PF e MPF afirmam que Mario Peixoto se escondia por trás de operadores financeiros, expandindo seus negócios fraudulentos na pandemia

Vera Araujo
Operação Favorito, deflagrada pela Polícia Federal, cumpre mandados de prisão de envolvidos em contratos irregulares para implantação de hospitais de campanha no Rio de Janeiro. Na foto, o empresário Mario Peixoto chega preso a sede da PF

Investigações do Ministério Público Federal e da Polícia Federal sobre o grupo do empresário Mario Peixoto, preso anteontem na Operação Favorito, revelam um sofisticado esquema para manter o suposto chefe da organização criminosa oculto. A finalidade principal era justamente que Peixoto continuasse à frente no fornecimento de serviços da rede estadual de saúde, mediante fraudes, se beneficiando de operadores financeiros e laranjas, a fim de não deixar rastros. Com a chegada da pandemia da Covid-19, os suspeitos perceberam que a montagem dos hospitais de campanha seria uma forma de aumentar o seu filão, conforme descrito no pedido de prisão feito pelos procuradores ao juízo da 7ª Vara Federal Criminal: "expandir seu mercado e aproveitando as contratações emergenciais por conta da pandemia para angariar mais contratos públicos, ao mesmo tempo em que permanece com forte atuação nos bastidores políticos, negociando atos com o Poder Público em troca de pagamento de vantagens indevidas".

Segundo as investigações, um dos principais operadores financeiros é Alessandro de Araújo Duarte. Como Peixoto, Alessandro foi preso preventivamente. Mais sete pessoas foram detidas acusadas de envolvimento no esquema e devem responder por peculato e formação de quadrilha. Foi justamente na caixa de e-mail do operador de Peixoto que os agentes federais e procuradores encontraram planilhas com os custos e cronogramas detalhados de contratos da Organização Social (OS) Iabas com o governo estadual, para a montagem dos hospitais de campanha. De acordo com a cautelar do MPF, chamou a atenção deles o fato de Alessandro mandar e-mails para si próprio e "não formalmente" recebê-los de algum funcionário do Iabas. Os documentos trazem informações específicas das sete unidades: Maracanã, São Gonçalo, Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Casimiro de Abreu, Nova Friburgo e Campos dos Goytacazes, com número de leitos e o acompanhamento do andamento das obras até a conclusão de cada uma.

O Núcleo de Combate à Corrupção Força-Tarefa da Lava Jato levantou ainda no e-mail de Alessandro, a análise de custos por hospitais de campanha, totalizando R$ 876 milhões e seis meses. A mesma planilha mostrava o planejamento de gastos com a contratação de médicos, equipamentos de proteção individual (EPIs), equipamentos médicos, infraestrutura, serviços, TI, pessoal e mobiliário. O hospital de campanha mais caro é justamente o Maracanã, o único que foi entregue até o momento para a população pelo governo do estado, com 400 leitos e ao custo mensal de R$ 41 milhões. Os dados foram obtidos a partir da quebra do sigilo de telemático do operador de Peixoto. Os mesmos e-mails foram encontrados na caixa de mensagens de Juan Elias Neves de Paula, apontado como contador do grupo criminoso, datados de 21 de abril deste ano.

Trecho do pedido do MPF afirma que os e-mails encontrados na caixa de entrada de Alessandro "reforçam as suspeitas de que a organização criminosa ora investigada esteja de alguma forma relacionada aos contratos do IABAS com o Poder Público Estadual. Numa das mensagens, de 15 de abril deste ano, havia orçamentos e propostas para implantação dos hospitais. A cautelar dos procuradores prossegue: " a autoridade policial assinala que a recente contratação do governo do Estado do Rio de Janeiro da Organização Social IABAS para a administração de hospital de campanha para tratamento de infectados pelo COVID-19 (cerca de R$ 850 milhões) também teria relação com Mário Peixoto, apesar de não constar qualquer vínculo com ele no quadro social da citada pessoa jurídica". De acordo com as investigações, o grupo econômico de Peixoto não está formalmente ligado ao IABAS que tem apenas um responsável pela OS.

Não é de hoje que Juan atua como contador de Peixoto, segundo os investigadores. Juan é funcionário do setor de contabilidade da Atrio Rio Service que, de acordo com o pedido do MPF, é de Mario Peixoto.  A empresa tem, inclusive, contratos com o Detran fluminense para fornecimento de serviços, no montante de R$ 7.188.845,88, além de outros termos aditivos em valores equivalentes.

Interceptações telefônicas, autorizadas pela Justiça, revelaram ainda aos investigadores a existência de um suposto vazamento de informações sobre o monitoramento do bando. No dia 23 de março, Alessandro e Peixoto se encontraram e, no dia seguinte, o operador da quadrilha telefonou para outro cúmplice, Luiz Roberto Martins. Segundo o  Ministério Público do Rio (MPRJ), Martins é  presidente do Conselho de Administração do Instituto Data Rio (IDR), que tem contratos com a secretaria estadual de Saúde do Rio. No grampo da PF, Alessandro diz que o "amigo", que os investigadores acreditam se tratar de Peixoto, mandou um recado: - Deixa eu te falar um negócio. O amigo pediu para te dar um recado. Para fazer aquela outra barata voa ai. Trocar telefone, aparelho, dar um geral, depois eu te explico. Pediu para eu te avisar de novo - avisou Alessandro, que recebeu um "ok" como resposta de Martins.

No mesmo dia 23, os investigadores descobriram que Peixoto teria habilitado novo aparelho de telefônico e que outro integrante da quadrilha teria apagado seus dados telemáticos de seu celular. Devido ao vazamento em relação ao monitoramento da quadrilha, os agentes decidiram pôr em prática a Operação Favorito, batizada com este nome porque Peixoto já atua em empresas com contratos celebrados de forma fraudulenta com o estado há cerca de 10 anos. O esquema teria começado na gestão do ex-governador Sérgio Cabral, preso por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, se estendendo pelo governo atual de Wilson Witzel.

De acordo com os investigadores, Mario Peixoto "vem ampliando seu espectro de atuação com o domínio velado sobre outras Organizações Sociais, dentre as quais, o Instituto Unir Saúde, o Inpcos e a Associação de Saúde Social Humanizada, havendo, ainda, indícios de participação ou influência sobre a OS Iabas".   A primeira Organização Social chegou a ser reabilitada em 23 de março por Witzel, porque no período de 2018 e 2019,  depois de receber mais de R$ 180 milhões para administrar dez UPAs da capital e da Baixada Fluminense, foi desqualificada por apresentar irregularidades em seus contratos. Um integrante do esquema afirma que foi o próprio Peixoto que tratou com o governador para rever a decisão.