PF e CGU apuram desvio de verbas de projetos da Finatec e do CNPq

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RIO — A Polícia Federal (PF), com apoio da Controladoria Geral da União (CGU), deflagrou ontem operação para apurar esquema de desvio de verbas de projetos de pesquisa financiados pela Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), vinculada à Universidade de Brasília (UNB ), e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Batizada de Operação Klopês, a ação resultou no cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão, no Distrito Federal e em Minas Gerais, e no sequestro de bens e valores na ordem dos R$ 2 milhões por cerca de 50 policiais e três servidores da controladoria. As investigações partiram de um relatório de auditoria da CGU e revelaram um possível esquema de desvios de recursos públicos em projetos que receberam mais de R$ 10 milhões entre 2015 e 2020.

De acordo com a PF, os envolvidos usavam diárias para pagamento de viagens não relacionadas ao objeto das pesquisas, transferiam valores do estudo para a conta pessoal do coordenador de um dos projetos, realizavam pagamentos duplicados para alguns bolsistas e usavam dinheiro da pesquisa para comprar itens supérfluos e até pagar aluguel de imóvel de luxo em Brasília. Também foram identificados saques atípicos de empresa contratada com recursos de pesquisas e a manipulação indevida de documentos.

Os alvos da operação responderão pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro e poderão pegar até 22 anos de prisão.

Conforme noticiou o portal de notícias Metrópoles, o professor da Faculdade de Economia Administração e Contabilidade da UnB, Paulo Henrique de Souza Bermejo, é apontado pela PF como um dos envolvidos no esquema. Ele seria responsável pelo aluguel de uma mansão no Lago Sul, supostamente financiado com dinheiro que deveria ser de pesquisa em tecnologia. O professor ainda teria gasto R$ 65 mil apenas em persianas e blindex, R$ 19 mil na loja Apple Store e R$ 15 mil na loja iPlace.

Esta não é a primeira vez em que a UnB é relacionada a acusações de desvios de verbas. Em 2015, o então reitor da universidade,Timothy Mulholland, foi demitido pelo Ministério da Educação (MEC) depois que a CGU apontou irregularidades em convênios firmados entre a instituição e fundações ligadas ao governo do Distrito Federal, entre 2005 e 2008, quando ele esteve à frente do cargo. O MPF no DF, na época, ainda acusou a Finatec de gastar R$ 470 mil com o apartamento, sendo R$ 1 mil só para uma lixeira. Naquela ocasião, a UnB disse que o gasto não ultrapassou os R$ 350 mil.

Um estudo apresentado pelo presidente do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Odir Antônio Dellagostin, apontou que atualmente o CNPq apresenta uma defasagem no valor das bolsas de mestrado e doutorado de 60% desde o último reajuste em 2013. Mesmo após a liberação de mais de R$ 5 bilhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que possibilitou o primeiro reajuste em oito anos, ainda não será possível suprir todo o atraso.

O que dizem os citados

A Finatec divulgou nota em seu site oficial afirmando que "atua na gestão administrativa e financeira dos projetos de pesquisa, ensino e extensão de suas apoiadas, cabendo a estas o acompanhamento técnico, científico e acadêmico dos seus projetos". A Fundação ainda informou estar à disposição das autoridades para esclarecimentos.

"A Finatec mantém compromisso com a ética e integridade, tendo implementado o programa de governança corporativa e compliance procurando mitigar riscos de atuação e, principalmente, cumprir a legislação vigente.A Finatec, além de previamente já disponibilizar os dados em seu portal da transparência, franqueou acesso irrestrito à documentação solicitada e esclarece que em toda a sua atuação cumpre a legislação", diz parte da nota.

O CNPq informou também, em nota, que não foi notificado pelos órgãos responsáveis pela operação e "a instituição nem seus gestores são alvos da ação".

"Os projetos apoiados pelo CNPq cumprem procedimentos legais e, sempre que são identificadas inconsistências ou irregularidades, são tomadas as medidas cabíveis. O CNPq está à disposição para contribuir no que for necessário", diz o texto.

Procurados, a UnB e o professor da universidade não se manifestaram até a publicação desta matéria.

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