Pesquisas eleitorais, como saber em quais posso confiar?

A reportagem do Yahoo! Notícias entrevistou especialistas para entender como identificar pesquisas eleitorais confiáveis. Na imagem, aparece uma urna eletrônica, que foi exibida para técnicos enviados pelo Ministério da Defesa à sede do TSE, em Brasília, em 3 de agosto de 2022 (Foto: Getty Images / Ton Molina/)
A reportagem do Yahoo! Notícias entrevistou especialistas para entender como identificar pesquisas eleitorais confiáveis. Na imagem, aparece uma urna eletrônica, que foi exibida para técnicos enviados pelo Ministério da Defesa à sede do TSE, em Brasília, em 3 de agosto de 2022 (Foto: Getty Images / Ton Molina/)
  • Desde 1º de janeiro, mais de 300 pesquisas eleitorais de abrangência nacional já foram registradas no site do TSE

  • Com diferentes metodologias, muitas apresentam resultados, mas divergências costumam aparecer e se tornam assunto de discussão nas redes sociais

  • Por isso, a reportagem do Yahoo! Notícias foi atrás dos aspectos mais relevantes das metodologias das pesquisa e selecionou alguns institutos consolidados, nos quais você pode confiar

Desde 1º de janeiro deste ano até esta sexta-feira (12), ao menos 371 pesquisas eleitorais de abrangência nacional foram inseridas no sistema de registro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Em meio a essa diversidade de levantamentos, muitos eleitores não sabem em quais resultados acreditar.

No primeiro dia do ano passou a ser obrigatório o registro junto à Justiça Eleitoral de qualquer pesquisa pública relacionada às eleições. Porém, se uma pesquisa está registrada não necessariamente significa que ela será confiável, isso porque não há nenhum tipo de fiscalização prévia sobre a metodologia desses levantamentos.

Atualmente, a confiabilidade das pesquisas é garantida no Brasil por meio da transparência. Nome do contratante, valor cobrado pela pesquisa, origem dos recursos investidos, metodologia, período de realização, sistema de fiscalização da coleta de dados e questionário aplicado são algumas das informações que devem ser cadastradas junto à Justiça Eleitoral, tornando as pesquisas passíveis de contestação, caso qualquer irregularidade seja encontrada posteriormente.

Para identificar os atributos que mais merecem atenção nas pesquisas eleitorais, a reportagem do Yahoo! Notícias conversou com alguns especialistas no assunto e separou uma lista com os pontos mais importantes, confira.

Tamanho e seleção da amostra

A quantidade de pessoas entrevistadas influencia diretamente na margem de erro das pesquisas, já que quanto mais pessoas, menor costuma ser essa margem.

O Doutor em Estatística pela USP (Universidade de São Paulo) e criador do site PollingData, Neale El-Dash, afirmou que são comuns amostras que englobam entre 1.500 e 2.000 pessoas. Esse número, para José Paulo Martins Junior, cientista político e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), tende a ser "mais do que suficiente", desde que a amostra seja bem distribuída.

El-Dash destacou que mais importante que o tamanho é o modo de seleção dessa amostra, isso porque ela deve representar o eleitorado.

Para isso, há duas formas de selecionar os entrevistados, por meio de sorteios – amostras probabilísticas – ou da seleção de grupos que, de fato, retratem a população apta a votar – amostra por cotas. El-Dash e Martins Junior concordam que as amostras probabilísticas são melhores, mas nem sempre são possíveis, já que o custo pode tornar o método menos viável.

Mas Martins Junior destacou que "resultados indicam que não há exatamente grande diferença entre uma amostra aleatória e uma amostra não aleatória".

Conforme ele lembrou, há ainda institutos que costumam combinar os métodos, realizando sorteios em etapas, primeiro sorteando as cidades e bairros, por exemplo, e utilizando cotas para a seleção dos entrevistados, o que na sua visão atinge o objetivo de representar o eleitorado.

Aplicação das entrevistas

Para avaliar o melhor tipo de entrevista, El-Dash se baseou em dados de um estudo da Ipsos em parceria com o PoolingData. De acordo com os resultados, pesquisas presenciais e telefônicas apresentam taxas de erro semelhantes e costumam ser mais confiáveis do que as pesquisas online.

Por isso, o Doutor em Estatística afirmou que não necessariamente as pesquisas presenciais são melhores, já que os dois tipos, tanto as presenciais quanto as telefônicas podem conter diferentes tipos de falhas.

De acordo com ele, cada tipo pode apresentar problemas na cobertura que fazem com que a pesquisa deixe de atingir determinados segmentos da população. O problema das pesquisas telefônicas consiste na falta de linhas de telefone em determinados domicílios. Já nas presenciais, ao acesso a condomínios de luxo, edifícios com porteiros e até mesmo favelas controladas pelo crime organizado impõe barreiras à coleta de dados.

Na pesquisa realizada com a Ipsos, El-Dash identificou que pesquisas presenciais costumam ser melhores no Norte e no Centro-Oeste, enquanto no Sul e Sudeste as telefônicas apresentam mais vantagem. Já no Nordeste, parece haver um empate, o que na média faz com que no Brasil tanto pesquisas presenciais quanto telefônicas apresentem uma margem de erro semelhante.

Além do modo de aplicação das perguntas, os dois especialistas consultados chamaram a atenção para a importância do conteúdo do questionário, já que ele deve "procurar minimizar o viés", segundo Martins Junior. Em uma publicação no PoolingData, El-Dash explicou que "tanto o enunciado das perguntas, quanto a ordem delas, pode ser relevante. Por exemplo, em pesquisas eleitorais, usualmente as perguntas de intenção de voto estão localizadas no início do questionário, para que não sejam influenciadas pelas outras perguntas".

Histórico dos institutos e taxa de acerto

Neale opinou que apesar de o grau de acerto ser importante, ele não é um fator decisivo na hora de avaliar se um instituto de pesquisa é ou não confiável.

Isso porque, conforme ele explicou, esse índico é influenciado por "questões que estão sob controle dos institutos [...] o tamanho da amostra, metodologia, se é telefônico ou presencial, o desenho da amostra, o treinamento dos entrevistadores, verificação, ponderação, essas coisas são de responsabilidade do instituto. Mas várias outras coisas afetam também a performance das pesquisas que não são responsabilidades do instituto".

Um exemplo de fator que foge ao controle do instituto é a desistência de candidatos. Nesse sentido, o doutor em estatística alerta que é preciso ter cuidado ao julgar a performance dos institutos, já que as pesquisas são "apenas uma constatação do mundo onde a gente vive, do cenário atual".

Além disso, os especialistas destacaram fatores que também são bastante relevantes para o grau de sucesso de um instituto, como o treinamento dos pesquisadores, a coleta e o armazenamento dos dados, a verificação e a ponderação dos resultados. Essa última pode funcionar como um meio de correção de possíveis distorções na representação da amostra.

Afinal, em quais pesquisas posso confiar?

Com base nas explicações dos especialistas consultados, o Yahoo! Notícias selecionou alguns institutos que têm experiência no mercado das pesquisas eleitorais e que apresentam metodologias sérias nos pontos destacados como mais importantes pelos pesquisadores.

Há diversos institutos que realizam pesquisas no Brasil, por isso a lista reúne apenas alguns dos institutos consolidados que atuam nesse ramo:

  • Datafolha: atua desde 1983, em pesquisas nacionais costuma realizar, pelo menos, 2.500 entrevistas de maneira presencial. Suas pesquisas tendem a apresentar índice de confiabilidade de 95%.

  • FSB Pesquisa: surgiu em 2008, ouve cerca de 2.000 pessoas, principalmente por telefone. Apresenta pesquisas com grau de confiança de 95%.

  • Ipec: fundado em janeiro de 2021 pelos antigos diretores do Ibope, entrevista cerca de 2.000 pessoas presencialmente. A confiabilidade de suas pesquisas é de 95%.

  • Ipespe: atua desde 1986, tende a ouvir cerca de 2.000 pessoas por telefone em pesquisas de abrangência nacional. Suas pesquisas costumam ter um índice de confiança de 95%.

  • MDA: fundado em 1988, realiza pesquisas com aproximadamente 2.000 pessoas de modo presencial. Suas pesquisas, geralmente, apresentam confiabilidade de 95%.

Como destacado pelos especialistas, cada metodologia utilizada pelos diferentes institutos costuma ter benefícios e desvantagens que acabam impactando os resultados.

Martins Junior pede cautela ao analisar as pesquisas: "É sempre olhar, não com desconfiança, mas sempre lançar um olhar crítico para essas pesquisas. Entender que elas são um retrato do momento. Então aquilo que a gente tem hoje não necessariamente vai ser o que vai acontecer na eleição daqui um mês e meio, as coisas variam e podem variar".

El-Dash em um artigo em seu site, sugere que sejam consultadas diferentes pesquisas antes de tomar qualquer conclusão:

"Não baseie sua opinião apenas em uma pesquisa, que usa uma única metodologia, que é executada por um único instituto de pesquisa, e é realizada em um único momento do tempo. A melhor forma de conhecer qual é, de fato, a opinião pública, é mensurá-la com metodologias diferentes, em momentos diferentes".

Por isso, agregadores de pesquisas, que reúnem e fazem uma média dos resultados de diferentes pesquisas costumam ser boas opções na hora de consultar esses números.

Alguns exemplos de agregadores podem ser encontrados nos seguintes sites:

Veja como foram as últimas pesquisas eleitorais de 2022:

Em outra reportagem, o Yahoo! Notícias explicou sobre as principais dúvidas em torno das pesquisas eleitorais.