Pesquisador que mostrou como o público interfere no desempenho de atletas negros condena racismo na Eurocopa

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O pesquisador Fabrizio Colella, doutorando da Escola de Altos Estudos Comerciais, da Universidade de Lausanne, na Suíça, usou dados recentes para mostrar como o racismo se expressa no futebol e, consequentemente, afeta a produtividade dos jogadores. A partir de pontuações reais, filtradas de um jogo fantasia — semelhante ao Cartola FC, que avalia fatores além de gols e assistências —, ele calculou o desempenho de mais de 500 atletas da Série A italiana, comparando jogos com e sem público.

O resultado exibiu que os não brancos, em média, melhoraram 1,2% o desempenho, seguindo um padrão: quanto mais escura a cor da pele, melhor jogaram sem torcida. Já os brancos registraram um declínio na curva de qualidade em tempos de pandemia.

Para definir a variação, ele usou a Escala de Fitzpatrick, método dermatológico que classifica cores e tons da pele humana de forma numérica. Colella testou outras variáveis, como nacionalidade, qualidade das equipes, efeito casa, mas em todos esses controles a cor da pele continuou sendo relevante no desempenho.

Esta semana, o racismo no futebol voltou às manchetes depois que Sancho, Saka e Rashford foram vítimas de insultos pela derrota da Inglaterra na final da Eurocopa.

De onde veio a motivação para a pesquisa?

Eu sei que os torcedores afetam o desempenho dos jogadores. Este é um fato bem estabelecido demonstrado por um estudo anterior que fiz na Argentina, e por muitos outros estudos em ligas europeias usando o “choque Covid-19”. Também sou fã de futebol e sei que comportamentos racistas por parte dos torcedores não são tão raros na Série A. Lembro-me que uma vez Balotelli parou de jogar e arremessou a bola na direção dos torcedores para reclamar de seus contínuos insultos por conta da cor de sua pele. Portanto, eu disse a mim mesmo: “Vamos ver se episódios de racismo realmente afetam o desempenho do jogador”.

Você esperava essa resposta?

O resultado não me surpreende. Comecei este estudo motivado pelos episódios frequentes de racismo na Série A, mas não são os únicos casos. Houve episódios de discriminação racial também em outros lugares. No entanto, tenho a impressão que o nível de consciência do problema é maior nas outras ligas.

Profissionais da área esportiva tiveram acesso à pesquisa. Quais retornos?

Meu estudo oferece uma descrição de uma consequência potencial desses comportamentos. Espero que de alguma forma possa aumentar a consciência do fenômeno, que é definitivamente o primeiro passo.

Sua pesquisa aborda o futebol italiano, mas os casos de racismo são comuns em toda a Europa. Como você encarou a final da Eurocopa em relação aos ataques sofridos pelos jogadores ingleses?

O que aconteceu após a final fora do estádio e nas redes sociais é absolutamente inaceitável. Os ataques racistas nas redes sociais sofridos por Saka, Sancho e Rashford destacaram dois pontos: trata-se da cor da pele, não da nacionalidade, e não basta punir times por episódios de racismo no estádio, pois esses episódios agora estão acontecendo também nas redes sociais.

Acho que precisamos trabalhar na educação e disciplina. O primeiro passo é explicar às pessoas responsáveis por esses comportamentos como eles podem ser perigosos. Na minha opinião, a Uefa e os clubes têm feito um excelente trabalho ao aumentar a sensibilização para o fenômeno durante os jogos de várias formas, mas o racismo ainda não foi derrotado.

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