Pesquisadores alemães propõem viagem de 150 anos a Proxima Centauri

Representação artística de uma enorme vela solar aproximando-se do planeta Proxima b – crédito PHL, UPR Arecibo, Abel Mendez

Há alguns meses, após o anúncio da descoberta de um planeta na zona habitável de nossa vizinha Proxima Centauri, muitos se dedicaram a discutir sobre as sete formas futuristas de viajar às estrelas. Entre elas, a única solução tecnológica que poderíamos ter ao alcance das mãos é a vela solar.

Se “impulsionarmos” esta estrutura com a ajuda de raios laser disparados da Terra, com uma potência de 100 gigawatts, em teoria, seria possível alcançar velocidades relativísticas (em torno de 20% da velocidade da luz) que nos permitiriam alcançar a estrela mais próxima do nosso sol em duas ou três décadas. O problema? Seria uma missão com um único voo, pois manobrar ou frear no momento da chegada seria impossível. A ideia de passar trinta anos viajando para, uma vez alcançado o objetivo, ter apenas alguns segundos para fotografar e analisar Proxima b é decepcionante, mas a 20% da velocidade da luz, seriam necessárias apenas poucas horas para que a sonda atravessasse por completo aquele sistema solar.

Entre os que propõem este método de viagem interestelar, que em teoria pode ter início na década de 2060, estão o milionário Yuri Milner e Stephen Hawking, dois pesos pesados do ramo. No entanto, além do problema já mencionado do freio, há um outro obstáculo muito sério: o financeiro. Um projeto deste porte implica facilmente um investimento de 10 bilhões de dólares, e francamente, fazer algo assim sem ajuda estatal, parece obra de ficção científica.

Apesar disso, há quem sonhe em fazer esta mesma viagem com mais calma e de uma forma muito mais econômica, ainda usando as velas solares. Iríamos a Proxima Centauri, mas esqueceríamos a ajuda do laser, dando um passeio de 150 anos rumo ao planeta habitável mais próximo da humanidade.

Os cérebros por trás da ideia são Michael Hippke (pesquisador alemão independente) e René Heller (astrofísico do Instituto Max Planck para a investigação do sistema solar, com sede em Göttingen, na Alemanha). Os dois desenvolveram uma missão alternativa à proposta por Milner e Hawking, que, segundo eles, poderia proporcionar mais informações de interesse científico, e ao mesmo tempo reduziria drasticamente os custos envolvidos. A ideia seria usar as velas solares clássicas, nas quais se aproveita o impulso dos fótons emitidos pelo Sol sobre a superfície fina da vela (o grafeno é citado como um material ideal) para impulsioná-la e, desta forma, manobrar uma nave.

A velocidade alcançada durante o trajeto seria “manejável”, de modo que uma vez que a sonda chegasse à Proxima Centauri, seria possível posicioná-la em órbita com a ajuda da força da gravidade, de forma semelhante à usada para “estacionar” nossas naves quando visitam outros pontos do nosso sistema solar. Além disso, a própria radiação luminosa do sistema estelar duplo Alfa Centauri poderia fazer seu papel, ajudando no direcionamento em órbita da sonda (na realidade a viagem em si duraria “apenas” 100 anos; os outros 50 seriam necessários para posicionar a sonda em órbita).

O tamanho da vela? De acordo com os cálculos de ambos, para cada 10 gramas de carga útil que quiséssemos manobrar, seriam necessários 316 m2 de superfície de vela. Com esta relação peso/volume, manobrar uma sonda média, de poucas centenas de quilos, requereria uma vela do tamanho de 15 campos de futebol.

Uma missão com 150 anos de duração pode ser decepcionante para muitos, especialmente numa época em que queremos que a tecnologia nos dê respostas imediatas, mas ainda há outro detalhe importante que precisa ser levado em conta.

Hippke e Heller querem aproveitar uma configuração rara das estrelas que compõem a Alfa Centauri que ocorre a cada 80 anos. Quando ela acontecerá de novo? Em 2035. Mas não se anime, pois neste ano a tecnologia necessária para confeccionar uma vela solar deste tamanho não estará disponível. Portanto, Hippke e Heller propõem uma data mais realista no alinhamento seguinte, no ano de 2115.

Os dois pesquisadores alemães acreditam que a espera valeria a pena, mas certamente não estaremos mais aqui para saber se eles tinham razão.

Acima, é possível ver um vídeo sobre a viagem interestelar proposta por Hippke e Heller, no qual se observa a forma como a gravidade de Alfa Centauri seria usada para frear a vela e iniciar (com a ajuda da gravidade da estrela) a manobra de entrada em órbita.

Miguel Artime
Yahoo Noticias