Pessoas cegas podem ter pensamentos e atitudes racistas?

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Duas maos se cumprimentam, uma branca e outra negra; uma esta em cima do dorso da outra
Foto: Getty Images

Geralmente, o preconceito e a discriminação racial são motivados pela cor da pele ou por outras características físicas. Por isso, existe uma suposição de que as pessoas cegas estão blindadas de ter pensamentos ou comportamentos racistas, o que simplesmente não é verdade.

Eu convivo com os conceitos de raça e etnia desde quando eu era criança. Passamos nossa infância e a vida adulta escutando frases e comportamentos racistas. Somos bombardeados por conteúdos midiáticos que reforçam estereótipos sobre cor da pele, raça e etnia.

Apesar de toda formação intelectual que eu tenho, preciso constantemente refletir sobre esse assunto, mesmo sendo uma pessoa cega de nascença. Faz parte da minha profissão e do meu ativismo desconstruir estereótipos para termos um mundo mais inclusivo.

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A capacidade de ver a cor da pele de alguém com os olhos é só um dos atributos que podem desencadear um preconceito ou discriminação racial. O professor de direito Osagie Obasogie entrevistou 110 pessoas cegas e descobriu que a noção de raça está tão presente na vida delas como no cotidiano de pessoas que enxergam. O resultado foi publicado no livro intitulado “Blinded by Sight”.

Mesmo sem enxergar, elas entendem a compreensão visual de raça e, inclusive, se baseiam nela para escolhas diárias, experiências e interações como onde morar e com quem namorar.

O professor traz um exemplo interessante: um rapaz começou a sair com uma mulher, mas quando alguém lhe contou que ela era era negra, interrompeu subitamente o relacionamento. A justificativa: segundo ele, não teria funcionado, no Sul dos Estados Unidos, um homem branco se envolver com uma mulher negra.

Um sinal claro de que o racismo é muito mais uma construção social do que biológica. Apesar de algumas pessoas cegas identificarem traços físicos, como voz e textura do cabelo, elas também absorvem o contexto social, político, econômico e cultural, fatores importantes e que moldam o conceito que temos hoje sobre raça e etnia.

Eu vou além: talvez, nós, pessoas cegas, precisemos ter um cuidado ainda maior com os estereótipos inconscientes para não sermos racistas. Sem a visão, o que nos resta são percepções sociais. E elas podem nos induzir a erros imperceptíveis à primeira vista.

Mas, infelizmente, esse ainda é um assunto pouco investigado por sociólogos e especialistas. Espero que surjam mais pesquisas sobre o assunto. Essas revelações são cruciais para pensar políticas públicas e as nossas relações sociais.

Descrição da imagem: Duas mãos se cumprimentam; uma está em cima do dorso da outra. À esquerda, a mão de uma pessoa negra e, à direita, a mão de uma pessoa branca. Os polegares estão entrelaçados, enquanto os outros dedos estão unidos.

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