PF tenta descobrir 'nível de ódio' que levou ao assassinato de Bruno e Dom

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*Arquivo* São Paulo, SP, 23.06.2022 - Ato em São Paulo com a participação das aldeias da Terra Indígena Jaraguá, contra o Marco Temporal e a morte do jornalista Dom Philips e do indigenista Bruno Pereira. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
*Arquivo* São Paulo, SP, 23.06.2022 - Ato em São Paulo com a participação das aldeias da Terra Indígena Jaraguá, contra o Marco Temporal e a morte do jornalista Dom Philips e do indigenista Bruno Pereira. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

MANAUS, AM (FOLHAPRESS) - A investigação da Polícia Federal sobre os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips tenta desvendar o "nível de ódio", nas palavras dos investigadores, que levou pescadores da região do Vale do Javari a executarem os dois.

Para os investigadores, ainda não está claro se houve uma organização prévia do crime, inclusive com participação de diversos integrantes da mesma família, ou se a decisão de assassinar Bruno e Dom teve um aspecto repentino, a partir do momento em que se soube que os dois estavam transitando pelo rio Itaquaí, na região do Vale do Javari, rumo a Atalaia do Norte (AM).

O esclarecimento da motivação com mais objetividade pode ser decisivo para o apontamento da existência ou não de um mandante dos crimes, segundo investigadores ouvidos pela reportagem sob a condição de anonimato.

O pescador Amarildo Oliveira, o Pelado, confessou participação nas execuções e está preso desde as primeiras etapas da investigação. No último dia 8, ele foi transferido de Atalaia do Norte, cidade na tríplice fronteira do Brasil com Peru e Colômbia, para Manaus.

Também participou dos assassinatos, conforme confirmado aos policiais, Jeferson Lima, que vivia em Benjamin Constant, cidade próxima a Atalaia do Norte. Ele também está preso. A mulher dele é parente de Pelado, segundo a investigação.

Um terceiro preso é um irmão de Pelado, Oseney Oliveira, o Dos Santos, que nega participação no crime. Lima e Dos Santos seriam transferidos a Manaus nesta quinta-feira (21), segundo advogados da família.

Os três foram denunciados pelo MPF (Ministério Público Federal) nesta quinta por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver. A Justiça Federal em Tabatinga, também na tríplice fronteira, já aceitou a denúncia, o que significa que eles se tornaram réus. Agora, haverá instrução do processo, até uma eventual condenação.

Na denúncia, o Ministério Público Federal afirmou que "o que motivou os assassinatos foi o fato de Bruno ter pedido para Dom fotografar o barco dos acusados". A motivação é fútil e pode agravar a pena, conforme a acusação.

Mesmo com a denúncia, as investigações prosseguem por parte da PF, por ainda haver perguntas sem respostas, na visão dos investigadores.

A PF prendeu um homem conhecido como Colômbia, por uso de documentos falsos. Colômbia comercializava pescados com Pelado e alimentava a pesca ilegal na região do Vale do Javari. Uma hipótese investigada é que ele possa ser mandante dos crimes. Ele já foi transferido para a carceragem da PF em Manaus.

Os constantes conflitos entre Bruno, que atuava para a Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), e pescadores ilegais na região foram o motivo central para os crimes, conforme constatado até agora.

Bruno ajudou a estruturar o serviço de vigilância indígena que monitora a terra indígena Vale do Javari, onde vivem povos isolados em quantidades tidas como as mais numerosas do mundo.

Além disso, o indigenista atuava diretamente na fiscalização de invasores, após ser exonerado do cargo de coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai (Fundação Nacional do Índio) em setembro de 2019, o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL). Bruno licenciou-se da Funai e passou a atuar para a Univaja.

Nas conversas que Pelado teve com policiais, ele disse ter se deparado poucas vezes com Bruno. O indigenista nunca teria apreendido pescado ilegal que houvesse sido explorado pelo pescador, conforme esses relatos. A PF tenta descobrir que prejuízo efetivo Pereira impôs a Pelado.

O pescador sabia que o indigenista era um dos principais responsáveis pelo serviço de vigilância indígena. O serviço emitia dois alertas diários -via SMS, diretamente da área da terra indígena- com detalhes sobre invasores do território.

Familiares de Pelado, que vivem na comunidade ribeirinha São Gabriel, ao lado da terra indígena, são suspeitos de participação no ocultamento dos corpos de Bruno e Dom.

A PF busca elementos sobre eventual organização prévia desses familiares, o que pode levar à imputação de acusação de homicídio a eles, e não somente de ocultação de cadáveres. Nos depoimentos prestados até agora, eles dizem que não sabiam que Pelado e Lima iriam cometer o duplo homicídio, usando para isso uma arma de caça.

Sobre Colômbia, a PF conseguiu mapear três identidades em seu poder: uma colombiana, uma brasileira e uma peruana. A região onde atua é de tríplice fronteira do Brasil com Peru e Colômbia. Segundo policiais, Colômbia tem balsa e casa em Islândia, uma ilha peruana que fica bem na fronteira.

Colômbia admitiu que conhece Pelado e Lima, e que comprava peixe de Pelado. Até agora, a PF não tem evidências concretas de atuação vinculada ao narcotráfico, hipótese que segue sob investigação. Por outro lado, há indícios de que Colômbia financiava o negócio de pesca ilegal a cargo da família de Pelado.

A defesa de Pelado e Dos Santos afirmou que o pescador que confessou o crime se incomodava por ser chamado de invasor por Bruno e se sentia "humilhado", segundo a advogada Goreth Rubim.

A advogada disse não trabalhar neste momento com a hipótese de que existiu um mandante e afirmou buscar provas de que houve uma provocação a Pelado. As provas, na visão da defesa, podem gerar uma diminuição de eventual pena. Dos Santos não teve participação nos crimes, segundo Rubim.

A reportagem não conseguiu contato com as defesas de Lima e Colômbia.

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