Pessoas que já tiveram dengue têm duas vezes mais chance de desenvolver Covid-19 com sintomas

·3 minuto de leitura
Casos de dengue em SP crescem cinco vezes em relação a 2018
Um estudo sugere que as pessoas que já tiveram dengue são duas vezes mais propensas a desenvolver sintomas da Covid-19 caso infectadas pelo coronavírus (Foto: Agência Brasil)
  • Um estudo sugere que as pessoas que já tiveram dengue são duas vezes mais propensas a desenvolver sintomas da Covid-19 caso infectadas pelo coronavírus

  • As conclusões descritas no artigo se baseiam na análise de amostras sanguíneas de 1.285 moradores do município de Mâncio Lima, no Acre

  • Foram incluídas nas análises amostras de sangue coletadas em dois momentos: novembro de 2019 e novembro de 2020

Um estudo sugere que as pessoas que já tiveram dengue são duas vezes mais propensas a desenvolver sintomas da Covid-19 caso infectadas pelo coronavírus. A pesquisa foi divulgada, nesta quinta-feira (6), na revista Clinical Infectious Diseases.

“Nossos resultados evidenciam que as populações mais expostas à dengue, talvez por fatores sociodemográficos, são justamente as que correm mais risco de adoecer caso sejam infectadas pelo Sars-CoV-2", disse o professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USPMarcelo Urbano Ferreira, coordenado do estudo, à Agência Fapesp.

Leia também

As conclusões descritas no artigo se baseiam na análise de amostras sanguíneas de 1.285 moradores do município de Mâncio Lima, no Acre. O trabalho teve apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

Para os pesquisadores, os resultados são exemplos do que tem sido chamado de sindemia — a interação sinérgica entre duas doenças de modo que uma agrava os efeitos da outra.

"Por um lado, a Covid-19 tem atrapalhado os esforços de controle da dengue, por outro, esta arbovirose parece aumentar o risco para quem contrai o novo coronavírus”, disse Ferreira.

Foram incluídas nas análises amostras de sangue coletadas em dois momentos: novembro de 2019 e novembro de 2020. O material foi submetido a testes capazes de detectar anticorpos contra os quatro sorotipos da dengue e também contra o coronavírus.

O que mostram os resultados

Os resultados mostraram que 37% da população avaliada já havia contraído dengue até novembro de 2019 e 35% haviam sido infectados pelo novo coronavírus até novembro de 2020. Também foram analisadas as informações clínicas (sintomas e desfecho) dos voluntários diagnosticados com a Covid-19.

“Por meio de análises estatísticas, concluímos que a infecção prévia pelo vírus da dengue não altera o risco de um indivíduo ser contaminado pelo Sars-CoV-2. Por outro lado, ficou claro que quem teve dengue no passado apresentou mais chance de ter sintomas uma vez infectado pelo novo coronavírus”, explicou Vanessa Nicolete, pós-doutoranda no ICB-USP e primeira autora do artigo, à agência. 

People wait in line outside a community medical center to get a shot of the Pfizer vaccine for COVID-19 in Sao Paulo, Brazil, Thursday, May 6, 2021. (AP Photo/Andre Penner)
Foram incluídas nas análises amostras de sangue coletadas em dois momentos: novembro de 2019 e novembro de 2020. O material foi submetido a testes capazes de detectar anticorpos contra os quatro sorotipos da dengue e também contra o coronavírus (Foto: AP Photo/Andre Penner)

Pesquisadores não sabem precisar as causas 

Os pesquisadores não sabem precisar as causas do fenômeno descrito no artigo. É possível que exista uma base biológica —os anticorpos contra o vírus da dengue estariam favorecendo de algum modo o agravamento da Covid-19— ou seja simplesmente uma questão sociodemográfica, relacionada com a existência de populações mais vulneráveis às duas doenças por características diversas.

“Os resultados evidenciam a importância de reforçar tanto as medidas de distanciamento social voltadas a conter a disseminação do Sars-CoV-2 como os esforços para controle do vetor da dengue, pois há duas epidemias ocorrendo ao mesmo tempo e afetando a mesma população vulnerável. Isso deveria ganhar mais atenção por parte do governo federal”, avalia Ferreira.

O artigo pode ser lido em https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciab410/6270997.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos