Pesquisador lança dossiê sobre trajetórias pouco conhecidas na formação da identidade brasileira

Neto de compositora da Vila Isabel e sobrinho de bambas do Salgueiro, o pesquisador Vinícius Natal, de 35 anos, aprendeu a ver o mundo por meio das escolas de samba. Não à toa, a Marquês de Sapucaí é a segunda casa do atual vencedor do Estandarte de Ouro de melhor enredo com o Exu, da Grande Rio, escola em que trabalha desde 2019. Recentemente, ele lançou o primeiro volume do dossiê “Biografias e trajetórias negras do samba carioca”, pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio, que reúne artigos para destacar nomes que ajudaram a construir a identidade brasileira e a formar a história do carnaval.

Você é formado em História, em Antropologia e em História da Arte. O seu estudo se deve à trajetória no samba?

Eu venho de uma família de mulheres que sempre trabalharam muito para me criar, mas que em paralelo mantiveram uma vivência no mundo do samba. A primeira vez que saí de casa foi para ir a uma quadra de escola de samba. É o meio em que vivo até hoje. Todo esse entendimento de mundo a partir das agremiações guiou a minha trajetória acadêmica.

Como surge a ideia do dossiê?

Sempre gostei de trabalhar com biografias. E me deparei, ainda no pós-doutorado na Uerj, com a figura de Miguel Moura, um pintor que, na década de 1940, já pensava no visual das escolas de samba antes de existir a figura do carnavalesco. Ele foi deixado de lado, foi esquecido. Até hoje ainda não se conhecem os fundadores das escolas, as histórias, os primeiros sambistas do século 20. Isso me incomoda demais.

Que nomes você destaca?

Primeiro, Tata Tancredo, sambista responsável pela difusão da umbanda Omolokô no Brasil, com uma centralidade muito forte no bairro do Estácio e responsável pelo início da tradição dos cultos afrorreligiosos na virada do ano, na Praia de Copacabana. Outro nome é o de Mano Eloy, jongueiro que gravou o primeiro disco de macumba no Rio e ajudou na formação de escolas como o Império Serrano. E tem Tiãozinho da Mocidade, compositor que mantém até hoje uma atuação muito forte nas rodas de samba da Zona Oeste do Rio. Todos são figuras marcantes da presença negra na história do samba.

O tema te motiva a escrever?

A minha obra abraça o samba e a sociedade negra muito por conta da vivência pessoal, mas também porque o samba parte dos terreiros e da sociabilidade negra. Se olharmos os fundadores das escolas, são filhos e netos de escravizados num momento pós-abolição. É preciso abordar o passado que querem silenciar para entendermos o que são as agremiações.

Você acredita que a história do carnaval é menos valorizada do que a de outras tradições culturais do país?

Sim. Ela acaba sendo enxergada como algo menos importante. Se formos a qualquer arquivo público e procurarmos sobre a cultura erudita, vamos encontrar uma série de acervos e documentos. Mas se perguntarmos sobre a história do samba e da cultura popular negra, não acharemos arquivos com tanta facilidade. Isso demonstra o olhar de uma elite política e cultural brasileira que ainda enxerga as escolas de samba como algo menor, quando na verdade foram essas pessoas que firmaram uma marca da identidade cultural carioca, fluminense e brasileira. Os desfiles, por exemplo, são vistos só como espetáculo, e não se valoriza o caráter simbólico e de afirmação negra.

Nesse contexto, enredos sociais e políticos se tornam ainda mais necessários e vieram para ficar?

O carnaval sempre teve a característica de ser o momento em que a sociedade olha para dentro dela mesma e faz uma reflexão a partir do escárnio. Cada vez mais, os desfiles ocupam esse lugar de saber o que se quer e se espera do Brasil. Enredos politizados sempre foram uma tônica do nosso carnaval. Quando voltamos para a década de 1940 e lembramos enredos sobre Princesa Isabel, Castro Alves e escravidão, deve-se ter em mente que a sociedade daquela época queria jogar o passado de exploração negra para debaixo do tapete. Então, quando um grupo de pessoas negras funda as escolas de samba e resolve debater o assunto no carnaval, no Centro do Rio de Janeiro, isso já era um ato político enorme. E esse movimento apenas veio se modificando.

Este ano você completa dez anos de trabalho ao lado dos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora. Como vê o título da Grande Rio e o que esperar do enredo sobre Zeca Pagodinho?

Falar de Exu num momento em que terreiros são atacados foi importante demais, uma vitória do povo de axé. Agora, já estamos em fase de pesquisas. Vou assinar junto com os carnavalescos. Será uma visão do Zeca como grande intérprete de um Rio de Janeiro muitas vezes jogado para escanteio, mas que na verdade é parte fundamental de uma identidade coletiva do que é ser carioca, fluminense, suburbano, pagodeiro, sambista... todas as identidades que assim vão se agregando.

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