PF desconfia que líderes do governo Bolsonaro sabiam sobre a minuta golpista

Documento tinha como objetivo reverter o resultado da eleição que deu vitória a Lula

Minuta golpista é vista pelo PT como uma prova de que Bolsonaro tentou intervir no resultado da eleição (TERCIO TEIXEIRA/AFP via Getty Images)
Minuta golpista é vista pelo PT como uma prova de que Bolsonaro tentou intervir no resultado da eleição

(TERCIO TEIXEIRA/AFP via Getty Images)

A Polícia Federal busca provas de que a minuta golpista criada para que Jair Bolsonaro (PL) revertesse o resultado das eleições circulou entre autoridades do governo anterior no final do ano passado.

De acordo com o blog do Valdo Cruz, do g1, investigadores receberam a informação de que o documento foi enviado por mensagem de celular a assessores do ex-presidente e que passou por membros do comitê da reeleição.

A informação é considerada fundamental no âmbito das investigações sobre a atuação de Anderson Torres, ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal, cuja prisão foi decretada após os atos antidemocráticos de 8 de janeiro – que resultou na depredação das sedes dos Três Poderes.

A minuta foi encontrada na casa de Torres, que atuou como ministro da Justiça no governo Bolsonaro. O documento:

  • Sugeria a decretação de estado de defesa na sede do TSE (Tribunal Superior Eleitoral);

  • Teria o objetivo seria reverter o resultado da eleição que deu vitória a Lula (PT);

O estado de defesa é previsto na Constituição, mas em apenas dois casos, quando a ordem é ameaçada por grave instabilidade institucional ou por calamidades da natureza.

Elaborado dentro do governo

Torres chegou a explicar que a minuta foi entregue por um cidadão comum e que não era raro que apoiadores de Bolsonaro enviassem documentos do tipo com a intenção de garantir a reeleição do ex-presidente.

Entretanto, algumas informações da proposta indicam que ela foi elaborada por quem acompanhava de perto o caso, como:

  • Discussão sobre incluir ou não representantes da OEA (Organização dos Estados Americanos) na comissão que faria a intervenção no TSE;

  • Possibilidade de excluir essa ideia a partir da definição da melhor estratégia para decretar a intervenção;

  • Apontamento sobre a diplomação de Lula acontecer em 12 de dezembro, sendo que na época estava prevista para o dia 19 e só depois a data foi antecipada.

Além disso, interlocutores de Bolsonaro e de Torres disseram à CNN que Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa, estaria envolvido com a produção da minuta golpista. Segundo eles, o general liderou reuniões em Brasília para discutir possibilidades de mudar o resultado do pleito.

Entre as alternativas, estava a intervenção no TSE. Aliados do ex-presidente ainda dizem que o texto surgiu em um desses encontros promovidos por Braga Netto.

Agora, a PF tenta checar se é verdade que as autoridades estavam cientes da proposta. A apuração acontece por meio da análise de dados do celular de Torres, disponíveis em ‘nuvens’ de plataformas digitais.

Isso porque, ao voltar para o Brasil das férias que passava nos Estados Unidos, o ex-ministro não trouxe seu telefone móvel. Ele será questionado sobre o motivo de deixar o aparelho no país quando prestar depoimento. O evento estava previsto para hoje (27), mas foi adiado, ainda sem nova data marcada.