Pesquisa revela que 89% dos profissionais de saúde do Brasil estão esgotados

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SÃO PAULO - A imensa maioria (89,4%) dos profissionais de saúde do Brasil se diz muito cansada psicologicamente, aponta uma pesquisa realizada com 4.398 participantes, entre médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem de todas as regiões. A enquete foi respondida online em meio à segunda onda da Covid-19 no país, entre os dias 29 de março e 5 de abril de 2021, mas os resultados só foram revelados agora.

O esgotamento físico também é grande. Entre os voluntários, 87,2% concordam que esse é um problema enfrentado atualmente, mostra ainda o levantamento organizado pela healthtech PebMed, que produz conteúdo educativo para médicos (a empresa faz parte da Afya Educacional, grupo de faculdades de medicina).

Chama ainda a atenção um dado que mostra o crescente desamparo emocional da categoria ao longo da pandemia. Ao avaliarem a frase “Me sinto mais amparado psicologicamente no meu ambiente de trabalho do que ano passado”, apenas 33,6% se sentiram representados e concordaram. A maior parte (53,7%), pelo contrário, discordou que as coisas tenham melhorado nesse sentido.

Já quando as perguntas sobre a evolução do aprendizado para lidar com o coronavírus ao longo do último ano tocam nas questões técnicas, as respostas são positivas. Para 80,9%, a sensação é de maior preparo técnico para essa situação do que em 2020. Realizar procedimentos como intubar e extubar (necessários em pacientes graves, que não conseguem mais respirar adequadamente sem auxílio de aparelhos) ficou mais simples para 60,1%. Operar o ventilador mecânico também se tornou mais fácil para 55,4%.

Para Eduardo Moura, médico que é cofundador da PebMed, isso deixa claro que há um desajuste na linha de frente. A evolução dos profissionais brasileiros para cuidar de pacientes com essa doença até há pouco desconhecida foi muito mais focada nas questões técnicas, enquanto o equilíbrio psicológico ficou em segundo plano.

— Isso só evidencia que o fundamental agora é o suporte psicológico. Parece que nessa questão do suporte psicológico a gente não aprendeu nada como gestão de saúde. É o tipo de preparo que deveria ser dado pelos serviços de saúde, sejam particulares ou públicos — analisa Moura.

Fora a falta de programas de atenção a esses trabalhadores, o bem-estar psicológico também é minado pela ausência de condições melhores em termos de tamanho de equipe e de oferta de insumos, destaca o coordenador da pesquisa. Entre os participantes, 70,8% relataram lidar com indisponibilidade de leitos de UTI; 56,6% dizem que, em algum grau, faltam respiradores mecânicos; e 67,5% contam que faltam profissionais para atender toda a demanda.

A escassez de kit intubação também é um desafio para 35,1%, assim como o próprio oxigênio para auxiliar os pacientes (14% já viram falta). Até mesmo o acesso aos equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados pode ser complicado para alguns (20,9%).

Improviso

Essa precariedade, aponta ainda a pesquisa, exige que os profissionais façam escolhas difíceis e trabalhem com improvisos. Entre os que não encontram sempre respiradores mecânicos para os doentes, por exemplo, 50,9% dizem que infelizmente tiveram que escolher quem receberia o tratamento. A priorização do oxigênio apenas para casos mais graves também foi feita por 57,6% dos que não dispõem sempre do gás para ajudar os pacientes.

— Em meio a todas essas adversidades, esses profissionais perdem pacientes que eles poderiam ter salvo. Os profissionais não estavam acostumados a isso, é uma carga emocional muito alta. Eles perdem também pacientes jovens, que tinham toda uma vida pela frente — ressalta Moura, que pretende fazer mais pesquisas para medir esses pontos no futuro.

Em julho passado, a empresa já realizou uma outra pesquisa, focada em identificar sintomas de burnout na linha de frente do Brasil. Esse levantamento, feito com 3.613 profissionais, encontrou que 83% davam sinais da síndrome do esgotamento profissional.

A vacina, por outro lado, surge como esperança, ainda que não cesse as preocupações. Para 55,5% é a vacina a principal medida para acabar com a pandemia. Dos que estão na linha de frente, 69,1% já haviam tomado as duas doses no momento da pesquisa, mas o medo de se reinfectar entre 87,9% dos que já pegaram Covid. Passar o vírus para familiares também é um receio da maioria: 97,2% compartilham dessa insegurança.

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