Pessoas que tiveram Covid-19 devem tomar só uma dose de vacina, dizem estudos

e Apoorva Mandavilli, do NYT
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NOVA YORK — Quase 30 milhões de pessoas nos Estados Unidos foram infectadas com o coronavírus até agora. Essas pessoas ainda devem ser vacinadas? Dois novos estudos respondem que sim, mas sugerem que, para essas pessoas, apenas uma dose da vacina seria suficiente para turbinar seus anticorpos e destruir o coronavírus — até mesmo das variantes mais infecciosas.

Os resultados desses novos estudos são consistentes com os achados de outros dois publicados nas últimas semanas.

“Acho que é uma explicação forte sobre por que as pessoas que foram previamente infectadas pela Covid deveriam receber a vacina”, disse Jennifer Gommerman, imunologista da Universidade de Toronto que não estava envolvida na nova pesquisa.

A resposta imunológica de uma pessoa a uma infecção natural é altamente variável. A maioria das pessoas produz grandes quantidades de anticorpos que persistem por muitos meses. Mas algumas pessoas com sintomas leves ou nenhum sintoma de Covid-19 produzem poucos anticorpos, que caem rapidamente para níveis indetectáveis.

O último estudo, que ainda não foi publicado em um jornal científico, analisou amostras de sangue de pessoas que tiveram Covid-19. As descobertas sugeriram que seus sistemas imunológicos teriam problemas para se defender do B.1.351, a variante do coronavírus identificada pela primeira vez na África do Sul.

Mas uma injeção da vacina Pfizer-BioNTech ou Moderna mudou significativamente o quadro: ela amplificou a quantidade de anticorpos em seu sangue em mil vezes: "um impulso enorme", disse Andrew T. McGuire, imunologista do Fred Hutchinson Cancer Research Center em Seattle, que liderou o estudo.

Repletos de anticorpos, as amostras de todos os participantes puderam neutralizar não apenas B.1.351, mas também o coronavírus que causou a epidemia de SARS em 2003.

Na verdade, os anticorpos pareciam ter um desempenho melhor do que aqueles em pessoas que não tiveram Covid e receberam duas doses de vacina. Vários estudos sugeriram que as vacinas Pfizer-BioNTech e Moderna são cerca de cinco vezes menos eficazes contra a variante.

Os pesquisadores obtiveram amostras de sangue de 10 voluntários do Seattle Covid Cohort Study, que foram vacinados meses após contrair o coronavírus. Sete dos participantes receberam a vacina Pfizer-BioNTech e três receberam a vacina Moderna.

O sangue colhido cerca de duas a três semanas após a vacinação mostrou um salto significativo nas quantidades de anticorpos em comparação com as amostras coletadas antes da vacinação. Os pesquisadores ainda não sabem por quanto tempo o aumento da quantidade de anticorpos persistirá, mas "felizmente, eles durarão muito tempo", disse McGuire.

Os pesquisadores também observaram aumentos nas células imunológicas que lembram e lutam contra o vírus, disse o McGuire. “Parece muito claro que estamos aumentando sua imunidade pré-existente”, disse ele.

Em outro novo estudo, pesquisadores da Universidade de Nova York descobriram que uma segunda dose da vacina não trouxe muitos benefícios para as pessoas que tiveram Covid-19 — um fenômeno que também foi observado com vacinas para outros vírus.

Nesse estudo, a maioria das pessoas havia sido infectada com o coronavírus oito ou nove meses antes, mas viram seus anticorpos aumentarem de cem a mil vezes quando receberam a primeira dose de uma vacina. Após a segunda dose, no entanto, os níveis de anticorpos não aumentaram mais.

“É uma prova real da força da memória imunológica que eles recebem uma única dose e têm um grande aumento”, disse o Dr. Mark J. Mulligan, diretor do N.Y.U. Langone Vaccine Center e o autor principal do estudo.

Em algumas partes do mundo, incluindo os Estados Unidos, uma parte significativa da população já foi infectada, observou Mulligan. “Eles definitivamente deveriam ser vacinados”, disse ele.

Não está claro se o aumento de mil vezes nos níveis de anticorpos registrados no laboratório ocorrerá em ambientes da vida real. Ainda assim, a pesquisa mostra que uma única injeção é suficiente para aumentar significativamente os níveis de anticorpos, disse Florian Krammer, imunologista da Escola de Medicina Icahn no Monte Sinai, em Nova York.

Krammer liderou outro dos novos estudos, que mostrou que as pessoas que tomaram Covid-19 e receberam uma dose de vacina experimentaram efeitos colaterais mais graves da inoculação e tinham mais anticorpos em comparação com aquelas que não haviam sido infectadas antes.

“Se você colocar todos os quatro documentos juntos, isso fornecerá informações muito boas sobre as pessoas que já tiveram uma infecção e precisam apenas de uma vacina”, disse Krammer.

Ele e outros pesquisadores estão tentando persuadir os cientistas do CDC (Centers for Disease Control e Prevention) a recomendar apenas uma dose para aqueles que se recuperaram de Covid-19.

Idealmente, essas pessoas devem ser monitoradas após a primeira injeção, para o caso de seus níveis de anticorpos despencarem após algumas semanas ou meses, disse Dennis R. Burton, imunologista do Scripps Research Institute em La Jolla, Califórnia.

O fato de que os anticorpos observados no novo estudo podem combater o vírus SARS de 2003 sugere que uma única dose da vacina pode ter levado os corpos dos voluntários a produzir "anticorpos amplamente neutralizantes" — moléculas imunes capazes de atacar uma ampla gama de vírus, disse Burton.

Contra a escassez

Os pedidos de governos do mundo inteiro aos fabricantes de vacinas contra Covid-19 já somam 13 bilhões de doses, o suficiente para se chegar à imunidade de 70% da humanidade, número estimado para se retornar à almejada normalidade. O problema, no entanto, não está em encomendar, mas sim em produzir, distribuir e aplicar os imunizantes.

Diante dessa escassez mundial, cientistas discutem formas de otimizar o uso do produto. As propostas incluem não só o adiamento da segunda dose, mas também a reformulação de vacinas para aplicação única, o fracionamento de ampolas e até um regime de dose única para quem já foi infectado. Todas estes planos possuem prós e contras e o mesmo objetivo: fazer mais com menos.

Há pouco mais de uma semana, a Alta Autoridade de Saúde (Haute Autorité de Santé) da França recomendou que pessoas que já foram infectadas pelo coronavírus recebam apenas uma dose de vacina, abrindo um debate entre os cientistas sobre a possibilidade de, num cenário de oferta restrita de imunizantes, adotar a medida para economizar doses.

No Brasil, onde faltam imunizantes para dar sequência à campanha de vacinação, os cientistas olham com reserva a medida. Apesar de lembrar que quem teve Covid-19 chega a ter de 10 a 20 vezes mais anticorpos do que quem nunca foi infectado, a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, afirma que numa campanha de vacinação em massa, como a brasileira, é impossível criar muitas regras.

— A ideia é boa, mas é difícil de ser colocada em prática. Campanhas de vacinação têm de ser baseadas em fatos fáceis. Quanto menos regra tiver, melhor funciona — diz ela.