As pessoas estão esquecendo do meu irmão', diz parente de congolês, lembrando um ano da morte de Moïse

Há exatamente um ano, a sequência de socos, chutes e pauladas desferidas por três homens contra o congolês Moïse Kabagambe Mugenyi, de 25 anos, também desencadearam uma onda de indignação internacional pelo assassinato de um refugiado africano. A cena do brutal homicídio de Moïse foi filmada pelas câmeras de segurança de um quiosque e de um condomínio, na Avenida Lúcio Costa, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Até hoje a mãe da vítima, a comerciante Lotsove Lolo Lavy Ivone, passa mal só de lembrar das imagens. Apesar de os três acusados estarem presos, a família pede que a Justiça seja mais ágil na condenação dos réus.

— As pessoas estão esquecendo do meu irmão. Queremos Justiça! Minha mãe sofre muito! Ela nem consegue ficar no quiosque (depois da morte de Moïse, a família ganhou um quiosque em Madureira para vender comidas típicas do Congo). Tudo lembra o Moïse — conta o irmão da vítima, Djojo Baraka.

Além das imagens apreendidas pela Polícia Civil, testemunhas contaram detalhes sobre a dinâmica do crime. A motivação para o crime, de acordo com as investigações, foi o fato de Moïse ter cobrado dois dias de pagamento atrasado do patrão. Seu corpo foi achado amarrado a uma escada. Os réus são: Fábio Pirineus da Silva, o Belo; Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, o Dezenove; e Brendon Alexander Luz da Silva, o Tota. Os três estão presos na Penitenciária Joaquim Ferreira de Souza, no Complexo de Gericinó, em Bangu.

No fim do ano passado, os advogados de Aleson e Fábio renunciaram ao caso. O juiz Guilherme Schilling, do 1º Tribunal do Júri da Capital, determinou que ambos procurem novos patronos ou sejam atendidos pela Defensoria Pública do Rio.

A família marcou uma homenagem para nesta terça-feira (24/01), às 13h, em frente ao quiosque Tropicália, onde ele foi agredido até a morte, no Posto 8, na Praia da Barra da Tijuca. A família pede para que sejam levadas flores e velas. Também será rezada uma missa de um ano da morte de Moïse, às 11 horas, no Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor. Será celebrado ainda o Dia do Refugiado Africano e o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo.

— Os refugiados chegam ao país não apenas esperando uma vida melhor, mas também, muitas vezes, fugindo da fome e da guerra em seus países de origem. É nosso dever garantir que possam se estabelecer e ter condição de trabalho digna para que a integração aconteça com plenitude — ressaltou a coordenadora de Migração e Refúgio e secretária executiva do Comitê Estadual Intersetorial de Políticas de Atenção aos Refugiados e Migrantes (CEIPARM), Eliane Almeida.

O vigário episcopal para a Caridade Social, monsenhor Manoel Managão, falou sobre a importância de lembrar a memória de Moïse:

— Será um momento de esperança para a família e de nossa solidariedade fraterna nesse momento em que se recorda a sua dor.

A família do congolês ganhou da prefeitura a concessão de um quiosque, em Madureira, para tentar superar a dor com trabalho. No entanto, apesar de ser grata por manter o sustento da família, a mãe da vítima, a comerciante Lotsove Lolo Lavy Ivone diz que tudo lembra o filho.

— Muita gente passa no quiosque para nos abraçar, nos consolar pela covardia que se passou com Moïse. Eles vão lá dar força para gente, mas eu me sinto feliz e triste ao mesmo tempo, porque tudo lembra ele — conta Lotsove.

Lotsove Lolo buscou refúgio no Brasil para escapar da guerra civil e de violações de direitos humanos de seu país de origem, a República Democrática do Congo. Moïse chegou ao Brasil em 2011, fugindo dos conflitos de lá. Ele tinha 14 anos quando veio para o Rio. Para tristeza dela, o filho acabou sendo vítima de um crime estúpido, no qual buscava valer seus direitos trabalhistas.