Pessoas com deficiência fazem carreata por prioridade na vacinação contra a Covid-19 no Rio

Josy Fischberg
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Grupos que lutam pelos direitos das pessoas com deficiência sairão em uma carreata neste sábado, dia 17 de abril, para reivindicar prioridade na vacinação contra a Covid-19. A manifestação está marcada para as 9h, saindo do Leme em direção a Copacabana. São 22 organizações que pedem que a vacinação de pessoas com deficiência, que deverá começar no próximo dia 26 de abril na cidade do Rio, não seja escalonada por idade.

Segundo a Secretaria municipal da Pessoa com Deficiência, a vacinação das pessoas com deficiência e comorbidades começará pelo público de 59 anos a 45 anos. Até o fim de maio, todos estes deverão estar imunizados. Com a chegada de novas doses, os grupos de 45 a 35 anos ou de todas as idades poderão receber a primeira dose em junho.

— A vulnerabilidade da pessoa com deficiência não está relacionada com a idade. Um dos principais métodos que temos para evitar o contágio é o uso da máscara e quase todas as pessoas com deficiência acabam sendo impactadas por isso - afirma Ciça Melo, cofundadora do movimento Paratodos, um dos organizadores da carreata.

Segundo Ciça, uma pessoa com deficiência intelectual pode não compreender que precisa usar a máscara e sua segurança fica comprometida. Aqueles que têm questões motoras muitas vezes não conseguem retirar a máscara quando precisam, por isso também evitam o uso. Pessoas com autismo não conseguem ficar com a máscara no rosto pela questão sensorial. As pessoas cegas ou com baixa visão precisam usar o tato quase sempre e também ficam expostas.

Sem acesso a terapias e tratamentos

O isolamento social, do qual só é possível sair em segurança com a vacina, também é uma questão abordada pelos que vão protestar neste sábado. Cristiano Silveira, presidente da Associação de Fibrose Cística do Rio de Janeiro, uma das associações integrantes da Aliança Rara Rio (Arar), explica que pessoas com deficiência adoecem e morrem longe de suas terapias e tratamentos, o que tem acontecido durante a pandemia. A vacina é a única forma de mudar essa realidade.

— Precisamos dar prioridade às pessoas com deficiência por essa questão da fragilidade de sua saúde. Além disso, muitas vezes a expectativa de vida é menor para determinados grupos de pessoas com deficiência. Por que escalonar por idade nesse caso?

A prioridade dada a outros grupos no calendário de vacinação e que não estava prevista também gerou surpresa:

— O fato de passarem as forças de segurança na frente causou comoção entre nós. Pensamos: quando chegará a nossa vez? Sabemos que desse jeito ficaremos para trás em uma fila que já não anda na velocidade adequada. Não haverá novas doses de vacinas só porque criou-se um decreto priorizando as forças de segurança. Ficaremos sem vacina dessa forma.

Lei Brasileira de Inclusão

Cecilia Villeroy Monteiro, uma das organizadoras do Juntos, um grupo de mães com filhos com deficiência, lembra a Lei Brasileira de Inclusão, ao falar dos motivos que os levaram a organizar a carreata.

— Está na lei: em situações de emergência, as pessoas mais vulneráveis devem ser prioridade para o Estado. E não é o que está acontecendo para as pessoas com deficiência nesse caso. É claro que queremos que todos tomem vacina, mas queremos também que os direitos das pessoas com deficiência sejam respeitados. Queremos também que os postos de vacinação sejam acessíveis, com rampas e com profissionais habilitados a atender necessidades específicas.

O movimento, segundo ela, não se resume ao Rio de Janeiro: grupos de Brasília, Recife, entre outras cidades, também estão fazendo reivindicações.

A secretária municipal da Pessoa com Deficiência, Helena Werneck, explicou que centros municipais de referência serão usados como postos de vacinação para pessoas com deficiência. A secretaria desenvolveu o projeto Vacinação Acessível para que todos tenham acesso às informações sobre a imunização. O material de comunicação estará ao alcance das pessoas com deficiência em formato acessível, como Libras, legenda, narração, linguagem simples e QRcode. Estarão disponíveis nos sites e redes sociais da secretaria e da prefeitura as principais informações para uma vacinação eficiente.

Procurada, a Secretaria municipal de Saúde do Rio informou por nota que as vacinas estão chegando aos poucos ao município e, pelo cronograma de entregas do Ministério da Saúde, não haverá ainda doses para todos a curto prazo. Diante disso, foi preciso elencar prioridades dentro dos grupos contemplados pelo Programa Nacional de Imunizações, visando sempre atender primeiro aqueles que, estatisticamente, apresentam mais complicações diante da infecção pelo coronavírus. Segundo a secretaria, o critério de idade, como mostram os dados epidemiológicos, é o mais indicado para essa priorização. Eles ainda aguardam o avanço do cronograma de entregas de vacinas pelo Ministério da Saúde e também trabalham com a possibilidade de compra direta de vacinas, após aprovação da Anvisa, para assim poderem atender outros grupos prioritários no menor prazo possível.