Pesquisador de remédio tido como 'milagroso' por bolsonaristas criou método usado em app da Saúde sob investigação

Leandro Prazeres
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BRASÍLIA — O pesquisador responsável pelo estudo sobre um remédio usado no tratamento do câncer de próstata e que seria capaz de reduzir em até 92% a mortalidade de pacientes com Covid-19 é o mesmo que, em outro estudo, defendeu a eficácia da hidroxicloroquina contra a doença e que desenvolveu a metodologia usada pelo Ministério da Saúde no aplicativo TrateCov, lançado pelo governo e que recomendava o uso de remédios sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a cloroquina.

O pesquisador é o médico Flávio Cadegiani, que é doutor em endocrinologia e próximo a outros médicos que defendem, abertamente, o tratamento precoce contra a doença.

No dia 9 de fevereiro, Cadegiani apresentou, em Manaus, os resultados preliminares de um estudo que, segundo ele, foi conduzido com 590 pacientes de nove hospitais do Amazonas. O estudo analisou a resposta de pacientes ao uso da proxalutamida, um medicamento utilizado no tratamento de câncer de próstata. Na plataforma do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), ele aparece como pesquisador-chefe do estudo.

Na apresentação, Cadegiani afirma que a proxalutamida reduz a produção da enzima TMPRSS2, que facilitaria a entrada do vírus na célula humana. Dessa forma, segundo Cadegiani, o estudo teria comprovado que o grupo de pacientes que tomou a medicação teve uma redução de 92% na sua mortalidade em comparação com o grupo que tomou um placebo, substância sem efeito medicamentoso.

O estudo, porém, ainda não foi publicado em nenhuma revista científica, o que significa que seus resultados ainda não foram revisados por outros cientistas. Mesmo assim, desde que os supostos dados do estudo foram expostos em uma apresentação divulgada pelo YouTube, grupos bolsonaristas passaram a compartilhar intensamente o vídeo em grupos de WhatsApp classificando o remédio como "milagroso".

Uma reunião sobre o uso da substância contra a Covid-19 chegou a ser agendada com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O encontro, previsto para ter ocorrido na semana passada, no entanto, foi adiado e uma nova data não foi informada.

Por meio de sua assessoria, Cagediani disse ao GLOBO que seu estudo com a proxalutamida foi divulgado antes da publicação em revistas científicas, em parte, devido à "urgência" imposta pela pandemia. Sobre o aplicativo TrateCov, disse discordar do modo como a metodologia foi implementada pelo governo e, quanto ao uso de cloroquina e ivermectina no tratamento da Covid-19, respondeu vagamente que defende "estudar cientificamente alternativas terapêuticas".

Pesquisador disse que hidroxicloroquina era eficaz contra Covid-19

Antes de defender a proxalutamida, Cadegiani sustentou que drogas como hidroxicloroquina, ivermectina e a nitazoxanida (conhecida como "annita") tinham eficácia no tratamento da Covid-19. Em outubro de 2020, ele publicou artigo sem revisão de pares afirmando que as três substâncias teriam eficácia no tratamento da doença. O estudo foi assinado por ele e outros dois pesquisadores que também são autores do estudo sobre a proxalutamida.

Três meses antes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu definitivamente os estudos com a hidroxicloroquina após uma série de estudos concluir que a substância não reduzia a mortalidade dos pacientes. Em fevereiro deste ano, a farmacêutica MSD, responsável pela fabricação da ivermectina, divulgou um comunicado dizendo que não há evidências científicas de que o medicamento tenha eficácia contra a doença.

Criador de método usado por app sob investigação

Cadegiani também é o nome por trás do método usado pelo Ministério da Saúde em um aplicativo criticado por médicos, cientistas e que virou alvo de investigação. O TrateCov foi um aplicativo lançado pelo Ministério da Saúde em janeiro deste ano. Com base em dados repassados pelos usuários, o aplicativo calculava as chances de a pessoa estar ou não com Covid-19 e sugeria o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, como a cloroquina e ivermectina.

Desde então, o Ministério da Saúde não revelou os responsáveis pela elaboração do aplicativo, mas um ofício assinado pela secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde da pasta, Mayra Pinheiro, aponta que a metodologia adotada pelo ministério no aplicativo foi criada por Flávio Cadegiani.

“Cumpre informar que a construção da Plataforma Digital TrateCOV Brasil teve como referência a ferramenta diagnóstica AndroCoV Clinical Scoring for COVID-19 Diagnosis”, diz o ofício.

A ferramenta mencionada no documento foi proposta por Cadegiani e outros seis pesquisadores e estabelecia um sistema de pontos baseado nas informações sobre o estado de saúde do paciente. Dependendo da pontuação, haveria mais ou menos chances de o paciente estar doente.

Após o lançamento da plataforma, no entanto, entidades como o Conselho Federal de Medicina (CFM) pediram que o aplicativo fosse tirado do ar, o que aconteceu nos dias seguintes. Segundo o conselho, a ferramenta induzia pacientes à automedicação. O caso virou alvo de investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF).

À época, o Ministério da Saúde se defendeu e disse que o aplicativo havia sido lançado como um “projeto-piloto e não estava funcionando oficialmente, apenas como um simulador”. O ministério alegou ainda que o sistema havia sido invadido e ativado indevidamente, e, por isso, ele foi retirado do ar.

Para cientistas, faltam dados sobre estudo com proxalutamida

Cientistas ouvidos pelo GLOBO sobre os dados apresentados por Cadegiani em fevereiro a respeito dos efeitos da proxalutamida mencionaram fragilidades na forma como o estudo foi apresentado e disseram que, sem a divulgação integral dos dados, não é possível levar os achados a sério.

— Como o estudo não foi publicado e nem submetido à revisão de outros cientistas, não temos como atestar a eficácia da substância. De toda forma, uma eficácia de 92% é algo absolutamente fora da média quando tratamos de um medicamento. Em geral, quando vamos testar um remédio novo, esperamos resultados bem menores, quase sempre abaixo de 35% de eficácia — disse a médica e doutora e pneumologia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Ana Carolina Peçanha Antonio.

Além disso, ela afirma ter encontrado incongruências entre os dados apresentados e o desenho da pesquisa registrado em uma plataforma norte-americana para testes clínicos. Segundo ela, há divergências entre os dados que foram apresentados e aquilo que a pesquisa se propunha a investigar.

— Esse tipo de incongruência pode indicar que eles só apresentaram os resultados que interessavam a eles. Mas a gente só pode afirmar isso com certeza a partir do momento em que tivermos todos os dados do estudo — afirmou.

Médico diz que estudo foi divulgado antes devido à 'urgência' da pandemia

Procurado, Cadegiani respondeu às críticas. Segundo ele, o estudo foi divulgado antes da publicação em revistas científicas, em parte, devido à "urgência" imposta pela pandemia.

"Assim como ocorreu com a divulgação dos resultados de boa parte das vacinas e de alguns medicamentos, que também ocorreram antes das respectivas publicações (algumas não publicadas até hoje) optamos por divulgar os resultados obtidos antes da revisão por pares devido à urgência que a pandemia requer em termos de respostas", disse o médico por meio de sua assessoria.

Questionado sobre o estudo em que ele aponta a eficácia da hidroxicloroquina e da ivermectina e sobre se ele sustenta seus achados após a OMS e boa parte da comunidade científica afirmarem que os medicamentos não devem ser usados no tratamento da Covid-19, o médico disse que o "estudo explica por si só e foi aceito após a revisão por pares".

Em relação ao uso de sua metodologia no aplicativo TrateCov, Cadegiani disse ter discordado da forma como seu método foi utilizado. Segundo ele, o TrateCov não deveria ter feito recomendações de medicamentos.

"Eu discordo frontalmente da utilização do diagnóstico clínico para promover medicamentos. Eu inicialmente até comemorei bastante quando fui informado que uma ferramenta de baixo custo para diagnóstico, permitindo a possibilidade de se diagnosticar COVID-19 em lugares sem acesso a exames, mas jamais deveria existir qualquer correlação entre ferramenta diagnóstica e recomendação de medicamentos", disse.

Indagado sobre se defende o uso de hidroxicloroquina ou ivermectina no tratamento da Covid-19, Cadegiani respondeu parcialmente. "Eu defendo estudar cientificamente alternativas terapêuticas", disse.