'As pessoas devem se acostumar com a ideia de que a origem da Covid-19 pode jamais ser identificada', diz pesquisador

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RIO — O Brasil vai na contramão do mundo na prevenção de pandemias, afirma o único brasileiro no grupo criado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para investigar a origem da Covid-19, o especialista em doenças tropicais Carlos Medicis Morel. Passados quase dois anos desde os primeiros casos conhecidos de infecção pelo coronavírus Sars-CoV-2, continuamos sem saber quando, como e onde exatamente o coronavírus emergiu e seu espalhou. E pode ser que nunca descubramos, adverte Morel, coordenador-geral do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Mas o novo Comitê Científico sobre as Origens de Novos Patógenos (SAGO, na sigla em inglês) tem ambições além do Sars-CoV-2. Ele foi criado para identificar e prevenir o espalhamento de novos vírus com potencial de pandemia. Uma missão do tamanho do planeta e movida pela ciência. Mas o Brasil, cujo governo fez o maior corte do orçamento da ciência da História e que sofre com a destruição da Amazônia, caminha no sentido contrário, adverte Morel. Vai de encontro às doenças e para longe da prevenção.

Vamos descobrir a origem do coronavírus Sars-CoV-2?

Existe uma chance, mas não vai ser fácil. As pessoas devem se acostumar com a ideia de que ela pode jamais ser identificada.

Por quê?

Porque muitas das informações necessárias podem ter se perdido. O cenário em que o Sars-CoV-2 emergiu e se espalhou pode já não existir. Identificar quando e como uma pandemia começa é algo de extrema complexidade. Um exemplo é a Aids. De início, se pensava que o HIV havia emergido na década de 80 do século XX. Mas anos depois se encontrou uma amostra de sangue de 1959 infectada pelo HIV. Novas análises revelaram uma origem ainda mais remota.

Que tipo de trabalho o grupo fará?

O caminho normal será buscar vírus próximos ao Sars-CoV-2 por sequenciamento genético e então investigar seu reservatório. Precisamos também das análises de soros de pacientes dos primeiros momentos da pandemia. É uma forma de procurar reconstituir a evolução do vírus. São estudos minuciosos, mas as análises científicas não são as únicas dificuldades.

Quais são as outras?

A pressão política e a tensão entre China e EUA prejudicaram muito o trabalho de investigação.

O novo comitê tem mais chance de sucesso do que a equipe anterior da OMS?

Diria que sim porque tem maior representatividade e neutralidade. O primeiro tinha dez pessoas, todas grandes especialistas. Porém, quase todas americanas e europeias. Isso gerou desconforto nos chineses (principalmente, após o governo americano levantar a hipótese de que a pandemia foi causada por um coronavírus que escapou de um laboratório chinês). Havia a suspeita de conflito de interesses. O novo grupo tem 26 especialistas de 26 países, com ampla distribuição geográfica, há asiáticos, africanos e latino-americanos. É um painel amplo de especialidades, com integrantes escolhidos para afastar a sombra do conflito de interesses. E isso é muito importante para que se avance.

Por quê?

A OMS não pode entrar num país sem que seja convidada. Então, é importante estabelecer uma relação de colaboração com a China e buscar um consenso. O novo comitê pode ter menos dificuldade de lidar com a China.

A OMS anunciou que a missão do comitê será também identificar e encontrar formas de prevenir novas pandemias e o que chama de Doença X, a próxima peste. Que lugares são zonas quentes para uma nova pandemia?

A OMS adotou uma estratégia mais ampla do que apenas investigar a origem da Covid-19, o que já seria muito. A ideia é proteger o futuro. E a Amazônia é uma das regiões mais importantes. Ela tem uma biodiversidade imensa, mas é atacada por desmatamento, garimpeiros, grileiros. É exatamente o tipo de ameaça que traz vírus novos do interior da mata para as cidades. O (virologista) Pedro Vasconcelos, que trabalha na Amazônia a vida toda, já descobriu centenas de vírus. E no Brasil não é só a Amazônia a preocupação.

O que mais?

O Brasil é privilegiado por ter áreas naturais, como florestas, junto a cidades. Mas isso tem um preço, é preciso cuidar do ambiente. Temos, por exemplo, um dos vírus mais letais do mundo, o sabiá. Ele é ainda muito misterioso e a última vez que emergiu, em São Paulo, foi pouco antes da pandemia. E, claro, há zonas quentes em outras partes do mundo.

Quais?

A própria China e países asiáticos, como o Camboja. A África tem sido a origem de muitas doenças, como Aids, chicungunha e febre do zika. A Austrália tem o vírus hendra. A natureza não precisa do ser humano para produzir vírus e outros micro-organismos com potencial pandêmico. Precisamos aprender a evitar os riscos.

Que tipo de estudo farão?

Mapeamento de espécies é um. Sequenciamento genético, outro. O comitê prestará particular atenção no controle dos laboratórios de segurança. Manipular vírus é muito perigoso e mesmo que o coronavírus não tenha escapado de um laboratório, a pandemia serve de alerta de que as pesquisas são fundamentais, mas segurança é imprescindível. Vamos também propor medidas de prevenção.

Que tipo de medidas?

Há coisas que são óbvias, embora não sejam cumpridas: não desmatar, não caçar, não degradar o ambiente. Mercados de animais vivos devem ser banidos, e isso vale para a China e para o Brasil, vale para o mundo todo. E há pesquisas que, a meu ver, devem ser proibidas, são as de ganho de função, em que vírus são modificados para se tornarem mais agressivos ou transmissíveis. Isso é feito em laboratórios militares nos EUA e em outros países.

Quão necessário é um laboratório de segurança máxima, de nível 4?

Para países como o Brasil é fundamental. O governo federal está construindo um no estado de São Paulo. Porém, até em prol da segurança, deveria ser na Amazônia, onde está a maior diversidade de novos patógenos. Mas o Brasil tem outros problemas graves.

Quais?

O Brasil vai na contramão do mundo na prevenção de pandemias. Ela é feita com ciência e o governo federal realizou sucessivos cortes orçamentários, o mais recente deles, brutal, de 90%. Isso vai paralisar as pesquisas, é a destruição de um patrimônio construído em muitos anos. Os jovens cientistas estão indo embora, expulsos pela falta de orçamento. O Brasil não vai se prevenir de vírus sem ciência. O corte no orçamento federal colocou em risco a segurança da saúde dos brasileiros em plena pandemia de Covid-19, a população precisa ter uma clara noção disso. No Rio de Janeiro só não paramos totalmente devido ao financiamento da Faperj. Sou da Fiocruz e a fundação captou também muitas doações durante a pandemia. Mas a ciência brasileira está sendo destruída.

Que preço pagaremos?

A capacidade de defesa do Brasil contra doenças novas e velhas foi atacada e enfraquecida. É com ciência que se combate vírus.

Com que vírus a OMS está mais preocupada?

Há muitos. Temos os culpados de sempre, os causadores de febres hemorrágicas (ebola, marburg, lassa). Uma das possibilidades que mais tememos é um ebola com asas, isto é, que adquira a capacidade de se transmitir pelo ar (o ebola é transmitido pelo contato com fluidos corporais, como sangue). Há também, claro, os coronavírus, os influenza (gripe). E isso é o que conhecemos. Mas é preciso temer o desconhecido. Não conhecemos a maior parte dos vírus e micro-organismos da Terra. O surgimento da Covid-19 tira quaisquer dúvidas de que o perigo existe, o recado está dado.

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