Não existe confirmação para qualquer uma dessas teorias.

— A pergunta só pode ser respondida por um estudo clínico randomizado. Isto é, com seleção aleatória sobre que paciente mantém os remédios e qual deixa de tomá-los. Além disso, quem analisa os resultados não sabe o que o paciente tomou. Isso permite que a análise seja a mais precisa possível — salienta Lopes.

Dúvidas sobre remédios

O estudo reúne pacientes de 34 hospitais de todas as regiões do país e é randomizado. Isto é, os pacientes são escolhidos pelo sistema para tomar ou não essas drogas. O objetivo é avaliar o impacto da suspensão dos remédios no tempo de internação hospitalar e na mortalidade de pacientes com Covid-19.

— Essa é uma doença nova e há muitas dúvidas. Mas estamos convencidos que nosso estudo, que analisa os casos de pacientes com Covid que receberam, ou não, essas drogas, trará as respostas — diz a pesquisadora do Idor Renata Moll Bernardes.

A coordenadora da área de cardiologia da Rede D’Or São Luiz, Olga Ferreira de Souza, frisa que é muito importante oferecer logo resposta para as dúvidas porque muitos pacientes cardíacos, por medo, têm suspendido por conta própria essas medicações. E isso, ao invés de protegê-los, acaba os colocando em risco de problemas cardíacos.

— Parar de tomar esses remédios expõe o paciente a complicações cardíacas potencialmente graves, não relacionadas à Covid-19. Então queremos sanar logo essas dúvidas e estamos otimistas — diz Olga.

Frentes de pesquisa

A pesquisa sobre drogas e complicações cardiovasculares é parte de um programa do Idor contra a Covid-19, que inclui o comportamento do coronavírus, testes de medicamentos, estudos clínicos em pacientes com câncer e doenças do coração, terapias celulares, epidemiologia, complicações neurológicas, exames de imagem e saúde mental.

O programa recebeu R$ 20 milhões do Idor e o instituto pretende fazer parcerias para dobrar esse valor. Participam todos os 50 hospitais no Brasil da Rede D’Or São Luiz, além de outros hospitais públicos e privados e colaborações com universidades.

A presidente do Idor, Fernanda Moll, explica que uma das linhas de pesquisa busca identificar substâncias que possam indicar se um paciente com Covid-19 corre o risco de agravamento. São os chamados biomarcadores e sua identificação promete salvar vidas. Outro estudo em andamento investiga o comprometimento do sistema nervoso central pela doença.

— Vamos acompanhar inclusive pessoas que se recuperaram da Covid-19 para saber se sofreram sequelas neurológicas — diz Fernanda Moll.

Também estão sendo iniciadas pesquisas sobre os exames de imagem e sobre os casos graves de Covid-19 em crianças.