Petrobras recua forte com temor sobre estratégia sob governo Lula

Logo da Petrobras na sede da empresa

SÃO PAULO (Reuters) - As ações da Petrobras recuavam fortemente nesta segunda-feira, em meio a preocupações após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçar sua visão sobre o papel da companhia no desenvolvimento do país e revogar atos que dão andamento à privatização de uma série de estatais, entre elas a petrolífera.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também afirmou nesta segunda-feira que Lula quer esperar a posse da nova diretoria da Petrobras para tomar uma decisão sobre combustíveis, uma indicação de que o novo governo poderia vincular ações da empresa com políticas de preços.

Haddad havia pedido ao governo anterior que deixasse vencer no dia 31 de dezembro a desoneração de impostos federais sobre combustíveis, mas uma das primeiras medidas do novo governo foi prorrogá-las, em meio a preocupações com impacto inflacionário.

O movimento nos papéis também ocorre após a indicação de novo presidente-executivo da companhia.

Às 12:26, as preferenciais caíam 6,33 %, a 22,95 reais, enquanto as ações ordinárias perdiam 7,03%, a 26,07 reais. No pior momento do dia, chegaram a 22,82 e 25,97 reais, respectivamente. No mesmo horário, o Ibovespa cedia 3,07%.

Em discurso no domingo, Lula prometeu resgatar o papel das instituições do Estado, bancos públicos e empresas estatais no desenvolvimento do país. "Os bancos públicos, especialmente o BNDES, e as empresas indutoras do crescimento e inovação, como a Petrobras, terão papel fundamental neste novo ciclo", afirmou.

Na última sexta-feira, Lula indicou o senador Jean Paul Prates (PT-RN) para comandar a Petrobras em seu governo, confirmando rumores no mercado, mesmo diante dúvidas sobre sua elegibilidade ao cargo. Na ocasião, Prates disse que a política de preços de combustíveis do país irá mudar no governo Lula.

Nesta segunda-feira, o presidente determinou que ministros adotem as providências para revogar atos que dão andamento à privatização de uma série de estatais, entre elas a Petrobras.

Analistas do Citi reiteraram ainda na sexta-feira ver riscos em torno da tese de investimento da Petrobras devido às possíveis mudanças na estratégia de longo prazo da empresa e à incerteza sobre sua futura alocação de capital, que acreditamos se traduzir em múltiplos menores em comparação com seus pares.

"Uma das áreas de discussão mais importantes, a nosso ver, é a futura política de dividendos da empresa, que pode convergir para o payout mínimo de 25%. Nesse cenário, vemos a ação sendo negociada com um yield de dividendos de cerca de 8%, o que implica riscos potenciais de queda no preço da ação."

A equipe do banco norte-americano liderada por Andre Barra também afirmou acreditar que quaisquer possíveis mudanças no plano de investimento e na política de preços de combustível podem representar mais riscos.

Para a equipe da Genial Investimentos, o início do novo governo é marcado pela desconfiança do setor privado.

"Os primeiros passos já foram dados, a escolha do senador Jean Paul Prates para comandar a Petrobras reforça que a política de preços deve ser alterada ao longo dos próximos meses", afirmou em comentários a clientes nesta segunda-feria.

Além disso, acrescentou, a reviravolta na desoneração dos combustíveis, com a prorrogação da isenção de tributos federais (PIS/Cofins e Cide) mostra que o atual governo quer evitar um desgaste com a alta do preço da gasolina em detrimento a austeridade fiscal.

"O cenário ainda se mostra bastante incerto, entretanto, as assimetrias apontam que 2023 será um ano turbulento."

Desde a eleição de Lula em 30 de outubro, as PNs da Petrobras acumulam queda de mais de 19% e as ONs da companhia cedem cerca de 18%, distanciando-se das suas máximas históricas intradia de 33,59 reais e 37,43 reais, respectivamente, apuradas também em outubro do ano passado.

Analistas do BTG Pactual afirmaram que o "ruído" em torno da Petrobras tem sido alto desde a eleição e provavelmente levará um tempo para diminuir.

Eles chamaram a atenção para declarações de Prates na semana passada que a política de preços da companhia será revista, bem como a notícias recentes de que relatório completo da equipe de transição energética do novo governo pedia a revisão do Plano Estratégico, incluindo mais recursos para o segmento de refino.

"Continuamos céticos quanto a isso, principalmente... Mas o simples fato de haver esforços para mudar o Plano Estratégico deve ser suficiente para aumentar a volatilidade das ações", afirmaram Pedro Soares e Thiago Duarte em relatório com data de 1 de janeiro.

"Também sentimos que qualquer decisão de reduzir os pagamentos da PBR pode ser repentina, provocando uma rápida deterioração na percepção de risco."

(Por Paula Arend Laier)