Inchaço, dor e soluços? Conheça as pessoas incapazes de arrotar

Imagem: sdominick/Getty Images

Amanda Holpuch - The Guardian


Você consegue arrotar? Não estamos falando de arrotar voluntariamente, mas você já arrotou em 2019?

Embora o arroto seja caracterizado como uma função corporal do dia a dia, para muitas pessoas este é um alívio desconhecido.

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Para elas, uma refeição farta demais ou uma bebida gaseificada desencadeiam uma série de desconfortos gástricos: inchaço, dor no esôfago, e gases em excesso. Além disso, ainda é preciso lidar com aquele som estranho, semelhante ao coaxar dos sapos, que parece vir da garganta, conhecido como soluço.

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Não há um termo médico para se referir a pessoas que não conseguem arrotar, e há pouquíssimos estudos científicos sobre isso. No entanto, depois de anos sendo ignorados pela comunidade médica, os que sofrem deste problema decidiram agir.

Em março, Robert Bastian, otorrinolaringologista do Bastian Voice Institute, publicou o primeiro artigo científico a reconhecer a incapacidade de arrotar como uma condição de saúde, defendendo o uso do Botox para tratar estes pacientes. Ao longo dos últimos quatro anos, seu consultório ficou cheio de pessoas que descobriram, em pesquisas online, que ele havia sido bem-sucedido ao ajudar uma pessoa a arrotar, e queriam fazer o mesmo procedimento.

O primeiro paciente, um homem de Dallas, Estados Unidos, entrou em contato com Bastian em 2015 na busca desesperada por ajuda, após encontrar seu site sobre doenças e lesões na laringe. Bastian está acostumado a lidar com transtornos dos esfíncteres – os anéis musculares que abrem e fecham no esôfago – e teve uma ideia de tratamento: uma injeção de Botox. “Eu estava simplesmente usando o raciocínio dedutivo com base no que ele me disse, porque nunca tinha enfrentado uma situação como aquela antes,” disse Bastian.

O homem respondeu que queria viajar imediatamente até o consultório de Bastian nos subúrbios de Chicago para fazer o tratamento. Bastian disse ao paciente que a viagem não seria necessária, pois muitos médicos tinham licença para aplicar as injeções em todo o país, mas o homem fez questão de viajar até ele.

O paciente conseguiu arrotar imediatamente, e falou sobre a sua experiência no r/noburp, uma comunidade no Reddit, sem o conhecimento de Bastian. Desde então, mais de 170 pessoas procuraram o médico para receber a injeção.

Para muitos que não conseguem arrotar, a comunidade r/noburp é um lugar onde encontram consolo e esperança. Lá, algumas pessoas sugerem exercícios vocais (como aqueles feitos pelos cantores) para aprender a arrotar, ou oferecem dicas de remédios que fornecem algum alívio. Os usuários trocam histórias de médicos que não os levam a sério, e de tratamentos de médicos que tentam ajudá-los. Publicações como “Eu passei as férias arrotando! Mas agora não consigo mais” ou “Como eu aprendi a arrotar”, incluem mudanças temporárias que parecem ajudar.

A engenheira canadense de 26 anos @i-like-tea, que sofre deste distúrbio, conta que as pessoas descobrem a comunidade numa busca online procurando uma explicação para seus soluços depois que tomam refrigerante, ou o inchaço que dura o dia inteiro após uma refeição.

@i-like-tea, que escolheu usar seu nome de usuário no Reddit para não ser identificada na vida real, sempre soube que não conseguia arrotar. No começo dos seus 20 anos, quando ela começou a sair e consumir bebidas alcoólicas, ela percebeu que esta incapacidade poderia estar conectada à dor e ao inchaço que interrompiam as noites de festa. Ela tinhas soluços e sentia que seu estômago era como um balão amarrado por um nó.

O problema causava um incômodo significativo, por isso ela consultou um médico, que lhe disse que aquele era um problema que só ela tinha. Foi então que ela encontrou o r/noburp.

“Foi maravilhoso saber que eu não sou a única pessoa que lida com este problema, que há curas ou formas de lidar com ele para torná-lo menos desconfortável, e simplesmente poder contar com esta comunidade de pessoas que eu não sabia que existia,” disse ela.

É maravilhoso poder contar com esta comunidade de pessoas que eu não sabia que existia.

@i-like-tea

Conforme o número de acessos ao fórum aumentava, no ano passado, @i-like-tea decidiu conduzir uma abrangente pesquisa incorporando tópicos e questões levantados no grupo. Ela conseguiu reunir um total de 789 entrevistados.

Entre os participantes, 88% relataram sentir inchaço, 87,5% sofrem com soluços, e 80% enfrentam uma flatulência excessiva. Os demais sintomas só se aplicavam a 54% do grupo ou menos. Apenas 19,9% dos entrevistados, por exemplo, afirmaram ter tido uma “tosse-arroto”.

O grupo também foi questionado sobre o que desencadeava seus sintomas, e quais métodos já haviam usado para aliviar o desconforto e a dor, incluindo a sugestão de “vomitar ar” em um banheiro e de fazer refeições menores e mais frequentes.

@i-like-tea, por exemplo, consegue arrotar uma vez a cada dois meses, uma melhoria em relação ao seu padrão normal de dois arrotos por ano. Ela está fazendo isso sendo mais consciente e atenta nos momentos em que surge o soluço.

Ela também foi contatada por um médico que viu a sua pesquisa enquanto tentava descobrir por que um de seus pacientes não conseguia arrotar. Ele espera usar esta pesquisa para alimentar seu próprio estudo. “É promissor que a comunidade tenha conseguido obter reconhecimento por uma condição com a qual ninguém se importava muito”, disse ela.

@i-like-tea também fez um alerta destacando que o autodiagnóstico pode ser perigoso, por isso ela reluta em passar muito tempo online buscando informações sobre a incapacidade de arrotar. Ao mesmo tempo, ela ficou surpresa ao descobrir quão significativamente este problema estava afetando a vida dos participantes da pesquisa.

“Eu acho que muitas pessoas fazem o autodiagnóstico e depois lidam com o problema de maneira imprudente,” disse ela. “Mas também, tive muitas respostas durante a pesquisa de pessoas dizendo que não arrotar estava arruinando as suas vidas”.

O Dr. Bastian disse que tratou pacientes que fizeram alterações extremas em suas vidas por causa desta condição – uma mulher, por exemplo, almoçava no trabalho e saía do escritório para se deitar no carro por causa da dor que sentia. Um estudante universitário com quem ele conversou contou que não comia nas primeiras seis horas do dia porque não queria ter soluços durante as aulas.

O artigo de Bastian focou nas primeiras 51 pessoas que fizeram o tratamento com a injeção de Botox, já que mais de seis meses haviam se passado desde a aplicação quando ele estava preparando o material. Os pacientes vieram de 20 estados e três países diferentes. Todas as 51 pessoas conseguiram arrotar após a injeção, embora 11 delas tenham perdido esta capacidade entre oito e vinte semanas após o tratamento. Quatro delas voltaram para fazer uma nova aplicação.

Atualmente, há quatro outros médicos nos quais r/noburp confia para fazer o procedimento no Reino Unido, no Canadá e nos Estados Unidos, mas Bastian espera que, com o tempo, este número aumente.

Desde aquele primeiro paciente, ele recebe uma enorme quantidade de mensagens de pessoas que não conseguem arrotar.

O artigo publicado em março é uma versão formal de um e-mail que ele enviou aos incapazes de arrotar buscando mais informações. Ele decidiu publicá-lo em uma revista científica de acesso aberto para que não restrito a usuários que pagam para acessar os sites de pesquisa. Como ele está ocupado tratando pacientes com outros distúrbios, Bastian espera que, ao divulgar este trabalho inicial, outros médicos possam oferecer o tratamento ou fazer mais pesquisas sobre por que algumas pessoas não conseguem arrotar.

Bastian vê a sua experiência com as pessoas que não arrotem como um lembrete para a comunidade médica de que relatos individuais podem ser uma base poderosa para o desenvolvimento científico. Ele enfatizou diversas vezes que incentiva a pessoas a usarem as informações encontradas online em conjunto com seu médico, mas defendeu que a Internet pode ajudar as pessoas a se tornarem pacientes mais bem informados.

Ele disse: “A Internet é algo ruim quando falamos de diagnósticos e tratamentos, mas ela pode servir como um alerta e dar às pessoas um conceito, expandir a sua consciência, ou ajudar a formular perguntas para fazer ao médico, e isso é muito positivo”.