'As pessoas podem cuidar de si mesmas e fazer algo pela sua saúde mental', diz fenômeno do Tik Tok

Na tela, a Dra. Julie Smith, de jeans e camiseta, chacoalha uma cerveja: “Sabe quando parece que a vida faz isso com você? Um monte de coisa acontece ao mesmo tempo, você fica muito mexido e sente que mais uma e explodirá?” Ela abre a garrafa, o líquido permanece intacto. “Nada. Você manteve tudo guardado aí dentro e, por fora, ninguém imagina com o que você está lidando. Às vezes ficamos tão bons em esconder as coisas que enganamos até a nós mesmos dizendo que está tudo bem.” Até que o inesperado acontece: alguém bate uma outra garrafa naquela que ela segura e a bebida explode para fora. “Tudo vem à tona e você se sente totalmente fora de controle. Não espere até esse momento para pedir ajuda e fazer algo a respeito”, finaliza, enquanto a cerveja continua jorrando.

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O vídeo de 43 segundos teve mais de 750 mil visualizações e recebeu quase 700 comentários de pessoas discutindo saúde mental. Esse é apenas um exemplo do trabalho da psicóloga inglesa nas redes sociais, em especial no Tik Tok, onde acumula mais de 4 milhões de seguidores.

Desde 2019 criando conteúdo na rede, Smith usa os vídeos curtos de forma educacional. Para aprofundar temas como ansiedade, depressão, autoestima, solidão e relacionamentos escreveu o livro “Por que ninguém me disse isso antes?”, que acaba de ser lançado no Brasil pela editora Sextante. Na entrevista a seguir, a psicóloga fala sobre o trabalho na plataforma, os desafios atuais para o bem-estar e garante que todo mundo pode desenvolver ferramentas para cuidar da própria saúde mental.

Que tipos de coisas as pessoas não ouviram antes?

Muita gente não imagina como uma parte da terapia é educacional, aprender ferramentas como a própria mente funciona, como você pode impactar seu humor e sua saúde mental no dia a dia. E uma vez que as pessoas têm essa informação elas se sentem tão empoderadas, porque podem cuidar de si mesmas e fazer algo pela sua saúde mental e não depender tanto do terapeuta. Então me diziam “por que ninguém me disse isso antes? Não é uma ciência dificílima, é simples, mas quando boto em prática a sério, faz uma grande diferença”. E eu pensei: isso deveria estar mais disponível, terapia é uma coisa, mas não há motivo para que as pessoas não tenham mais educação nesse sentido. É claro que não dá para detalhar muito nos vídeos porque são 60 segundos, então o livro foi onde decidir aprofundar.

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Qual a proposta dos vídeos?

Os vídeos compartilham informações, ideias, habilidades que a pessoa pode usar, como técnicas de respiração para se acalmar em um ataque de pânico, ou como impedir que a ansiedade evolua para pânico, coisas simples que você consegue ensinar em segundos, e ficam disponíveis para que as pessoas usem, pratiquem e experimentem. Outros vídeos são mais para plantar uma semente, introduzir uma ideia, repensar algo sobre si mesmo ou desafiar certos hábitos que podem estar fazendo mal. Nunca sabemos o verdadeiro impacto que cada vídeo tem em alguém, mas a o motivo pelo qual continuamos é por conta dos constantes feedbacks, emails, comentários. A noção de que atingimos pessoas de verdade e estamos fazendo uma pequena diferença, vale o esforço.

Por estar numa rede social, você foca mais nos jovens?

Minha audiência no Tik Tok talvez seja mais de jovens, mas tem gente de todas as idades, tenho avós, pais, pessoas de todas as idades me procurando. Mais jovens que do Instagram, dos 20 aos 40, eu diria.

É interessante alcançar idosos, um público que ainda enfrenta certo tabu para discutir saúde mental, certo?

Ainda há muito estigma em buscar ajuda. Meu sonho é que um dia possa ser tão fácil dizer “eu não posso ir a tal compromisso porque tenho terapia” assim como diria que não pode porque tem uma consulta médica. Cuidar da saúde mental não deve ser mais vergonhoso do que cuidar da saúde física. Quanto mais as pessoas entenderem sobre saúde mental e tiverem menos medo de falar disso, também passam a ter menos medo de cobrar esses serviços e só assim os governos começam a ouvir. Os idosos têm problemas similares aos de outros, de relacionamento, dificuldades com a família, com mudanças, cansaço, depressão. As pessoas mais velhas também entram em contato para ajudar a cuidar de parentes mais jovens.

E como se ajuda uma pessoa que está sofrendo?

Pensamos que temos que conseguir resolver aquela dor das pessoas da família ou daquelas que amamos, mas frequentemente não podemos. Mas podemos, sim, dar apoio de formas que subestimamos. Frequentemente você quer ajudar e tira todas as responsabilidades das mãos da pessoa, mesmo quando elas estão fazendo bem. Por exemplo, alguém com depressão ainda cozinha para si mesmo todo dia. Mas você pensa que seria melhor que ela tivesse uma folga, então tira essa tarefa prática dela. E isso pode se tornar ainda mais debilitante, porque é difícil conseguir retomar. Eu encorajo ações que promovam a recuperação: sair para caminhar todo dia, facilitar novos contatos sociais, aproximar de outros membros da família. Coisas como apoio social, exercício, comer bem, dormir, rotina, sol e ar fresco, tudo contribui intensamente, mas a gente subestima e pensa que não está fazendo um bom trabalho porque tudo que consegue fazer é passar lá e levar a pessoa para uma caminhada — mas isso pode fazer uma enorme diferença.

Às vezes é difícil penetrar no mundo da pessoa.

Se você está tentando fazer uma pessoa se abrir e não consegue, pode ajudar usar ferramentas que um terapeuta usa, como perguntas abertas, que não se respondem com sim ou não: “Como você está? O que está pensando? O que está sentindo? O que te deixa melhor ou pior? O que mudou em relação à antes?” Elas dão a chance de a pessoa falar e se aprofundar. E, nesse processo, ao revelar as coisas para você, as coisas se revelam também para ela. O caminho natural é dar conselho do tipo “você deveria estar fazendo isso”, mas as pessoas são mais propensas a seguir conselhos quando os pedem. Então, eu diria: segure os conselhos e foque apenas na curiosidade, em compreender e validar.

Quais os maiores desafios que os jovens estão enfrentando?

O atual grande problema da nossa sociedade é a desconexão dos membros das famílias, que passam menos tempo falando uns com os outros, olhando no olho e se conectando da forma como seres humanos foram feitos para se conectar, em vez de olhar para telas e dispositivos. Depois fica mais difícil se reconectar quando vemos as pessoas sofrendo, porque as relações já estavam prejudicadas. Acontece o mesmo do outro lado: quando os jovens não têm limites para o tempo de tela, a vida real tem dificuldade em competir com esse mundo que sempre traz recompensas e quanto mais você faz, mais você quer fazer. Eu não gosto de culpar os pais porque fazem seu melhor, mas vivemos numa cultura que vai quase contra a vida em família. Todos têm que trabalhar muito. Pais e mães são separados de seus filhos por razões econômicas, os dispositivos nos afastam de ter relações reais, todas essas coisas contribuem e fica cada vez mais difícil para os pais proverem as necessidades psicológicas de uma criança ou adolescente.

Se pudesse nos passar uma mensagem de 60 segundos, qual seria?

Muita gente se preocupa se atende aos critérios para uma doença ou distúrbio para poder validar o próprio sofrimento. Sou totalmente contra isso. Se você está sofrendo de alguma forma e acredita que sua saúde mental pode melhorar com alguma ajuda, então procure por essa ajuda, independentemente se com amigos, família, um profissional ou qualquer coisa disponível. Mesmo com suporte educacional como lendo livros, vendo vídeos, entendendo como sua mente trabalha. Não espere até que as coisas estejam muito piores para, enfim, se permitir tentar melhorá-las. A saúde mental tem um espectro como a saúde física, então você pode trabalhar nela a qualquer momento e obter melhora, construindo resiliência, por exemplo. Existem simples habilidades que podem ser úteis, você não precisa ficar à mercê da dor.