Por que, afinal, alguns optam por dormir nas ruas ao invés de ingressar nos abrigos?

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Foto: Fabio Teixeira/Anadolu Agency via Getty Images
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  • Parte da população em situação de rua no país rejeita abrigos oferecidos pelo poder público pelo alto grau de burocracia e falta de estrutura

  • Professor pede que demandas dessa parte da população sejam ouvidas e acolhidas por autoridades

  • Nesta semana, deputada causou polêmica ao criticar doações de alimentos a moradores em situação de rua no centro da capital paulista

A população em situação de rua no Brasil virou centro das manchetes nas últimas semanas por duas razões: a preocupação com a onda de frio histórica que atingiu o país e as críticas feitas pela deputada Janaína Paschoal (PSL-SP) a doações de comidas destinadas aos que vivem nessa condição no centro da capital paulista.

Diogo Jordão, professor da rede estadual do Rio de Janeiro e mestre em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), centrou seus esforços em tentar entender por quais razões algumas pessoas optam por dormir na rua e rejeitam os abrigos oferecidos pelo poder público.

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Segundo o docente, uma das questões centrais reside no fato de que os espaços oferecidos pela prefeitura restringem as liberdades individuais dos abrigados.

"Muitos deles citaram para mim a questão da liberdade. No abrigo, eles se sentem dentro de uma gaiola. Há restrições de horários para entrar e sair, o que acaba atrapalhando os que trabalham, por exemplo, como catadores de papelão, que precisam atuar depois do horário comercial", explica Jordão ao Yahoo!

O professor ressalta que é inevitável que existam regras nos abrigos, mas que as demandas das pessoas que vivem nas ruas deveriam ser ouvidas e, posteriormente, serem consideradas na definição das regras impostas pelo poder público nos locais de acolhimento.

"Quando você mora na rua, já não há muitas opções. Por isso eles valorizam uma mínima autonomia. As pessoas muitas vezes criticam essa postura, mas esquecem que ninguém gosta de ficar preso e ser impedido de fazer aquilo que quer na hora que quer", diz Jordão em referência aos horários fixados para tomar banho, realizar refeições, além das regras vigentes em alguns locais que fazem a divisão por gênero, dividindo os casais que vivem juntos nas ruas.

População é invisibilizada

Ao Yahoo!, o professor conta que decidiu tratar da questão em sua área de pesquisa depois que leu uma matéria sobre o tema e percebeu que a população em situação de rua precisa criar uma 'lógica de sobrevivência'.

"A sociedade não quer enxergar essas pessoas, mas elas estão ali, passamos por eles todos os dias. Essa população precisa buscar diariamente aquilo que garante diariamente a sobrevivência: alimentação, água, banho. O espaço urbano oferece esse tipo de coisa de forma diferente a eles. Eles desenvolvem uma sabedoria para sobreviver", explica o professor, que realizou sua pesquisa na cidade de Campos dos Goytacazes, no interior fluminense.

Ao ouvir os moradores, Jordão descobriu as especificidades que cada espaço urbano proporciona a essa população. Em Campos, segundo ele, as pessoas que vivem nas ruas usam os rios da cidade para tomar banho e buscam, em sua maioria, espaços como igrejas para a obtenção de água potável. No que se refere a alimentação, o professor destaca a atuação de ONGs que distribuem refeições no centro da cidade.

No período de frio, de acordo com os relatos coletados pelo professor, parte dessa população busca galpões para dormir ou se abrigam embaixo de pontes. Em São Paulo, durante uma onda de frio, houve registros de suspeita de mortes por hipotermia. No Rio de janeiro, em Itaguaí, o Yahoo! apurou desvios em doações de cobertores para pessoas em situação de extrema pobreza.

"Eles preferem ficar em grupo, por questão de segurança, até pelos perigos que a rua oferece. No momento de frio, contudo, muitos deles acabam aceitando ajuda do poder público". Jordão lembra que esses cidadãos estão "sempre sujeitos à violência" ao mesmo tempo que vivem nas cidades tentando "não incomodar muito" os pedestres e comerciantes da região.

Polêmica da Cracolândia

A chamada 'Cracolândia' é um problema que há anos vem sendo tratado pelo poder público, que não consegue dar solução definitiva ao impasse. Após ser criticado por doar comida aos moradores do local, o padre Julio Lancelotti viu o volume de doações aos habitantes da região aumentar.

O professor ressalta que temos de encarar a população em situação de rua como um fenômeno do nosso próprio sistema que está relacionado à pobreza extrema.

"Há muito preconceito porque essas pessoas são pobres, portanto, ela não teriam direito a escolher. Quer dizer que porque a pessoa é pobre e está nessa condição ela pode comer comida estragada e não pode rejeitar um abrigo cheio de pulgas? Ela tem o direito inclusive de escolher não ser tirada da rua", aponta Jordão.

"Nas ruas, eles começam a adquirir vícios até mesmo para sobreviver: beber e usar drogas servem como uma tentativa de fugir um pouco dessa realidade. No abrigo entra questão de abstinência e isso começa a prejudicar a pessoa também. A política voltada para essa questão prevê que abrigos devem ter psicólogos e assistentes sociais, mas isso não basta porque o tratamento para dependência é algo mais abrangente", pondera o docente.

Ele cobra mais abertura do poder público para ouvir e absorver as reais demandas dos que vivem nas ruas e pede o fim da burocracia em abrigos, para que os locais possam ser mais bem vistos por quem precisa deles.

"[Com tamanha burocracia], a pessoa não vai conseguir alcançar a tal autonomia cidadã dela. Rever as regras rígidas e as estruturas dos locais é essencial para que mudemos esse cenário. Tudo passa por ouvir de verdade essa população", finaliza.

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