Pesquisadora da vacina de Oxford considera que suspensão do imunizante pode provocar grande impacto na saúde pública

Constança Tatsch
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RIO — A suspensão da imunização com a vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford por diversos países na Europa pode ter outros motivos, além da preocupação científica e falta de experiência de comitês de vacinação de alguns países. A coordenadora no Brasil dos ensaios clínicos do imunizante, Sue Ann Costa Clemens, vê também uma questão política, impulsionada pelo atraso na entrega das vacinas a algumas nações europeias.

Veja a seguir os principais pontos da entrevista com a professora e diretora do Grupo de Vacinas da Universidade de Oxford:

O brasileiro deve ficar preocupado com esta suspensão na Europa?

O que podemos falar, baseados em dados científicos, é que estamos confiantes. A análise feita em dados de segurança de mais de 18 milhões de pessoas que tomaram a vacina não mostra riscos relacionados a enfermidades. Quando vemos o número desses eventos, a incidência no grupo vacinado é menor do que na população em geral.

Quais são esses dados?

Varia de país para país, mas a incidência no Reino Unido desse tipo de problema é de um caso para mil pessoas. Não é raro. Foram registrados 12 casos de tromboembolismo em 8,4 milhões de vacinados com a AstraZeneca. Entre quem tomou vacina da Pfizer, foram 15 casos. Ambos os números são infinitamente menores do que na população geral. Os casos de trombose profunda foram 15 enquanto o esperado na população seria 704. Foram 22 casos de embolia, quando o esperado seria 860. Então veja como está abaixo.

Cientificamente, é possível relacionar eventos como trombose e embolia a uma vacina?

Essa parte de coagulopatia, eventos trombóticos etc, a gente vê na Covid em si. Pode ter tido a doença e a vacina exacerbou o problema. Vacinamos milhões de pessoas que já tiveram Covid. Estamos analisando isso. Mas, é preciso reforçar, não há sinal de eventos adversos mais raros provocados pela vacina. Vão aparecer eventos de diferentes enfermidades em pessoas vacinadas, milhões são imunizadas por dia. Quando ocorre um agrupamento de eventos, é chamado de um "sinal" em farmacovigilância. Estamos com uma lupa olhando isso e até o momento não apareceu nenhum sinal.

Nos estudos de fase 3 esse tipo de problema também não foi detectado?

Os países fazem um plano de farmacovigilância para isso: buscar eventos adversos mais raros. A fase 3 dos estudos não inclui todos os tipos de comorbidades possíveis, nem HIV, grávida, transplantado, é um estudo controlado que minimiza os riscos. Para descobrir evento adversos raros, só com milhões de pessoas. É normal que tenham esse cuidado e agora o foco está muito em cima, as coisas vão surgir mais rápido mesmo. Mas durante os estudos clínicos, com mais de 60 mil pessoas, o grupo placebo teve mais eventos tromboembólicos do que o grupo de vacinados.Covid-19:Após lockdown, transmissão do coronavírus em Araraquara (SP) caiu 50%

Mas, então, por que os países europeus suspenderam a vacinação?

Muitos comitês internacionais não têm experiência com vacinação, não vacinam tanto, em vários países a vacina não é obrigatória. Há uma cautela extrema. Há comitês de países que não têm experts com conhecimento de vacinação em massa, muitos não têm médicos e pesquisadores, e políticos tomaram a frente. Países que têm essa experiência lidam com isso de outra forma. A EMA (Agência Europeia de Medicamentos), que tem a expertise, foi a primeira a dar o registro e continua afirmando que sigam com a vacinação. O mesmo com a OMS e com o Reino Unido. Quem tem esse conhecimento não recomenda parar.

Com tantos casos surgindo diariamente, a senhora considera a suspensão um excesso de cautela?

Eventos adversos raros podem ocorrer e isso tem que ser observado, deve ser investigado. Mas é preciso observar riscos de possíveis eventos adversos considerando o benefício que está trazendo. Na Europa morrem 3 mil pessoas por dia. Aqui, no Brasil, são 2 mil. Houve outras vacinas em que aconteceu um debate sobre efeitos adversos e que não parou desse jeito. O impacto disso é muito grande. A gente está pior hoje em relação à doença do estávamos, apesar da vacina. É muita responsabilidade parar uma vacinação, eles querem se precaver, mas não pensam no impacto de saúde pública.

A senhora citou mais casos de pacientes que receberam imunizantes da Pfizer do que da AstraZeneca. Há uma questão política aí?

É uma opinião pessoal, mas acho que é uma questão política. O Reino Unido já vacinou mais de 11 milhões de pessoas em três meses. O resto da Europa deveria ter recebido mais doses e não recebeu. Vários produtores estão com atrasos importantes, é uma situação a nível mundial de falta de vacina mesmo. Então pode ser uma cobrança para que sejam entregues as doses, um tipo de reação à não entrega, ou talvez obrigando a EMA a comprar outra vacina, pressionar para ter outro produtor. A gente vê um cenário político em torno das vacinas aqui, nos EUA e em outros países. A vacina russa é um exemplo. Isso existe e tem um impacto muito grande em saúde pública.