Peter Siemsen defende as contas de 2016 e culpa Pedro Abad por crise financeira do Fluminense

Depois de impedir a votação que poderia reabrir as contas de 2016, o ex-presidente do Fluminense Peter Siemsen veio a público se manifestar. O advogado, que não é de se pronunciar publicamente com frequência desde que deixou o clube, listou aqueles que considera serem seus maiores feitos na presidência e fez uma análise da situação financeira do tricolor.

Por meio de uma liminar na Justiça, Siemsen conseguiu que a reunião do Conselho Deliberativo marcada para esta sexta fosse cancelada. Ele alegou não ter tido tempo hábil para preparar sua defesa e reunir documentos. Caso as contas de 2016 fossem reabertas e reprovadas, ele poderia ser responsabilizado pelos prejuízos causados ao clube.

Em uma longa postagem no Facebook, Siemsen constrói uma narrativa na qual a maioria dos problemas financeiros do clube são fruto da gestão de Pedro Abad (2017 a 2019). Ele culpa o sucessor, eleito com seu apoio, por não ter dado continuidade a seu plano de gestão. Ao apontar o dedo, lembra a demissão dos sete jogadores por WhatsApp, a exoneração de Pedro Antonio Ribeiro, que elaborava um plano de construção de um estádio próprio, e o abandono do projeto Samorin.

Ao falar de suas responsabilidades, no entanto, o ex-dirigente é bem mais suvinto. Diz apenas que deixou "algumas dívidas com agentes e clubes de futebol".

O balanço é referente ao último ano da gestão do ex-presidente, que esteve no comando do Fluminense de 2011 a 2016. A votação, em 2017, foi feita por contraste visual, e não por contagem dos votos de cada conselheiro. Os favoráveis foram convidados a levantar a mão. Ao constatar maioria, o presidente do Conselho encerrou o tema.

No ano seguinte, no entanto, as contas foram refeitas em razão de erros contábeis. Entre eles, a antecipação da receita de TV do Brasileiro de 2019 a 2024. Revisado, o superávit de R$ 8 milhões virou déficit de R$ 13 milhões.

Confira, abaixo, o pronunciamento de Siemsen:

PASSANDO A LIMPO MINHA GESTÃO

Na última segunda-feira, recebi notificação do presidente do Conselho Deliberativo do Fluminense, comunicando sobre a realização de reunião para mais uma vez tentar votar a reabertura das contas de 2016. A carta, por sinal, não indicava sequer a data e a hora da respectiva reunião. Muito menos a razão pela qual estaria sendo convocada. As contas de 2016 já foram objeto de aprovação em duas reuniões. Todas com pareceres favoráveis do conselho fiscal e de auditores independentes.

É o último ato praticado por um conselho deliberativo esvaziado, marcado para o fim do ano e numa sexta-feira, data incomum para este tipo de reunião. Tudo isso, apesar de três pareceres do conselho fiscal contrários à reabertura das contas de 2016, decisão judicial reconhecendo a regularidade da assembleia que aprovou as contas e o resultado do inquérito no Ministério Público, em que não restou apurada qualquer irregularidade, como descreve trecho da decisão proferida nesta quinta-feira (28/11/2019) pela magistrada titular da 22ª Vara Cível:

“Note-se que os documentos de fls. 101/107 comprovam que estas foram regularmente aprovadas pelo Conselho Fiscal e pelo Conselho Deliberativo, além de ter sido objeto de apuração através de inquérito civil, arquivado por ausência de provas de irregularidades. E, ainda, não está acompanhada do termo de convocação dos conselheiros, na forma do art. 30, do Estatuto do Clube, a fim de que tenha conhecimento o Autor de seu conteúdo. Ademais, eventual reexame das contas já aprovadas pode gerar, em tese, responsabilidade civil do Autor, o que configura perigo de dano. Presentes, pois, os requisitos legais.”

Depois de ter sido “dispensado” pela nova gestão nos primeiros dias do mandato, evitei, nos últimos anos, entrar em conflito político direto ou via imprensa para não prejudicar o clube, que já passava por maus momentos na tumultuada gestão dos meus sucessores. Todos sabem o que é um ex-presidente “cornetando” o dia a dia do clube.

É importante frisar que o meu sucessor direto, apesar do compromisso que assumiu de concluir o projeto iniciado em 2011, fez da sua gestão um ato de mera sucessão. Não houve continuidade. Lamentei muito, mas estava no direito de escolher seu próprio caminho.

Durante esse período, sofri vendo o Fluminense maltratado e a minha pessoa e gestão sendo atacadas como forma de mascarar a completa incapacidade do meu sucessor de gerir a instituição.

Mesmo diante de uma grande dificuldade em 2016, por conta da grave crise econômica brasileira e dos conflitos vividos entre o governo do estado e a concessionária do Maracanã, preparei o Fluminense para enfrentar momentos difíceis.

TRANSIÇÃO

Algumas dificuldades na transição de fato ocorreram, como o não pagamento da fornecedora de material esportivo e o término antecipado do contrato da Vitton. Além disso, deixei algumas dívidas com agentes e clubes de futebol.

Por outro lado, o clube teve uma considerável redução nas dívidas fiscais e trabalhistas ao longo da minha gestão. Paguei, por exemplo, cerca de 70 milhões de reais em dívidas trabalhistas. A dívida fiscal do Fluminense, quando assumi, era uma das duas maiores entres os clubes de todo o Brasil.

Recente matéria do O Globo mostra que a dívida fiscal do clube passa longe da antiga liderança e coloca o Fluminense entre os seis maiores em faturamento no futebol brasileiro (R$ 281 milhões) em 2018. A composição do faturamento foi basicamente decorrente da herança recebida da minha gestão (TV e negociações de atletas).

O sucessor ainda recebeu o clube com um centro de treinamento dos profissionais de última geração (área técnica do futebol, lavanderia e áreas dos funcionários prontas e um prédio aguardando o acabamento interno para instalação dos quartos de hospedagem, sala de imprensa, auditório, refeitório, etc.).

O centro de treinamento da base (Xerém) foi completamente remodelado, tornando-se um dos mais completos do Brasil. Na parte técnica, a filosofia desenvolvida e os canais de captação criados elevaram a formação de atletas do clube a um patamar de reconhecimento mundial, produzindo um volume extraordinário de jogadores com alto valor de mercado. A formação de atletas e os canais de captação são a base para o enfrentamento de crises e para o crescimento do clube, tanto pela utilização dos atletas no time profissional quanto pelos valores gerados pelas negociações.

RECEITAS

As receitas obtidas com os atletas formados e/ou captados na minha gestão chegaram próximas de R$ 200 milhões de reais durante o período do primeiro sucessor. Somadas às vendas do Pedro, que se deu já na atual gestão, e o complemento da venda do João Pedro, o valor chega a R$ 250 milhões no período de três anos. Somente com a receita gerada pelas negociações, o clube recebeu em média R$ 7 milhões de reais por mês, em 36 meses.

Em relação às receitas das cotas de TV, que muitas vezes foram objeto de questionamento pelo meu sucessor, quero esclarecer de uma vez por todas que deixei:

a) No primeiro ano (2017), 80% dos valores contratados, sem contar as variáveis por desempenho (Copa do Brasil e Sul-Americana), totalizando R$ 77 milhões;

Resumindo: i) nos dois primeiros anos de sucessão, o clube teve disponível o valor total de TV (sem contar Copa do Brasil e Sul-Americana) de R$ 181 milhões; ii) no período integral de sucessão (2 anos e 11 meses), o clube arrecadou em vendas de atletas formados e/ou captados pela minha gestão cerca de R$ 250 milhões.

Além dos valores mencionados acima, deixei possíveis receitas adicionais que foram perdidas pelo meu sucessor, como o pré-contrato de patrocínio master com a Caixa, no valor de cerca de R$ 12 milhões de reais, dispensado por considerarem abaixo do que pretendiam.

O atleta Gustavo Scarpa tinha relevante valor de mercado - aproximadamente R$ 25 milhões para o clube - e potenciais compradores. A nova diretoria, porém, optou por não negociá-lo, criando um clima ruim entre as partes. O desfecho foi o pior possível, com a perda do atleta na Justiça.

DISPENSA DE JOGADORES

Em mais uma decisão errada, meu sucessor, em vez de negociar as transferências para outros clubes, mesmo que pagando parte do salário (o que ajudaria a reduzir a folha), dispensou vários atletas com contrato em vigor, via WhatsApp, causando um grande transtorno para o elenco e para as finanças do clube.

DISPENSA DO PEDRO ANTONIO

A dispensa do PA foi mais um péssimo movimento que só prejudicou o Fluminense. O próprio caso do Scarpa jamais teria acontecido se Pedro Antonio estivesse na diretoria. Em várias ocasiões, na minha gestão, ele antecipou recursos, sem nenhum custo financeiro, para evitar que atletas com valor de mercado pusessem chegar aos três meses de encargos atrasados. Além disso, foi o principal responsável pela obra do CT dos profissionais, adiantando os recursos e gerenciando a construção. Para esclarecer de forma definitiva certos boatos sobre as antecipações do Pedro Antonio, ele jamais cobrou quaisquer juros ou correções do clube. A contribuição do PA é muito importante para o fortalecimento do clube.

ESTÁDIO

Pedro Antonio foi dispensado no momento em que tinha elaborado um plano para construção de um estádio para o Fluminense no Parque Olímpico (onde é realizado o Rock in Rio). Essa decisão equivocada acabou com o sonho de termos um moderno estádio em uma área de comprovado sucesso.

A construção de um moderno estádio seria fundamental para alavancar as adesões ao programa sócio-futebol e jogarmos sempre com casa cheia. O Maracanã poderia continuar a ser usado para jogos de muito apelo. O programa sócio-futebol chegou a 31 mil associados na minha gestão e hoje tem menos da metade.

MARACANÃ

Muito se falou em aditivo 4 e minha responsabilidade na perda das condições do contrato com o concessionário do Maracanã. Vou repassar os acontecimentos:

a) Fluminense firmou um contrato de 35 anos com o Maracanã, cujo principal benefício era a impossibilidade de ter prejuízos nos jogos;

Já com o clube sob nova gestão, começou um período de conflitos com o concessionário, que culminou com uma disputa judicial iniciada pelo Fluminense. O concessionário, nesta disputa, utilizou o aditivo 4, que nunca teve validade, como argumento para modificar o contrato principal que tinha com o Fluminense. E, pasmem, o clube não questionou que o aditivo citado nunca teve validade.

O Tribunal acabou concedendo temporariamente o direito de aplicar as regras de um aditivo que, além do tempo determinado de validade (dezembro de 2016), nunca teve valor, haja vista que o concessionário não estava de posse do estádio naquele período. Com isso, o clube passou a ter seguidos prejuízos jogando no Maracanã.

MELHORIAS

Durante a minha gestão, fizemos melhorias significativas para os sócios e para o torcedor. Reformamos criteriosamente o salão nobre e parte da sede, a piscina principal, os pisos das quadras (padrão olímpico), construímos o moderno museu interativo, novo estande de tiro, Bar dos Guerreiros, etc.

O resgate da riquíssima memória do clube, por meio do Flu-Memória, também é motivo de orgulho. A história do Fluminense pôde ser eternizada através dos livros lançados ao longo da minha gestão. Mais de uma dezena de publicações, que se tornaram realidade via financiamento coletivo. Iniciativa inédita entre os grandes clubes brasileiros.

Criada no meu segundo mandato, a Flu-Fest é um exemplo de confraternização que une todos os tricolores e abre as portas do clube aos torcedores de todo o país e do mundo. Demos um novo sentido à festa de aniversário do nosso querido Fluminense. O evento leva o torcedor para dentro do clube, ajuda a vender produtos licenciados, é enormemente explorado na mídia e valoriza atletas e ex-atletas.

UNIMED

Foi muito importante poder contar com a UNIMED investindo no time do Fluminense em boa parte da minha gestão. Porém, a saída inesperada em decisão unilateral da patrocinadora dificultou muito a conclusão de alguns objetivos. Eu contava com a parceria até o final da gestão, para me concentrar na construção de um estádio moderno e no desenvolvimento de uma legislação que fosse favorável à empresa de futebol.

SAMORIN

O projeto do Flu-Europa era fundamental por diversos aspectos e tinha um custo da remuneração de um atleta:

Algumas pessoas não entenderam que se tratava de um projeto de baixo custo, com maturação de longo prazo. Exigia que algumas etapas fossem vencidas.

A primeira foi classificar para a segunda divisão local (meta alcançada no primeiro ano, ainda na minha gestão). A segunda seria subir no ano seguinte para a primeira divisão, a partir da qual o clube já seria autossustentável.

Porém, depois de um planejamento ruim em 2017, o projeto foi abandonado. Um projeto que custaria muito menos do que o valor gasto na contratação do Robinho, por exemplo.

Hoje, com a nova legislação que favorece a criação da empresa de futebol, o Fluminense teria um valor de mercado muito superior e atrairia o interesse dos grandes investidores do mercado internacional de futebol.

LEGADO E PROJETO

Todo meu trabalho visava ao futuro do Fluminense. Prepará-lo para possíveis momentos difíceis e a transição para o futebol empresa. O investimento e o trabalho desenvolvidos na divisão de base foram para obter resultados a longo prazo e dar valor ao clube no mercado.

Para se ter ideia, a geração sub-16 atual ainda é fruto do trabalho realizado pelos canais de captação e a filosofia técnica adotada em minha gestão.

A construção do CT dos profissionais era uma demanda de muitos anos. Eu mesmo só pude usufruir no último mês da minha gestão. Os beneficiados foram os meus sucessores e as futuras diretorias.

Com erros e acertos, foram seis anos de total dedicação. Tenho muito orgulho do meu trabalho e a consciência limpa de que fiz o melhor que pude, apesar de todas as dificuldades: política interna negativa, grave crise econômica do país, um Maracanã objeto de conflito entre o poder público e o concessionário, a saída do parceiro que investia no time profissional e, no entanto, deixou subitamente e de forma inesperada a parceria (a Unimed enfrentava uma grave crise política e financeira), receber um clube muito endividado e sem nenhuma verba de TV para o meu primeiro ano de mandato e com a infra-estrutura totalmente prejudicada, especialmente em Xerém.

Além disso, conseguimos um título brasileiro e carioca em 2012 e uma Copa da Primeira Liga, em 2016.

Os pontos principais do meu projeto sempre foram para alavancar o Fluminense para o futuro. São eles, a democratização do clube, por meio do voto do torcedor, o fortalecimento e a modernização da formação de atletas, a construção de um CT para os profissionais, a construção de um estádio e, finalmente, a transformação das atividades de futebol do clube em empresa, com investidores que já controlem grandes times internacionais.

Diante do atual mercado do futebol brasileiro, para que o Fluminense possa voltar a ser protagonista nas competições nacionais e internacionais, só vejo dois possíveis caminhos: o surgimento de um novo parceiro como foi a UNIMED, ou a transformação das atividades de futebol em empresa com grandes investidores.