Pesquisas ficam longe de vitória histórica de conservadores no Reino Unido

BRUNO BENEVIDES
*ARQUIVO* LONDRES, REINO UNIDO, 24.07.2019: Boris Johnson, discursa na Downing Street após assumir o cargo de premiê do Reino Unido, substituindo sua correligionária Theresa May, em Londres. (Foto: Romena Fogliati/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dia após o Partido Conservador conquistar uma das maiores vitórias eleitorais da história recente britânica, uma questão pairou sobre o país nesta sexta (13): por que as pesquisas de véspera mostravam um crescimento da oposição trabalhista se quando as urnas abriram o resultado foi o contrário?  

Segundo um dos autores de um dos principais levantamentos do país, a resposta provavelmente é o apoio abaixo do esperado à sigla de direita radical Partido do Brexit, o que acabou ajudando a agremiação do premiê Boris Johnson.  

A eleição de quinta (12) terminou com uma vantagem acachapante da sigla do primeiro-ministro, que conquistou 365 cadeiras no Parlamento, contra apenas 203 dos trabalhistas -a Casa tem no total 650 cadeiras (o restante ficou com siglas menores ou regionais).

Um levantamento divulgado pelo instituto YouGov na terça (10), porém, pintava um cenário diferente: 339 cadeiras para os conservadores e 231 para os trabalhistas. Ele foi feito a partir de 105.612 entrevistas de 4 a 10 de dezembro. 

Na margem de erro, Boris ficaria com algo entre 311 e 367 representantes e, portanto, existia uma possibilidade considerável de ficar abaixo dos 326 deputados necessários para conquistar a maioria. 

O que mais chamou a atenção foi o fato de que no fim de novembro, o próprio instituto tinha publicado um levantamento que mostrava uma larga vantagem para os conservadores -359 cadeiras contra 211 dos trabalhistas. 

O Reino Unido usa um sistema distrital, o que significa que o país é dividido em 650 distritos eleitorais e o candidato mais votado em cada um deles ganha a vaga. Isso significa que o número total de votos que cada sigla ganha no país não obrigatoriamente se reflete no número de cadeiras. 

Por isso, a maioria das pesquisas no país mostra apenas a intenção de voto geral, sem apontar quantos deputados cada partido terá. A principal exceção é o YouGov, que faz essa previsão. 

Desde 2017, quando foi o único capaz de prever que a votação daquele ano terminaria sem que um partido uma maioria, o instituto se consolidou com um dos principais do país, a ponto de seu levantamento ganhar o apelido de "pesquisas das pesquisas". Por isso, os números errados chamaram tanto a atenção.

Institutos menores que também fazem este tipo de previsão também estimaram números semelhantes e que ficaram longe do resultado final. 

Professor do  University College London e um dos responsáveis pela pesquisa do YouGov, Benjamin Lauderdale usou as redes sociais para explicar o que aconteceu. 

O principal problema, de acordo com ele, foi que o levantamento previu que que o Partido do Brexit ganharia 2,9% dos votos em todo o país, mas a sigla acabou com cerca de 2%.

Para Lauderdale, esses eleitores acabaram migrando seu voto para os candidatos conservadores.

Essa mudança gerou uma grande variação no número de cadeiras porque aconteceu principalmente em distritos nos quais os candidatos conservadores e trabalhistas estavam próximos, o que gerou a diferença entre a pesquisa e o resultado das urnas. 

Lauderdale afirmou ainda que as hipóteses para isto ter acontecido ainda estão sendo estudadas, mas que há duas alternativas principais. A primeira é que pesquisa foi feita com muita antecedência em relação a eleição e não conseguiu captar essa mudança do voto do Partido do Brexit para os conservadores.

A segunda é que o grupo de pessoas entrevistadas não representava corretamente o perfil dos eleitores de alguns distritos. 

Segundo Alessandro Janoni, diretor de pesquisa do Datafolha, esse tipo de levantamento é muito difícil de ser feito porque o Reino Unido usa um modelo distrital e o voto é facultativo. 

Assim, na hora de fazer a pesquisa é preciso primeiro ter em cada um dos 650 distritos uma base específica apenas com o perfil dos eleitores que provavelmente votarão naquele local para que se tenha um mínimo de controle da amostra. 

O problema é que se essa amostra tiver algum problema, como a influência de fatores locais na véspera da eleição -o que inclui desde mudanças no clima que afetem o comparecimento até mobilizações de última hora- ela pode comprometer todo o resultado. Para Janoni, provavelmente foi isso que aconteceu.