Pesquisadores em busca de vacinas brasileiras contra Covid-19 alertam para a falta de financiamento federal

Giuliana de Toledo e Suzana Correa*
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SÃO PAULO - A ButanVac, candidata a vacina contra a Covid-19 pesquisada pelo Instituto Butantan e um consórcio internacional, é uma exceção na trajetória dos estudos brasileiros de imunizantes para conter a pandemia. Enquanto ela aguarda o aval da Anvisa para começar os testes em humanos e, a princípio, não enfrenta dificuldade de financiamento (os valores não são revelados pelo Butantan, ligado ao governo de São Paulo), outros projetos do país dependem de recursos federais que sequer sabem se existirão.

O caso mais emblemático é o da Versamune, pesquisada pela USP de Ribeirão Preto e a startup Farmacore, com recursos privados e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Seu pedido para estudos clínicos junto à Anvisa foi protocolado em 25 de março, horas antes do da ButanVac, no dia 26. A candidata acabou ganhando uma coletiva de imprensa feita às pressas pelo ministro Marcos Pontes após o evento do Butantan com o governo de São Paulo.

Desde o final de março, no entanto, os recursos para os estudos em humanos minguaram para a Versamune. Uma emenda no Orçamento que garantiria R$ 200 milhões para isso foi vetada por Bolsonaro na última semana, um dia após o presidente receber Pontes e propagandear o projeto do imunizante em sua live semanal. A Farmacore não comenta o veto nem explica como o projeto seguirá diante desse corte. Em nota, a empresa afirma que continua se preparando para as fases 1 e 2 dos testes em voluntários, que aguardam aprovação da Anvisa para início. Procurado, o ministério não respondeu como manterá o financiamento.

Os R$ 200 milhões são uma espécie de “número mágico” também para dois outros projetos promissores de vacina no país: o da UFMG com a Fiocruz Minas, liderado pelo imunologista Ricardo Gazzinelli, e o da USP em parceria com Unicamp e Unifesp, sob o comando do imunologista Jorge Kalil. Ambos encontraram resultados animadores até agora nos testes com animais e calcularam que precisariam desse valor do governo federal para avançar para os estudos com humanos nos próximos meses. A relação de parceria entre a gestão de Marcos Pontes e esses pesquisadores se dá por meio da Rede Vírus, uma linha de apoio a ideias para combater a pandemia, criada em 2020 pela pasta.

O corte nos recursos da Versamune deixou pesquisadores de vacinas contra a Covid-19 no país em alerta. Preocupados com o investimento federal incerto, eles recorrem a outras fontes de financiamento. Na quinta, o projeto da UFMG com a Fiocruz Minas recebeu R$ 30 milhões da Prefeitura de Belo Horizonte para realizar os primeiros testes em humanos. Em nota, a instituição registrou alívio pelo suporte municipal e afirmou que, sem ele, a pesquisa poderia ser paralisada.

— O setor privado é cauteloso com riscos. No mundo todo estes estudos contaram com investimentos do governo. Aqui, o governo deveria atuar mais nessa questão — diz Gazzinelli.

Kalil, que espera começar os estudos em humanos no segundo semestre, diz já ter conversado até com o próprio presidente sobre a importância dos recursos.

— É uma preocupação. Eu cheguei a falar com o presidente Bolsonaro a respeito. Quem me financiou o tempo todo foi a Rede Vírus, e o Ministério da Ciência e Tecnologia está fazendo um esforço grande para conseguir esse dinheiro. Ele tinha conseguido R$ 200 milhões para Ribeirão Preto, e o presidente chegou e vetou. Isso não é um bom sinal, mas a gente está sempre lutando — diz Kalil, que com equipes das três universidades paulistas projeta uma vacina em formato de spray nasal.

Segundo o Ministério da Saúde, o país tem hoje ao menos 17 vacinas contra a Covid-19 em estudo. O GLOBO procurou todos os grupos responsáveis. ButanVac e Versamune são as únicas que já solicitaram à Anvisa autorização para testes em humanos. A maioria dos projetos, portanto, está na fase de estudos em animais. Se bem-sucedidas, as propostas poderão chegar à fase em humanos nos próximos meses. Todos manifestam preocupação com a falta de recursos para dar esse passo, o mais caro e longo, uma vez que deve envolver milhares de voluntários.

Apesar de vacinas como a CoronaVac, a da Astrazeneca e, mais recentemente, a da Pfizer já estarem disponíveis no Brasil, os cientistas ressaltam a importância da produção nacional. Uma vacina brasileira representa menos custos de importação e compra, além de maior adaptabilidade a variantes locais e disponibilidade de doses, o que pode ser estratégico caso a proteção contra a Covid, assim como a contra a gripe, tenha que acontecer anualmente.

— Precisamos ter o conhecimento para sair do laboratório e chegar na fase clínica. Depois temos o obstáculo de chegar na produção. E vamos precisar de apoio do setor privado para criar indústrias, pois só Butantan e Biomanguinhos não vão dar conta — conclui Emanuel Maltempi, professor de bioquímica que coordena pesquisa de uma nova candidata contra a Covid na UFPR.

O projeto recebeu na última semana um aporte de R$ 700 mil do governo do Paraná mas, para as fases com humanos, necessitará de no mínimo R$ 30 milhões, ainda sem previsão.