PF mira até “Bíblia na voz de Cid Moreira” para reforçar suspeitas entre a Oi e negócios de Lulinha

"Portal da Bíblia", gravado por Cid Moreira, é citado pela PF como exemplo de contrato sem "lógica comercial" entre a Oi e sócio do filho do ex-presidente. Divulgação/Facebook

Em janeiro de 2009, a operadora Oi firmou um contrato com a Goal Disco para a produção de conteúdo do Portal da Bíblia, um site que disponibilizava aos usuários narrações de passagens bíblicas pela voz de Cid Moreira.

Foi um fracasso de público e venda: pelo serviço, a Oi obteve uma receita de R$ 21 mil, valor muito inferior aos repasses de R$ 16 milhões aos produtores de conteúdo.

A “Bíblia na voz de Cid Moreira” seria um dos muitos cases de fracasso comercial não fossem alguns detalhes: a supertele era uma das campeãs nacionais que receberam todo tipo de apoio para se viabilizar durante os governos petistas; e a Goal Disco pertencia a Jonas Suassuna, empresário e sócio de Fábio Luis, filho do ex-presidente Lula.

As movimentações são citadas no documento que baseou a nova fase da Operação Lava Jato, que na última terça-feira, dia 10, teve Lulinha como alvo. 

Suspeito de se beneficiar de repasses indevidos envolvendo empresas de telefonia, ele teve um pedido de prisão, feito pela PF, negado pela Justiça.

No pedido de busca e apreensão, a PF cita o depoimento do um ex-diretor do Grupo Gol, de Suassuna (não tem relação com a companhia aérea), na qual contratos como o descrito acima serviriam apenas para possibilitar o repasse de recursos da Oi para suas empresas. 

A ação da PF acontece dez dias após o ex-presidente Lula ter a pena ampliada para 17 anos de prisão no caso do sítio em Atibaia (SP), no qual ele é suspeito de se beneficiar de reformas patrocinadas por empreiteiras, de olho em contratos públicos, no local frequentado pelo petista.

Dessa vez a PF mira a compra da propriedade, que teria sido feita com parte dos repasses da megatele.

A ação da PF envolveu 47 mandados de busca e apreensão envolvendo 9 pessoas. Entre os endereços vasculhados estavam empresas ligadas a Lulinha.

A PF contesta a “lógica comercial” dos negócios entre a operadora e as empresas da dupla Fábio Luis e Suassuna, dono oficial de parte do sítio frequentado pelo petista.

Lula reagiu à ação, que chamou de “pirotécnica”, mas a ação mostra que não haverá descanso enquanto o Congresso e o Judiciário tentam chegar a algum termo a respeito da prisão após condenação em segunda instância.

O caso Oi é um dos episódios mais nebulosos dos governos petistas.

A ação policial coloca em xeque a relação entre os contratos sem “lógica econômica” apontada pela PF e a ajuda do governo federal para que a Oi se viabilizasse, inclusive com a compra da Brasil Telecom, em 2008.

Na época, as regras da Anatel, a agência nacional de telecomunicações, não permitiam a operação, mas tudo foi resolvido com uma canetada do então presidente. 

Pela sequência temporal descrita pelas autoridades, incluindo eventos amplamente divulgados na época, o imbróglio que respinga no sítio tem muito mais pontas soltas do que um apartamento no Guarujá que não chegou a ser habitado.

A representação da PF lembra que o negócio contou com R$ 2,5 bilhões do BNDES, R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil, além de investimentos dos fundos de pensão de estatais Previ, Petros e Funcef, controlados por pessoas ligadas ao governo a época, avaliados em R$ 3 bilhões. 

Entre 2004 a 2014, a Oi teria repassado R$ 198 milhões para empresas de Lulinha e Suassuna, que durante um período pagou aluguel para o filho do presidente e gastou cerca de R$ 4,2 milhões na compra e reforma de um apartamento em São Paulo onde ele morou.

No mesmo dia da ação, o atual presidente do Grupo Oi/Telemar, Eurico de Jesus Teles Neto, anunciou que deixará o cargo até o dia 30 de janeiro.

“Qual foi o benefício que teve essa companhia por alguém? Eu desconheço. Estou aqui há 38 anos e vou te dizer o seguinte: essa companhia é só pepino. É só pepino”, disse o executivo.

Em um comunicado publicado nos jornais, a operadora informou que, após o pedido de recuperação judicial em 2017, novos padrões de governança foram estabelecidos e que tem colaborado com todas as investigações.

A evolução das investigações pode representar um duro golpe para o projeto de renascimento petista no momento em que Lula ajudava a organizar a oposição, até aqui zonza, ao governo Bolsonaro.