Pesquisadores ajudam vinícolas a criar estratégias específicas para a produção de uvas e vinho no Pampa

A agenda de sustentabilidade, por trazer às empresas pautas técnicas, têm exigido uma aproximação maior com a academia. No setor de vinhos, esse diálogo já tem mais tempo e ajuda a promover a inovação do campo à fábrica.

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Desde 2011, a vinícola Família Salton trabalha em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) para experimentos no solo do vinhedo próprio em Sant'Ana do Livramento (RS). Uma parte da propriedade é reservada para as pesquisas sobre especificidades da produção de uvas no Pampa, incluindo interação entre fauna, flora, solo e clima.

— Um dos estudos que apoiamos, e que durou cerca de dez anos, resultou em uma cartilha de recomendação de adubação para vinhedos da Campanha Gaúcha, gerando maior produtividade, qualidade e precisão. Esse estudo foi compartilhado com produtores da região — conta Thaís Colau, gerente de Inteligência do Negócio e ESG da Salton.

A região da Campanha, próxima às fronteiras com Uruguai e Argentina, tem clima mais seco, inverno mais rigoroso, verão mais quente, alta amplitude térmica e menor volume de chuvas que a Serra Gaúcha. Isso não apenas determina diferenças no solo, como também no tipo de uva e bebida que pode ser mais produzido ali.

Enquanto as uvas da Serra Gaúcha amadurecem com mais acidez e são mais propícias para espumantes, o carro-chefe na Campanha são os tintos, mais aromáticos. Daí a importância de ter um mapeamento específico para explorar o potencial regional, diz Gustavo Brunetto, professor da UFSM que lidera as pesquisas com um grupo de 30 alunos da graduação e pós-graduação no local.

Sensores nas plantas e em postes coletam informações sobre clima, umidade e quantidade de nutrientes nas videiras e no solo. O objetivo é aumentar a produtividade das plantações e reduzir custos para os produtores da região. Ao mesmo tempo, isso pode contribuir para traçar ações de contenção dos efeitos do aquecimento global, que deve afetar o regime de chuvas e trazer um desafio extra ao campo.

— Temos que nos preparar para nos adaptar às mudanças climáticas. A valorização de pesquisas acadêmicas e o uso de dados devem ser prioridade — diz o professor, acrescentando que o estudo do carbono no solo é um dos próximos passos.

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A Salton também firmou com um grupo de professores e estudantes do Instituto de Saneamento Ambiental (ISAM) da Universidade de Caxias do Sul (UCS) uma parceria para medição do inventário de suas emissões de gases de efeito estufa (GEE) em suas quatro unidades: em Bento Gonçalves (RS), Sant’Ana do Livramento (RS), Jarinu (SP) e São Paulo (SP). Considera os escopos 1 e 2, referentes à poluição das operações próprias e do consumo de energia.

— Quando recebem o inventário, as empresas não podem pensar que a troca de fornecedor resolve. É preciso mudar processos e implementar métricas para acompanhar a evolução — explica Tiago Panizzon, professor da UCS.

O projeto mais desafiador da parceria hoje é a Análise do Ciclo de Vida do produto (ACV), que avalia os impactos ambientais da cadeia produtiva da empresa para além dos gases. Considera uso de recursos hídricos, solo, envase, geração de resíduos, energia usada em todo o processo, entre outros.

— É avaliado o impacto propriamente dito do produto no ambiente. Enquanto o inventário de carbono leva em torno de seis meses, a ACV não é feita em menos de 12 meses — diz Juliano Rodrigues Gimenez, pesquisador da UCS, para quem esse primeiro deve servir de referência para outras vinícolas da região e para o setor.

Empresa e universidade realizaram ainda um estudo científico sobre economia circular, utilizando resíduos da cadeia produtiva para geração de calor. O projeto está em fase de análise de investimentos pela empresa.

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Na produtora de espumantes Chandon, a parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) ajudou a montar uma estratégia de redução de uso de herbicidas e a definir o grupo de plantas que seriam mais adequadas para ficar nas entrelinhas e nas linhas das videiras.

— Ao invés de usar herbicida, estudamos a utilização de roçadas — comenta Leonardo Cury, especialista em inovação e viticultura sustentável e professor do IFRS.

Para ele, ser sustentável exige vontade das empresas, porque é um processo trabalhoso, de longo prazo e custoso.

— O maquinário que a Chandon usa foi importado da França e feito sob medida para se adaptar ao relevo do terreno e distância das linhas (de videiras). A empresa tem que se interessar e ir atrás — diz.

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Aproximação com academia traz inovação

A aproximação com a academia, segundo Cury, traz como benefício a inovação:

— Por ser um desafio, acaba contribuindo para um melhor desempenho das operações e processos, e também no desenvolvimento de novos produtos.

Ele cita que um grupo de estudantes projetou uma tesoura que se autodesinfeta, e outro desenvolveu alimentos nutritivos a partir de resíduos de uva e maçã, como uma barra de cereal sem glúten e com probióticos, uma mistura de bolo e chás.

— Também estamos patenteando uma armadilha autônoma e tecnológica, que usa técnicas de inteligência artificial, machine learning e rede neural para identificar e capturar a mosca da fruta, que é um problema para a fruticultura e viticultura. Dessa forma, os produtores conseguiram diminuir a quantidade de químicos e aplicar só quando necessário.

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Cury e a professora do IFRS Shana Sabbado Flores, especialista em Gestão e Inovação, estão disseminando boas práticas entre agricultores de diversos portes no Estado. A professora, inclusive, desenvolveu uma metodologia chamada Baccus — em alusão a Baco, nome romano de Dionísio, deus do vinho na mitologia grega — que contempla 100 indicadores para os produtores de vinho sobre o nível de sustentabilidade nas atividades agrícolas e também na indústria.

A tese, desenvolvida por Shana Flores no doutorado, baseia-se em pesquisa de campo na França, na Itália e na Espanha e na observação de protocolo de vitivinicultura sustentável em outros cinco países: África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e Chile. O objetivo é mensurar o que se está fazendo de bom e traçar uma estratégia de melhorias, ela explica. Entre os indicadores estão gestão da água, ecoeficiência, biodiversidade, práticas agrícolas, saúde e segurança do trabalho.

(*A jornalista viajou a convite da Chandon e da Salton )