Pesquisadores cobram financiamento e reconhecimento para ciência do país

WALTER PORTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em debate sobre ciência e tecnologia realizado na Folha de S.Paulo na quarta (29), cientistas que chefiam organizações importantes da área cobraram maior estabilidade nas instituições de pesquisa e não pouparam críticas às universidades públicas.

O evento marcou o lançamento do livro "Um Aprendiz de Quixote" (Editora Verbena), autobiografia do físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, integrante do conselho editorial da Folha de S.Paulo.

Além do autor, participaram do debate José Goldemberg, presidente da Fapesp, Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, e Helena Nader, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O debate foi mediado por Marcelo Leite, colunista do jornal.

Cerqueira Leite abriu sua fala dizendo que lutou a vida inteira "contra a mediocridade que existe em institutos de pesquisa e universidades". O físico criticou a "estabilidade precoce" dos docentes na carreira universitária e a "democratite aguda" que teria se instalado desde que foram instituídas eleições para reitor.

Anos antes da eleição, começa um jogo de poder em que todo mundo quer o seu pedacinho, e as comissões se multiplicam", afirmou. "É preciso reduzir a burocracia imensa gerada pela 'democratite', uma doença boa, mas que não funciona num sistema que tem que dar valor para o talento e não para os favores."

Cerqueira Leite citou uma frase do ex-reitor da Unicamp Fernando Costa: "Se Albert Einstein batesse em minha porta pedindo um emprego, eu não poderia contratá-lo em menos de dois anos devido aos trâmites burocráticos".

A biomédica Helena Nader, da SBPC, disse que é importante mexer na estrutura administrativa das instituições, mas que isso precisa "estar casado com um fluxo contínuo de financiamento". Ela aponta que flutuações no orçamento de pesquisa estão entre os fatores que mais prejudicam o avanço da ciência brasileira, apontando a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), como uma das poucas ilhas de estabilidade.

"Cobra-se muito que o Brasil seja a Coreia. Basta dar o dinheiro e eu vou ser. Projetos estruturantes de nação estão agora sendo ameaçados porque [o financiamento] não tem continuidade."

O físico Luiz Davidovich, da UFRJ, mencionou seu Estado como exemplo negativo, chamando-o de "falido". "Lá há laboratórios de biologia que não podem mais importar insumos. No meu laboratório, se um laser quebrar, minha pesquisa acaba porque não vou ter dinheiro para comprar outro."

José Goldemberg afirmou que é preciso "institucionalizar a ideia de fazer ciência" no país. "Temos muita dificuldade com isso. A USP é o melhor exemplo de organização que existe há muitos anos com orçamento assegurado. O resto do Brasil vive em uma incerteza absoluta."

Ex-reitor da USP (1986-1990), Goldemberg lamentou que as universidades não tenham um teto para gastos com pessoal. "Autonomia orçamentária é para adultos. Aposto que as federais não querem esse regime."

Para os palestrantes, alcançar um patamar mais alto no nível da pesquisa brasileira exige maior reconhecimento dessa atividade pela sociedade. Davidovich citou um amigo que o provocou dizendo que, se os cientistas não conseguem convencer a sociedade de que inovação é importante, deveriam sair do país. "Eu disse a ele: em outros países, os economistas ajudam nesse convencimento."

"A maior parte não percebe o papel estruturante da ciência e tecnologia na construção do país", prosseguiu. "Na economia do desenvolvimento, elas têm um papel fundamental, e isso não está consolidado como concepção no Brasil."

Respondendo a uma pergunta da plateia sobre a cobertura de ciência pela imprensa, Cerqueira Leite disse que os jornais dão pouca importância à área, mas é também porque o público não pede. "É uma questão de educação, vai demorar. E nós cientistas temos a obrigação de atrair o interesse do público para essa área."