Petiscando à portuguesa: nova leva de tascas de inspiração lusitana invade o Rio e renova a tradição boêmia carioca

Carol Zappa
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Fabio Rossi / Agência O Globo

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Fabio Rossi / Agência O Globo

Azulejos azuis, sardinhas fritas, conservas e ares informais à mesa: se na última década o Rio viveu uma onda de bares de tapas espanhóis, agora é a vez de uma nova geração de endereços à portuguesa aportar na cidade. Como nossos botequins, as tascas são estabelecimentos modestos, com comida simples, petiscos e vinhos.

Essa é a ideia da Miúda, nova empreitada da turma por trás de outros negócios bem-sucedidos por aqui como os izakayas Pabu e Ko Ba, o italiano Prima Osteria & Bruschetteria, Maria & O Boi, de carnes, e o brasileiro Verso. Com mesinhas na calçada e teto coberto por vinhas artificiais, a decoração aconchegante tem ares antiguinhos, com móveis coloniais da fazenda dos avós de um dos sócios e balcão de acepipes. Da cozinha aparente saem belisquetes como a alheira (embutido de pão típico daquelas bandas) feita na casa, vinagrete de frutos do mar, sardinhas e pataniscas de bacalhau, além de pratos como arroz de pato, tudo servido nas tradicionais louças Monte Sião. As azeitonas, o queijo Serra da Estrela e a ginjinha, tradicional licor de cereja, vêm de lá mesmo. Para beber ainda tem vinho em taça, cerveja e portônicas. “Apesar de o nosso botequim ter origem portuguesa, já tinha se distanciado dos verdadeiros. O Rio ficou muito estigmatizado pela comida de boteco, tudo muito igual, só bolinho. E os portugueses daqui são restaurantes, com pratão de bacalhau. Queríamos algo mais autêntico e informal”, explica o chef e sócio Cristiano Lanna.

A Miúda foi aberta em outubro, em sintonia com a retomada do comércio. “Acho que os brasileiros estavam muito ligados a Portugal recentemente, tinha muita gente indo para lá. As pessoas que tiveram que parar de viajar de repente agora têm mais uma opção para passear pela gastronomia”, diz Lanna.

À frente do Grupo Irajá (com casas como Formidable, Cozinha Artagão e o quiosque praiano Azur), o chef Pedro de Artagão abriu em julho, logo após a retomada das atividades comerciais, o Boteco Rainha, em uma esquina da cada vez mais movimentada Dias Ferreira. A inspiração veio dos bares-restaurantes de imigrantes ibéricos que aportaram aqui no início do século, com referência clara à tradicional Cervejaria Ramiro, em Lisboa, especializada em frutos do mar. “A ideia é resgatar um novo apreço pelo tradicional. Mirei nos lugares à moda antiga, como Alvaro’s, Jobi, Shirley e o Bar da Portuguesa, casas que adoro frequentar, e acabei acertando na tasca, pois são indissociáveis”, brinca Artagão.

No Boteco Rainha, há escabeche de sardinhas, sanduíche de prego e muitos mariscos e crustáceos, preparados de diversas formas. O sucesso foi tamanho que o empresário arrematou o ponto vago na esquina para ampliar o salão, dobrando sua capacidade. E já planeja novos frutos. “Quero continuar explorando esse universo democrático, com a porta aberta para rua, onde você pode passar o dia beliscando e bebendo”, diz. Ele conta ainda que tinha receio de entrar nessa seara clássica e ser visto como um “intruso”: “Quando você começa como chef, quer fazer algo mais sofisticado, autoral. Mas, depois de 25 anos na cozinha e doze empreendendo, me sinto mais apto a me arriscar. Acho que me preparei a vida toda para isso”.

No novo Boxx, complexo gastrocultural em Botafogo, a Tasca É Giro tem pegada mais moderninha. Batizada com uma gíria tuga que significa legal, descolado, a descontraída casa de azulejos coloridos e luminárias de aros de bicicleta, aberta por uma semana antes de fechar as portas com a crise sanitária, é cria da Tasca Filho da Mãe, no Vogue Square.

Apesar do nome, a matriz na Barra é um restaurante, mas ganhou petiscos e ares mais informais com a chegada do chef consultor Ricardo Lapeyre, que assina também o cardápio da É Giro. Na tasquinha contemporânea, entram em cena croquetes de chouriço português e bolinho de bacalhau recheado com queijo Serra da Estrela, conservas como a de lula, polvo e feijão branco e versões de arroz, executadas pelo chef Rafael Cavalieri, tudo servido em charmosas canecas e louças de ágata. “A ideia é oferecer uma comida gostosa, acessível e plural, que permita passear também por outras cozinhas, com a espanhola e a francesa”, explica o sócio Marcelo Guedes. Para ele, esse movimento de novas tascas é uma questão cultural. “O carioca gosta de comer em pé, no balcão, remete à herança dos botequins portugueses, mas agora com uma proposta mais moderna, com um chef por trás”. A casa ganha em novembro uma filial no projeto Taste Lab, no Norte Shopping, e no ano que vem na Tijuca.

As conservas, azeitonas, tremoços e pequenas porções para compartilhar são os hits também na Petiscaria da Rosa, inaugurada no início do ano no Humaitá, que ganhou na reabertura em setembro um terraço intimista com vista para o Cristo. O proprietário Marcos Muller, sócio também da La Carioca Cevicheria, conta que se inspirou na tradicional Adega Pérola, em Copacabana. “É a cara do Rio”, aposta. Por lá não entram frituras, mas petiscos delicados feitos com a técnica francesa sous vide, bruschettas e risotos.

Pioneira dessa nova leva, a Tasca Carvalho, desde 2016 em Copacabana, ajudou a popularizar o conceito por aqui. Em ambiente despojado, com mesas na calçada, quadrinhos com paisagens de Lisboa e vitrine refrigerada com queijos portugueses, é possível provar iguarias típicas como salpicão (um embutido), bifanas (sanduíche de febras de porco) e vinho verde. Uma boa oportunidade para revisitar nossa própria história e passear pelos sabores da terrinha.