Pesquisadora identifica 530 células neonazistas no Brasil

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Ein Computer und Taste für Hass
Foto: Getty Creative

A recepção calorosa oferecida por Jair Bolsonaro a uma neta do ministro das Finanças de Adolf Hitler acendeu, ou deveria acender, o alerta sobre a presença e o crescimento de grupos extremistas no país —um crescimento que coincide com a chegada da extrema-direita ao poder.

O Brasil possui atualmente 530 células neonazistas já identificadas, de acordo com um levantamento atualizado mensalmente pela antropóloga Adriana Dias, da Unicamp. Dias é uma das principais autoridades nos estudos sobre grupos neonazistas no país.

O número indica crescimento significativo desses grupos nos últimos dois anos. Em 2019, havia 334 células ativas no país.

Células neonazistas são grupos de ao menos três pessoas que se reúnem para difundir ideias e ações inspiradas na experiência nazista da Europa na primeira metade do século 20, quando Hitler ascendeu ao poder na Alemanha com forte discurso de ódio contra minorias e em defesa do nacionalismo.

Geralmente, quando esses sites são identificados, Dias entra em contato com os provedores pedindo a retirada do conteúdo.

O nazismo foi vencido na Segunda Guerra, mas suas ideias não deixaram de ser compartilhadas.

Pelo contrário: a comunicação digital, via redes sociais ou grupos da chamada darkweb, potencializou essas vozes em alta velocidade.

As células neonazistas brasileiras se concentram nas regiões Sul e Sudeste, com 301 e 193 grupos identificados respectivamente. A pesquisadora já mapeou células também no Centro Oeste (18) e no Nordeste (13).

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Os grupos são divididos entre hitleristas, separatistas, de negação do Holocausto, racistas skinhead, ultranacionalistas brancos, entre outros.

Na quarta-feira 29, o site The Intercept Brasil divulgou um registro dos arquivos da antropóloga que mostram fotos e um banner do então deputado Jair Bolsonaro em sites neonazistas. Três endereços eletrônicos compartilhavam uma carta em que o futuro presidente desejava-lhes “felicidades por ocasião das datas festivas que se aproximam”. As páginas tinham ainda links que direcionavam o leitor para o site mantido na época pelo parlamentar.

A grande questão, segundo a pesquisadora, é que o site de Bolsonaro recebeu tráfego de site neonazista durante meses e, aparentemente, ninguém estranhou.

Dias classifica o documento recentemente reencontrado como um achado que permite observar um projeto em curso.

Como lembrou o jornalista Leandro Demori, que teve acesso ao documento, “Jair Bolsonaro já elogiou as qualidades de Hitler, já tirou foto com sósia de Hitler, já disse que o holocausto poderia ser perdoado”.

Além disso, ele precisou demitir, no início de 2020, um secretário de Cultura que emulou a estética e o discurso de Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, em um pronunciamento. E, como lembrou Demori, seu assessor especial Filipe Martins é réu por fazer um gesto de white power em uma sessão do Senado.

A visita da deputada alemã Beatrix von Storch foi só o mais recente capítulo de uma série de “coincidências” que reforçam o link, não só digital, entre o bolsonarismo e os grupos extremistas.

Mas não é um capítulo isolado. Basta lembrar que, há pouco tempo, a vice-governadora de Santa Catarina, apoiadora declarada de Bolsonaro, evitou rebater enfaticamente as ideias difundidas por seu pai, um fã de Hitler, quando assumiu temporariamente a chefia do executivo estadual.

O neonazismo à brasileira tem suas especificidades. No mais recente relatório de observação de grupos neonazistas, de julho, Adriana Dias contou que, ao metrificar dados dos grupos religiosos neonazistas no Brasil, foi detectado um fenômeno particular. 

“Nos grupos religiosos, principalmente nos grupos fundamentalistas católicos, evangélicos ou de fonte neo-pagã, os grupos começam em cidades pequenas e depois alcançam cidades maiores. Isso nos fez pensar no motivo dessa construção, visto que nas outras regiões os grupos surgiram primeiramente em centros urbanos desenvolvidos, a não ser no caso dos Klans, que são recentes, e dos neo-confederados, ligados a sua construção histórica no país”, escreveu.

Em seu relatório, a antropóloga também mapeou novos sites e serviços de internet usados por neonazistas, como Mastodon e Pleroma. “Monitoramos também o uso habitual do Gab, BitChute (Videos), serviços de busca DuckDuckGo e Startpage e navegadores, Brave e Waterfox. Para o comércio de material neonazista, utilizam PayPal, Stripe, BitPay, Bitcoin e Monero.”

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