Pesquisadores da USP reproduzem vírus da Covid-2019 em laboratório

Rodrigo de Souza

RIO — O Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) conseguiu isolar e reproduzir em laboratório o coronavírus SARS-CoV-2, o vírus causador da Covid-2019, que já infectou nove pessoas no Brasil. Os pesquisadores obtiveram as amostras dos dois primeiros brasileiros diagnosticados com a doença, pacientes do Hospital Albert Einstein, na Zona Sul de São Paulo.

Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S. Paulo (Fapesp), as amostras serão distribuídas para grupos de pesquisa e laboratórios públicos e privados em todo o país. O objetivo é ampliar a capacidade diagnóstica da rede de saúde brasileira, e também avançar nos estudos sobre o novo coronavírus no Brasil.

Amostras do SARS-CoV-2 têm servido como critério de controle positivo em laboratórios ao redor do mundo. Como o novo coronavírus surgiu no exterior, o Brasil até agora teve de importar as amostras da Europa e dos Estados Unidos, onde cada ampola custava entre R$ 12 e R$ 14 mil.

Pelo alto custo das amostras, os diagnósticos de Covid-2019 vinham sendo realizado em laboratórios privados. Com o cultivo de uma nova amostra realizado pela USP, laboratórios públicos podem ter uma participação mais atuante na rede nacional de combate à epidemia.

— Os vírus que conseguimos cultivar em laboratório poderão ser usados em um kit para diagnóstico que o Ministério da Saúde distribuirá para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) em todo o país. Com isso, todos os estados estarão aptos a realizar o diagnóstico — disse Edilson Luiz Durigon, professor do ICB-USP e coordenador do projeto, à Agência Fapesp.

O Ministério da Saúde estima que em 20 dias todos os estados terão acesso aos kits. Por enquanto, só quatro laboratórios públicos de referência podem fazer o diagnóstico: o Instituto Adolfo Lutz (São Paulo), o Instituto Evandro Chagas (Pará), a Fiocruz (Rio) e o Laboratório Central de Goiás, que recebeu capacitação para diagnosticar especialmente os brasileiros repatriados da China.

Segundo a Fapesp, que apoia o projeto, os vírus serão transportados inativados, ou seja, sem a capacidade de infectar células, e em temperatura ambiente. Durigon pontuou que os vírus importados hoje pelos laboratórios brasileiros devem ser deslocados sob refrigeração em gelo seco, o que encarece muito o frete. Com o feito dos pesquisadores da USP, o traslado das amostras deve ficar mais barato.

Cada alíquota a ser enviada para os laboratórios terá cerca de 1 ml de vírus inativado. No laboratório de destino, o ácido nucleico da amostra será extraído e usado como controle positivo em um método de exame conhecido como RT-PCR (na sigla em inglês, reação da cadeia da polimerase em tempo real).

De acordo com a Fapesp, "essa técnica permite amplificar o genoma do vírus em uma amostra clínica, aumentando em milhões o número de cópias do RNA do coronavírus. Dessa forma, é possível detectá-lo e quantificá-lo em uma amostra clínica".

Segundo Durigon, o RT-PCR permite fazer o diagnóstico em até quatro horas.

— Mas são poucos os laboratórios no país que têm o equipamento disponível — ponderou o pesquisador.

Para resolver esse problema, os pesquisadores do instituto estão desenvolvendo testes baseados em técnicas mais acessíveis, como a análise por imunofluorescência, que identifica antígenos em uma amostra pela ação de corantes fluorescentes.

Caso a equipe consiga validar em laboratório um teste do tipo, outras clínicas e hospitais que não têm estrutura para fazer o diagnóstico por RT-PCTR também poderão fazer exames, avalia Durigon.